Sustentabilidade

Ecologista revela o som mais ameaçado de extinção do mundo

Redação Hypeness - 16/11/2021 | Atualizada em - 18/11/2021

Depois de passar os últimos 41 anos viajando pelo mundo, o ecologista acústico Gordon Hempton dedicou seu esforços na procura e documentação dos sons mais orgânicos que possam existir: as paisagens sonoras naturais. E conseguiu constatar que elas estão desaparecendo.

Entre suas andanças, Hampton já se encolheu dentro de um tronco oco de uma árvore no noroeste do Pacífico, flutuou em uma canoa pelo rio Amazonas para registrar o gorjeio melódico de aves migratórias raras e ganhou um Emmy por seu documentário The Vanishing Dawn Chorus, que captura a cacofonia do amanhecer em seis continentes. No entanto, o som que Hempton está mais preocupado em preservar é o mais ameaçado de todos: o silêncio.

Pode parecer estranho e até um pouco exagerado “O aquecimento global não é mais importante? E a limpeza de resíduos tóxicos e a restauração de habitats e espécies ameaçadas de extinção? Bem, quando você salva o silêncio, na verdade acaba salvando todo o resto também.” explica.

Para Hempton, o silêncio não é a ausência de som, mas o silenciamento dos toques de celular, dos motores, das britadeiras — da poluição sonora produzida pelo homem que tomou conta do planeta. Além disso, por mais que o barulho seja frequentemente tratado mais como algo incômodo, ele não é apenas irritante — há um corpo cada vez maior de evidências sugerindo que pode estar prejudicando nossa saúde também.

De acordo com um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), os efeitos da exposição a longo prazo à poluição sonora ambiental — que incluem ataques cardíacos, aumento da pressão arterial, derrames, diabetes, demência e depressão, entre outras coisas — podem ser responsáveis ​​pela perda de mais mais de 1 milhão de anos de saúde plena entre os europeus ocidentais.

 

Nossas investidas acústicas também estão devastando o mundo natural. Na verdade, um relatório publicado na revista científica The Royal Society’s Biology Letters mostrou que a poluição sonora ameaça a sobrevivência de mais de 100 espécies animais diferentes.

Debaixo d’água, onde o som viaja mais rápido e mais longe do que em terra, a situação está afetando inúmeras espécies de vida marinha, de acordo com uma revisão da literatura científica. O barulho dos navios, da mineração em alto mar e de pesquisas sísmicas é a causa mais provável do encalhe em massa de golfinhos e baleias, e está relacionado ao fato de cardumes inteiros desenvolverem estresse, perda auditiva e doenças crônicas.

“Quando olhamos para os ecossistemas mais saudáveis ​​que existem hoje em nosso planeta, descobrimos que eles também são os lugares mais silenciosos”, diz Hempton. “São os lugares que retiram o carbono do meio ambiente, produzem oxigênio para respirarmos e onde as espécies ameaçadas não estão em perigo.”

O silêncio está em extinção?

Apesar das evidências indicando que o silêncio nos torna mais saudáveis ​​e a natureza nos deixa mais felizes, Hempton alerta que o número de lugares naturalmente tranquilos está “em rota de extinção que excede em muito a extinção de espécies”.

Nos últimos 50 anos, a população global mais que dobrou, o tráfego aéreo aumentou quase seis vezes entre 1980 e 2019, o aumento da navegação efetivamente abafou a paisagem sonora natural do oceano e estima-se que haverá mais de 2 bilhões de carros nas estradas em 2030.

“O que realmente me preocupa é que, no século 21, faremos com o ar o que fizemos com a terra no século 20 e transformaremos cada bairro em um aeroporto e cada rua em uma pista para nossos drones. A ameaça de ruído está vindo de cima de nós, e não é Deus.”

QPI

Lançada em 2018, a QPI (Quiet Parks International), a primeira organização sem fins lucrativos que visa certificar e preservar as últimas paisagens sonoras naturais da Terra da barulheira causada pela humanidade por meio do “turismo silencioso”. espera essencialmente ser a Unesco do silêncio — um organismo global que identifica as paisagens sonoras mais notáveis ​​e imaculadas acusticamente em todo o mundo e atrai turistas a elas para ajudar a financiar seus esforços de preservação.

A ideia é que, se as pessoas vão aos parques nacionais para ver paisagens intocadas, a praias com selo Bandeira Azul para nadar em águas límpidas e a áreas consideradas Santuário Internacional de Céu Escuro para observar constelações, por que não iriam a parques silenciosos para ouvir o compasso do mundo natural?

Até agora, Hempton e sua equipe de ecologistas acústicos internacionais localizaram mais de 250 lugares em todo o mundo que têm o potencial de serem “Locais Silenciosos” da QPI — e o objetivo é certificar mais de 50 locações até 2030.

Efeitos da pandemia de Covid-19

Em setembro de 2020, a revista Science publicou um relatório concluindo que o lockdown imposto pela pandemia de covid-19 levou “à mais longa e coerente redução de ruído sísmico global registrada da história” — uma redução de ruído sísmico de até 50% em 77 países, de acordo com o estudo.

“Antes da covid, a pergunta mais comum que recebíamos na QPI era: ‘Por que o silêncio é importante?'”, diz ele. “Agora, gestores de terras, comunidades locais e governos estão perguntando como podem ser os próximos”.

Mas não para por aí! A QPI também está desenvolvendo Parques Marinhos Silenciosos e Trilhas Silenciosas e recentemente, lançou uma série de experiências silenciosas online.

A organização está vislumbrando um mundo de restaurantes e voos silenciosos — dando início efetivamente a uma nova era de viagens tranquilas que Hempton espera que ajude as pessoas a se reconectarem com o planeta e com elas mesmas.

“Estamos muito ocupados tentando ver o mundo, mas ouvir é o que conta a história real de um lugar”, diz Hempton. “Quando você está ouvindo, realmente ouvindo, um novo universo se revela.”

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Reprodução/ BBC


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