Debate

Fazendeiros usam avião para jogar agrotóxico sobre a Amazônia, diz levantamento

Vitor Paiva - 19/11/2021

Mais de 30 mil hectares de vegetação nativa na floresta amazônica e em outros biomas foram destruídos, na última década, por grandes quantidades de agrotóxicos lançados de aviões. A denúncia foi realizada pela Agência Pública e Repórter Brasil, a partir de levantamento realizado somente sobre os casos que foram multados pela fiscalização do Ibama: diante do desmonte da fiscalização ambiental realizada pelo governo Bolsonaro, a situação é certamente ainda mais grave do que aponta o estudo inédito: não há informações sobre o possível impacto da pulverização venenosa sobre animais e mesmo pessoas nas regiões destruídas.

Avião despejando agrotóxico sobre floresta

Avião despejando agrotóxico sobre floresta, em imagem ilustrativa

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De acordo com a reportagem da Agência Pública, a destruição documentada pelo Ibama equivale a 30 mil campos de futebol, em processo que se assemelha à tática utilizada pelo exército dos EUA durante a Guerra do Vietnã de lançar o herbicida e desfolhante químico conhecido como Agente Laranja, a fim de destruir as florestas e, com isso, também os esconderijos do exército local – os terríveis efeitos do veneno, porém, são sentidos até hoje sobre a população do país, mais de 50 anos após o fim da guerra.

Helicóptero lançando o Agente Laranja sobre o Vietnã, no início dos anos 1960

Helicóptero lançando o Agente Laranja sobre o Vietnã, no início dos anos 1960

Estima-se que mais de 4 milhões de vietnamitas tenham sido afetados pelo Agente Laranja

Agrotóxico sobre o Vietnã: estima-se que mais de 4 milhões de pessoas tenham sido afetados pelo Agente Laranja

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A comparação não se deu por acaso: segundo a matéria, o agrotóxico 2,4-D, presente na composição do Agente Laranja, foi também encontrado em fazenda em Paranatinga, no Mato Grosso, o estado que mais envenenou a floresta no período. Dos mais de R$ 72 milhões em multas por uso de agrotóxicos jogados de avião no período entre 2010 e 2020, R$ 70 milhões foram aplicadas somente no Mato Grosso. Além do 2,4-D, a fiscalização também encontrou, entre outros, os inseticidas Carbossulfano e Alacloro, ambos proibidos para uso em pulverização aérea no Brasil.

desmatamento na Amazônia

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A aceleração do desmatamento através do uso de agrotóxicos tem como objetivo a produção de soja e a pecuária: somente um pecuarista, Edio Nogueira, dono da Agropecuário Rio da Areia e de sete fazendas espalhadas pelo Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, recebeu mais de R$ 52 milhões em multas, pela destruição de área equivalente a 22 mil campos de futebol. Ainda segundo a reportagem, a falta de fiscalização e punição são os grandes combustíveis do avanço do desmatamento e do uso de agrotóxicos na região: consta que, das 14 multas aplicadas, somente 3 foram pagas, e quanto maior a multa, menor são as chances do pagamento ocorrer.

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A matéria da Agência Pública pode ser lida aqui.

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© foto 1, 2, 3: Wikimedia Commons

© foto 4: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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