Arte

Hilma af Klint, a pioneira da arte abstrata que previu a estética do futuro com seus quadros

Vitor Paiva - 19/11/2021 | Atualizada em - 23/11/2021

Se as grandes mulheres injustamente esquecidas ao longo da história da arte são comuns e recorrentes, as obras dessas artistas são exatamente o oposto: singulares, únicas, instigantes e originais. E o caso da pintora sueca Hilma af Klint é um dos mais emblemáticos e radicais: trabalhando a partir do final do século XIX até a primeira metade do século XX, Hilma foi uma das precursoras da arte abstrata no ocidente, misturando temáticas visuais místicas com grafismos, geometrias e estéticas muitos anos antes de artistas como Kandinsky e Mondrian.

A pintora sueca Hilma af Klint, em foto de 1901

A pintora sueca Hilma af Klint, em foto de 1901

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Nascida em Danderyd, comuna na cidade de Estocolmo, em 1862, af Klint estudou na Real Academia de Belas-Artes, a mais importante escola de artes da capital sueca. A dedicação aos retratos e à representação, porém, aos poucos foi sendo abandonada pela brilhante aluna, conforme se tornava na artista que viria a ser, em processo que acompanhava o interesse de af Klint pelos movimentos místicos da época, como a rosa-cruz, a teosofia e a antroposofia. Mais do que simplesmente criar desenhos abstratos e sem sentidos além do estético, ela buscava, em seus quadros, pintar o que não era visível.

"Primordial Chaos - No 16" (1906-1907)

“Primordial Chaos – No. 16” (Caos primordial – No. 16, em tradução livre) (1906-1907)

A artista em seu ateliê, em 1895

A artista em seu ateliê, em 1895

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Seus quadros, portanto, representavam diversas ideias e sentimentalidades espirituais, mas com uma força moderna que ainda hoje espanta – em um caso incontestável de artista que se apresentava à frente de seu tempo. “As imagens eram pintadas diretamente através de mim, sem rascunhos preliminares, e com grande força”, ela escreveu em um de seus mais de 150 cadernos de anotações. “Eu não tinha ideia o que as pinturas iriam representar: apesar disso, eu trabalhei com firmeza e rapidez, sem mudar uma única pincelada”.

"The key to the work up to this point" (1907)

“The key to the work up to this point” (A chave para o trabalho até aqui, em tradução livre) (1907)

"The Swan - No. 18" (1915)

“The Swan – No. 18” (O Cisne – No. 18, em tradução livre) (1915)

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Suas primeiras pinturas abstratas foram feitas em 1906, quando já se dedicava à pintura há mais de 20 anos. Foi inspirada nas crenças da teosofia que af Klint ajudou a fundar um grupo intitulado “As Cinco”, um círculo de cinco artistas mulheres que dividiam crenças e experiências místicas. Além do próprio estilo, técnicas utilizadas pela artista e pelo grupo, como desenhos e pinturas automáticas, anteciparam estratégias surrealistas em mais de 30 anos. Hilma abandonaria a pintura para se dedicar aos estudos teosóficos em meados dos anos 1930, deixando, porém, uma incrível coleção de mais de 1200 quadros que previam estéticas futuras feito fossem verdadeiras profecias abstratas e coloridas.

Página de um dos mais de 150 cadernos de anotações de Hilma

Página de um dos mais de 150 cadernos de anotações de Hilma

"Buddha's Standpoint in the Earthly Life - No 3a" (1920)

“Buddha’s Standpoint in the Earthly Life – No 3a” (Ponto de vista de Buda na vida terrena, em tradução livre) (1920)

"The Swan - No. 17" (O Cisne - No. 17, em tradução livre) (1920)

“The Swan – No. 17” (O Cisne – No. 17, em tradução livre) (1920)

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A artista viria a falecer em 1944, aos 81 anos, após um acidente de carro, tendo exibido seus quadros poucas vezes em vida e, na maioria dos casos, em convenções espirituais. Nos anos 1980, porém, seu trabalho começaria a ganhar reconhecimento internacional: entre 2018 e 2019, a exposição “Hilma Af Klint: Paintings for the Future” (Pinturas para o futuro, em tradução livre) se tornaria simplesmente a mais visitada da história do Museu Guggenheim, em Nova York, recebendo mais de 600 mil visitantes.

Exposição de Hilma af Klint no Guggenheim, em 2019

Exposição de Hilma af Klint no Guggenheim, em 2019 © The Guggenheim Museum

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© fotos: Wikimedia Commons/crédito


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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