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Fomos conferir a estreia do Afropunk Brasil na maior cidade negra fora de África: Salvador

30 • 11 • 2021 às 16:57
Atualizada em 11 • 04 • 2022 às 13:07
Adriane Primo
Adriane Primo   Redatora Comunicadora, praieira nascida em Ilhéus, no sul da Bahia, nunca soube fazer outra coisa senão comunicação, em especial aquelas que envolvem arte, cultura e sociedade. Já escreveu para jornal, sites de notícias, atuou (e atua) em assessorias de imprensa, gerenciamento de redes sociais, pesquisa criativa e afins. Pensa, escreve e executa projetos de desenvolvimento social.

A maior celebração musical negra do mundo finalmente cruzou o Atlântico e chegou ao Brasil, não por acaso, na maior cidade negra fora de África: Salvador . O Afropunk Bahia estreou em território brasileiro e, depois de três dias de atividades, encerrou no último sábado (27) em formato presencial com público reduzido e  na maior black excellence possível. Foram experiências sonoras, visuais e sensoriais de um movimento negro contemporâneo que floresce no mundo.

O presente é ancestral 

Fruto da Diáspora Africana, o Afropunk é um movimento. E o movimento feito pelo Afropunk Bahia foi de gira. A grosso modo, a gira é uma disposição de corpos em círculo formando um campo de força para mover energia. Um movimento litúrgico realizado pela Umbanda e pelo Candomblé, cada um em suas especificidades espirituais. 

Neste sentido, o Afropunk Bahia correu a gira (amo essa expressão) para que todes pudessem sentir a potência que é quando ocupamos todos os espaços. 

A gente não está inventando uma roda. A gente só está colocando a roda pra girar. Por isso pensamos em um formato para fortalecer esse movimento que, essencialmente, é o fortalecimento de empreendedores negros de vários seguimentos ” , afirmou Val Benvindo, coordenadora do Afropunk Bahia.

Para isso, foi montada uma estrutura audiovisual para que todo o mundo visse o movimento de qualquer parte do espaço ou fora dele, pelo canal oficial do Afropunk no YouTube. 

E como a gira é movimento circular formado por muitos corpos, uma das estratégias da produção foi convidar a plataforma Guia Negro para selecionar projetos gerenciados por pretes, onde as pessoas pudessem se aquilombar para acompanhar online. Em Salvador, foi a Casa La Frida , Malembe , La Bouche e Solar Gastronomia . Em São Paulo, Digaê , Espaço Utomi , Rap Burguer e Aparelha Luzia . No Rio de Janeiro, A Casa do Nando , Boteco e Gafieira Seu França e Didaforam os escolhidos. Além disso, foi aberta uma chamada nacional para produções audiovisuais de projetos musicais e de conteúdos artísticos que se conectavam com um futuro de celebração dos protagonismos afro-indígenas. Esses conteúdos foram exibidos nos canais oficiais do Afropunk. 

Outra expansão desse movimento para reverter a verba dos ingressos ao projeto socioeducativo baiano Quabales . Uma iniciativa cultural que acontece no Nordeste de Amaralina, idealizado pelo multi-instrumentista, compositor, produtor e performer Marivaldo dos Santos. O Quabales contempla teoria musical, violão, percussão, break dance, performance percussiva, canto e percussão eletrônica. Mas seu grande diferencial é a produção de instrumentos musicais não convencionais a partir de material reciclado.

Ao todo, foram cerca de 150 profissionais envolvidos em um movimento que uma tecnologia e ancestralidade. Para a comunidade negra, duas coisas que não se distanciam, uma vez que tecnologia é algo mais subjetivo que está diretamente ligado à sua existência própria. É o que chamamos de Afrofuturismo. 

Escritora e colunista do jornal O Globo, curso online sobre afrofuturismo

Apresentações musicais

Se na música estadunidense vimos esse movimento afrofuturista através de Sun Rá, na Bahia o Ilê Aiyê , o bloco afro mais antigo do Brasil, abriu os caminhos para essa negritude musicalmente potente que temos hoje. 

Para Vovô do Ilê, o Afropunk Bahia representa a continuação de um movimento que começou pelo Ilê há quase cinquenta anos. Em entrevista para o Hypeness, afirmou orgulhosamente que este é um sonho almejado.  

Me sinto recompensado em ver movimento como este acontecendo na capital da negritude. É uma honra para o Ilê estar participando. Nosso sonho almejado já deu certo.

Também ressaltou que já passou da hora dos empresários e produtores baianos começarem a investir em eventos com esta composição. “Agora, espero que os produtores e empresários percebam a importância dos festivais como este que já acontecem em São Paulo, Nova Orleans, etc” , completou. 

O Afropunk Bahia montou uma linha musical incrível, c om Larissa Luz comandando uma apresentação do evento, pudemos conferir shows maravilhosos no palco principal de Tássia Reis com Ilê Aiyê, Mano Brown com Duquesa, Luedji Luna com Yoùn, Urias com Vírus, Malía com Margareth Menezes,  Deekapz, Melly, Cronista do Morro, Batekoo, Tícia, Deize Tigrona e Afrobafho em um palco menor. 

Larissa Luz apresentou o evento

Mano Brown e Duquesa (créditos: Saulo Brandão)

Deekapz convida Melly & Cronista do Morro (créditos: Saulo Brandão)

Margareth Menezes e Malia (créditos: Saulo Brandão)

Urias e Virus (créditos: Saulo Brandão)

Luedji Luna (créditos: Saulo Brandão)

Apesar da diversidade, convenhamos que faltou mais dendê musical, né?! Não à toa os pontos mais altos das apresentações foi ao som de Margareth Menezes e Luedji Luna. Urias, Tássia Reis e Mano Brown também levantaram o público. Críticas à parte de uma jovem senhora de 34 anos que já desceu até o chão nos pagodões em Cajazeiras e já curtiu muito reggae nas praças do Pelourinho, podemos dizer que o Afropunk Bahia entregou tudo! Porque, como movimento, o Afropunk reforça uma ideia. 

“Eu amei tudo. Mas o mais legal foi ver um dos nossos grandes e brilhantes no palco. E MUITO massa ESSA Energia Que emana” , Contou com o ator Nicolas Matheus, de 22 anos, Que atualmente se mantém Como operador de telemarketing.

Moda política 

Nas últimas semanas que antecederam o Afropunk Bahia, a grande questão de quem iria para a gira era a roupa. E não poderia ser diferente, além da música, um dos grandes lances do Afrupunk é o look. E quanto mais babadeiro, melhor! 

E como para uma população negra tudo vira instrumento para construção de novos imaginários sociais. Com a Moda, não poderia ser diferente. Para Pedro Batalha, estilista e diretor criativo da marca baiana Dendezeiro, o Afropunk valoriza a identidade cultural do negro através da moda.

Afropunk: a força de um movimento que impacta a moda e o comportamento em escala global

O Afropunk tenta cada vez mais valorizar a identidade cultural da população negra que, por sua vez, se expressa através da roupa. A moda para nós não é cult. Ela é política. 

A marca tem ganhado o Brasil com suas produções sem gênero e sem tamanho e já assinou parceria com o Instagram, além de vestir vários artistas em ensaios para revistas nacionais. No Afropunk Bahia a marca vestiu Larissa Luz e alguns influenciadores e artistas. 

Confira algumas belezas do #BlackCarpet Bahia: 

Ah! Em 2022 tem mais. O Afropunk Bahia já anunciou sua segunda edição, prevista para acontecer nos dias 26 e 27 de novembro. Mais insurgente, potente e revolucionária. Nos vemos na gira !

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