Debate

Índios isolados assassinados por garimpeiros: entenda riscos à Terra Yanomami

Vitor Paiva - 12/11/2021

O assassinato recente de dois indígenas na Terra Yanomami, mortos a tiros durante confronto com garimpeiros, ilustram tragicamente a ameaça pelo garimpo contra as terras indígenas no extremo norte do Brasil. O crime ocorreu há cerca de dois meses e meio na região do alto rio Apiaú, em Mucajaí, ao Sul de Roraima, e a denúncia do crime foi feita pela Hutukara Associação Yanomami (HAY). As vítimas pertenciam à comunidade Moxihatëtëma, que vive isolada e sem contato externo, e foram mortas enquanto tentavam expulsar um garimpo invasor: três garimpeiros foram atingidos com flechas, que responderam com armas de fogo. Intitulado “Faixa Preta”, o garimpo fica a cerca de 12 km da comunidade.

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Desde abril de 2021 que mais de 10 pedidos de socorro foram emitidos pelos indígenas sofrendo ataques recorrentes com armas e mesmo bombas na região da Terra Yanomami: já são sete pessoas assassinadas pelos garimpos somente nesse ano, com quatro crianças mortas e três adultos Moxihatëtëma. Apesar do Supremo Tribunal Federal ter determinado há cerca de seis meses que a União garantisse a segurança dos Yanomami contra os ataques de garimpeiros em Roraima, os ocorridos confirmam as denúncias vindas dos próprios indígenas de que as comunidades seguem sem qualquer proteção.

Garimpo em terra yanomami

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Um documento relatando os crimes foi enviado para as autoridades e assinado pelo vice-presidente da HAY, Dário Kopenawa. “Quero que a Funai, a Polícia Federal e o Ministério Público encaminhem a investigação do que aconteceu com os nossos parentes isolados, que foram assassinados. Duas lideranças foram assassinadas. Uma situação muito preocupante. Nós já divulgamos a nota da Hutukara, então queremos que autoridades nacionais, internacionais façam uma investigação bem forte”, afirmou Kopenawa, em reportagem do site G1. De acordo com o documento, nos últimos anos a casa-coletiva dos Moxihatëtëma perdeu cerca de 5% de sua população em conflitos, atualmente com menos de 80 pessoas.

Garimpo em terra yanomami

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Além de grave ameaça contra a vida das populações indígenas na região, o garimpo também vem devastando em velocidade assustadora a própria terra. De acordo com o relatório “Cicatrizes na floresta: evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020”, de janeiro a dezembro do ano passado, foi destruída uma área equivalente a 500 campos de futebol na região ao norte do Brasil. Produzido pela HAY em parceria com a Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), o relatório calcula que a destruição provocada pelo garimpo ilegal no período represente um aumento de 30%, para um total de 2.400 hectares, e os rios da região também estão cada vez mais contaminados por mercúrio. A Terra Yanomami é a maior reserva indígena do Brasil, e nela vivem cerca de 27 mil pessoas divididas em mais de 360 comunidades.

Garimpo em terra yanomami

O aumento do garimpo na região foi, segundo relatório, 30% somente em 2020

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© foto 1: Guilherme Gnipper/Hutukara/Divulgação

© fotos 2, 3 e 4: Isa/HAY/Relatório


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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