Debate

Influenciador negro denuncia racismo após ser abordado por PMs ao deixar loja no RJ: ‘Saiu rápido demais’

Vitor Paiva - 19/11/2021

O influenciador Júlio de Sá, da página Carioquice Negra, registrou ocorrência na 5ª Delegacia de Polícia, no Centro do Rio, após sofrer uma abordagem policial racista, enquanto saia de uma loja na região.

A situação foi registrada por Júlio em uma live na quarta-feira, dia 17, mostrando o jovem sendo abordado sem qualquer motivo efetivo em frente à loja por um policial militar do programa Segurança Presente, e correu a internet, provocando indignação nas redes.

O jovem Júlio de Sá

O jovem Júlio de Sá em dois momentos da live que registrou o ocorrido

Racismo

“17 de novembro, Centro do Rio, 14:00 da tarde e eu fui abordado por ‘sair rápido demais da loja’ e por ‘talvez o vento tenha batido na sua camisa e feito um volume’. Foram essas palavras que ouvi ao ser abordado”, escreveu Júlio, em seu perfil no Instagram.

“Imediatamente eu abri uma live, precisava me proteger, já vi tantas outras vezes esse cenário. Que bom que não era 23h da noite, que bom que não estava chovendo e eu não estava com um guarda-chuva, que bom que tenho tantos amigos por mim, mas quantos não tiveram a minha ‘sorte’?”, questiona o post.

O vídeo, de mais de 30 minutos de duração publicado em sua página, registra o influenciador, que tem mais de 184 mil seguidores em sua página, perguntando o motivo pelo qual estava sendo abordado. Um dos policiais questiona sobre um possível “volume” inexistente na cintura do jovem, e pergunta se ele havia ingerido bebida alcoólica, sugerindo que ele estaria “alterado”, até que enfim um dos agentes afirma que o motivo seria o fato de Júlio ter entrado e saído “muito rápido” de uma loja de departamento. “Essa não foi a primeira vez que aconteceu algo tão absurdo comigo, a diferença é que dessa vez eu consegui registrar”, escreveu.

O caso, ocorrido em plena Semana da Consciência Negra, foi registrado como crime de preconceito e, segundo o delegado, todos os envolvidos serão averiguados. “Sai de dentro da delegacia sem nenhuma acusação, não tinham do que me acusarem”, esclareceu Júlio, em seu post.  “Se eu estou cansado disso? Óbvio que sim! Se eu vou parar? Óbvio que não! Não vou parar e serei cada vez mais estrategista para essa luta, cada vez mais cascudo”, concluiu.

“Procedimento padrão”, segundo a polícia

A assessoria de imprensa do programa Segurança Presente respondeu à denúncia em nota. “Os policiais do Centro Presente estavam patrulhando a região na tarde de ontem (17) quando suspeitaram de um rapaz que, segundo eles, demonstrou insatisfação com a aproximação policial e pareceu querer se desvencilhar dos agentes entrando em uma loja. Os policiais se aproximaram do rapaz e pediram que ele se identificasse, mas ele se recusou e foi conduzido à delegacia, conforme procedimento padrão. Na DP ele foi identificado, nada foi constatado e foi liberado em seguida.

Júlio com seus advogados em frente à delegacia, no Centro do Rio

Júlio com seus advogados em frente à delegacia, no Centro do Rio

Vale ressaltar que o foco da Operação Segurança Presente é o atendimento à população e as abordagens policiais são realizadas conforme previsto em lei. (…) As abordagens não são pautadas por cor da pele, orientação sexual, religiosa, de gênero ou qualquer fator pessoal, mas a partir de denúncias ou comportamentos que podem representar algum risco à coletividade”.

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© fotos: Instagram/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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