Estilo

Macaroni, uma subcultura entre o queer e o drag na aristocracia inglesa do século 18

Vitor Paiva - 05/11/2021 | Atualizada em - 09/11/2021

Macaroni é hoje o nome dado a um tipo de massa similar a um pequeno tubo, como um penne liso e curvado, mas, no século XVIII, o termo tinha outros significados – incluindo servir como uma de tantas gírias homofóbicas cunhadas ao longo da história, mas também denominando uma subcultura queer, em meio à elite inglesa da época. Precursor dos dândis do século 19, os macaronis eram homens especialmente ligados em moda, que vestiam-se de forma extravagante e elevada, falavam, segundo registros, de forma afeminada, e comportavam-se entre os gêneros. Eram vistos como possíveis homossexuais entre a aristocracia inglesa, e por isso o termo, que originalmente tinha sentido similar ao “hipster” de hoje, ganhou contornos homofóbicos e passou a servir popularmente também como ofensa.

Ilustração da época mostrando o estilo de um jovem "macaroni"

Ilustração da época mostrando o estilo de um jovem “macaroni” © Messy Nessy/Reprodução

Macaroni

As perucas e maquiagens também eram marca do estilo © Messy Nessy/Reprodução

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A origem da palavra vem do próprio tipo de macarrão, que então não era popular na Inglaterra, mas era conhecido entre os jovens que viajavam pela Europa – que voltavam não só com a preferência pela massa, mas também com hábitos e interesses refinados. Além das roupas especiais, um jovem visto como macaroni costumava também usar maquiagem, jóias e chapéus, assim como cuidar das unhas e vestir imensas perucas para definir seu estilo. Os membros do chamado “Macaroni Club” eram, portanto, homens que rompiam com noções estabelecidas de gênero em tais expressões, e que efetivamente investiam em uma aparência e um comportamento não binário, que inicialmente foi visto pelo público em geral como uma atitude progressista e de resistência contra o establishment da época.

Macaroni

Um dos muitos cartuns debochando dos macaronis nos jornais da época

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A popularização da imprensa e a luta de classes que moveu os jornais da época a buscaram de toda forma ridicularizar a aristocracia rapidamente viu os tais macaronis como um alvo fácil, e assim rapidamente o que antes era visto como excentricidade ou mesmo um interessante posicionamento se tornou gíria para afirmar que alguém era homossexual. Dessa forma, o termo se firmou como expressão pejorativa, para se referir não somente às pessoas que excediam os limites da moda, do comportamento e do refinamento de então, mas também para criticar a empáfia da aristocracia de modo geral. Aproximando-se de uma prática drag, os macaronis passaram a ser motivo de deboche da imprensa da época.

Macaroni

As ilustrações popularizam o termo e o estilo, mas em conotação pejorativa

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Muitas pessoas vistas como macaronis eram de fato homossexuais, e especialistas hoje conectam o Macaroni Club não só com a história da moda, mas também da cultura queer, como uma página escondida de tal cronologia. É importante, porém, lembrar que tais afirmações só foram possíveis por terem se dado entre membros intocáveis da aristocracia, endinheirados e elevados acima das leis – já que práticas homossexuais eram proibidas na Inglaterra até meados dos anos 1960, e que um homem que se comportasse de tal forma em outra classe social provavelmente seria hostilizado ou mesmo preso. Ainda assim, e apesar de ter sido apropriada enquanto gíria pela homofóbica cultura geral, é interessante imaginar que houve um grupo, quase como um movimento cultural, que, na Inglaterra do mais pleno século 18, pôde se expressar abertamente misturando as convenções de gênero em suas identidades.

Macaroni

As roupas eram coloridas e bem cortadas no estilo © Museum associates/LACMA

"Quarto de vestir" dos macaronis em outro cartum de então

“Quarto de vestir” dos macaronis em outro cartum de então

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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