Gastronomia

Negra Cerveja Sommelier: como harmonizar cervejas, livros e comidas mudou a vida de Sara Araujo

Kauê Vieira - 04/11/2021

A relação do brasileiro com a cerveja, apesar de próxima, carece de profundidade. O terceiro país onde mais se consome a bebida no mundo não conhece a fundo os mistérios da cevada. 

O mercado das cervejas artesanais e gourmets ganhou espaço nos últimos anos e hoje em dia é comum ver rótulos para além das marcas que dominam o mercado cervejeiro há décadas. O papo, porém, parece restrito a uma camada da sociedade, digamos embranquecida e com dinheiro no bolso. 

“A minha relação com a cerveja veio bem tardia. Minha mãe é evangélica desde o meu nascimento e bebida não entrava na minha casa. Mantive o hábito de não beber na vida adulta, mas comecei a trabalhar em pub ainda quando cursava a primeira graduação. Lá, tomei contato com as cervejas de massa e artesanais, no entanto, foi de forma bem tímida, pois não cabiam no meu orçamento”, explica ao Hypeness Sara Araujo, mulher negra de 43 anos, formada em direito e com pós-graduação em História da África e da Diáspora Atlântica. 

Sara Araujo harmoniza cerveja, comidinhas e livros

Talvez o nome Sara seja muito vago para que a associação seja feita. E se falarmos Negra Cerveja Sommelier, será que você consegue adivinhar? A “filha da Bahia nascida em Salvador”, como ela mesma se apresenta, é dona de um dos perfis mais irresistíveis do Instagram. 

A nossa entrevistada está à frente do Negra Cerveja Sommelier, página que se sustenta em três pilares: cerveja, gastronomia e história negra. São  mais de 17 mil seguidores, apreciadores na verdade, das combinações espetaculares feitas por Sara, como a saborosa torta rústica de cebola caramelizada e espinafre. Ela, claro, sugere a cerveja perfeita para ornar com o prato.

“Para acompanhar essa torta, escolhi uma cerveja do estilo Dubbel, pelas notas mais maltadas, pelo teor alcoólico e, principalmente, pelas notas carameladas que carrega – o que trará um alinhamento com o dulçor presente na torta”, escreve Sara na postagem de dar água na boca. 

A relação dessa moradora de Maringá com a cerveja se criou a partir de uma experiência desagradável com o racismo. Sara Arujo nos conta que o trato com  a bebida se transformou ao mudar para a cidade paranaense, onde iniciou o curso de ciências sociais na Universidade Estadual de Maringá (UEM). 

Sara diz que costumava ir com os colegas para um barzinho pós-aula tomar uma cervejinha e jogar conversa fora. “Na mesma época, assinei um clube de cerveja artesanal com estilos diversos [da bebida] e uma revista que contava história sobre o universo cervejeiro e harmonizações”, recorda. 

 

A torta rústica de cebola caramelizada e espinafre, com a cerveja do estilo Dubbel

A então estudante de ciências sociais resolveu se arriscar em um desses festivais cervejeiros e saiu com um gosto amargo da boca, mas não provocado por uma IPA ou American Ale. 

Conhecia muito pouco os estilos de cerveja, mal sabia pronunciá-los e ao chegar no estande e solicitar uma IPA fui repreendida pelo atendente dizendo que eu havia pronunciado o nome errado.  Perguntei sobre a cerveja e ele me ignorou, mas deu uma aula a uma moça não negra que chegou depois de mim. Saí daquele espaço triste e frustrada e decidi que iria estudar cerveja. Me formei como sommelière de cervejas no final de 2018.

Mulher negra sommelier de cerveja 

O desprezo de quem deveria orientar foi o combustível de Sara para dar o troco no racismo e se tornar mais especialista no assunto do que o tal atendente no fatídico festival de cervejas. 

Sara Araujo se tornou especialista e referência no assunto e recebeu de presente a chave para um mundo novo. Ela explica ao Hypeness que não bebe todos os dias e que segue o lema do “beba menos e beba melhor”, que remete ao debate sobre a relação incipiente entre brasileiros e cerveja. Ela nos conta como selciona os rótulos das postagens no Negra Cerveja Sommelier. 

“Geralmente posto o que estou com vontade de beber, mantenho bons rótulos em casa e quando passo diante da adega ou abro a cervejeira, o rótulo me escolhe e gosto de dividir essa escolha e o momento da degustação com quem me segue.  Não tenho uma estratégia, apenas posto o que gosto de degustar…e amo cozinhar, cozinho desde os oito anos de idade. Quando fiz o curso de sommelier, a área de que mais gostei de estudar foi a harmonização, amo parear os elementos da cerveja e do prato”.

Ela desfila seu conhecimento técnico sobre a bebida. “Existem alguns conceitos que sustentam a harmonização, são eles: semelhança, contraste, equilíbrio e força. Desse modo, seguindo essas diretrizes, acabo construindo minhas harmonizações. Confesso que parto inicialmente do rótulo, analiso os elementos e então construo o prato”. 

Sara Araujo criou o perfil Negra Cerveja Sommelier

O perfil criado e administrado por Sara é, com perdão do trocadilho, um prato cheio para quem está em busca de uma noite especial ou só quer comer e beber bem – sem nenhuma justificativa para tal. “Uma harmonização de que gosto muito é  ceviche de banana da terra e uma deliciosa witbier, as notas cítricas e adocicadas do ceviche se agasalham com as notas doces e cítricas da witbier – é uma harmonização por semelhança”, vibra. 

Outra harmonização que alcança as batidas do meu coração é uma mousse de maracujá com uma IPA, as notas doces da iguaria contrastam com o amargor da cerveja, trazendo equilíbrio. Se a IPA carregar notas de frutas amarelas, como o maracujá, você não imagina que compasso lindo feito por elas na sua papila gustativa. É algo inimaginável, esplêndido. Harmonizar cerveja e comida é buscar o equilíbrio e a magia que existem nos dois mundos, é usar a técnica aliada com a empiria, com a intuição, com a magia que é transformar algo que aparentemente não daria liga em algo extraordinário.

Vai um livro aí?

O boteco tem um lugar no coração dos boêmios por ser um espaço de troca. O famoso pé sujo, por exemplo, é palco das reflexões sem sentido mais importantes da história de seus frequentadores. Memórias que vivem junto do garçom que você chama pelo nome ou da mesa favorita para apreciar uma bela cerveja em um fim de tarde de calor. 

Mas os bares não são apenas espaços para molhar as palavras. Falar é bom, mas os botequins se tornaram refúgios de escritores que enquanto tagarelam, fazem questão de lançar livros e promover aulas públicas em meio ao fuzuê copos, mesas e gente zanzando para todos os lados. Sara Araujo não é um bar, mas seu perfil no Instagram cumpre a máxima com maestria. 

O Negra Cerveja Sommelier, além de harmonizar cerveja com comidinhas deliciosas, dá dicas preciosas de livros. Mais uma vez a presença destacada da intelectualidade de uma mulher negra. Com Sara não é diferente, “os livros salvaram minha vida”, diz ela ao recordar dos tempos em que mergulhou em sua primeira leitura aos 15 anos, período em que  fazia faxina em uma casa de família – as agruras do abismo racial brasileiro nos coloca com os pés de volta ao chão. 

Os livros sempre estão presentes. Espiou Conceição Evaristo ali do lado?

“Fui uma leitora tardia, na minha casa não tínhamos o hábito da leitura, não havia livros em casa. Trabalhei em uma casa que tinha uma estante cheia de livros e os limpava toda sexta-feira, um dia, abri a estante, peguei um livro e comecei a ler, eu tinha 15 anos e não parei mais”. 

Ela conta que leu a obra de Machado de Assis quase toda antes dos 17 anos. “Aprendi com ele [Machado] o poder da palavra, do argumento, mas foi com Lima Barreto que aprendi a utilizar figuras de linguagem como a ironia e a questionar as injustiças do mundo. Confesso que tive acesso à literatura feminina negra mais tardiamente, não a encontrava nos espaços que frequentava, como as bibliotecas escolares e públicas. A literatura me fez a mulher negra consciente política e racialmente que sou hoje”.

Você deve estar curioso para saber quais são os livros favoritos de Sara. O Negra Cerveja é um perfil predominantemente negro e o mesmo vale para os livros, digamos, hamornizados pela cientista social com a cerveja. Entre as escritoras e escritores prediletos dela estão Carolina Maria de Jesus, o já citado Lima Barreto, Conceição Evaristo, Carlos Assumpção, Jarid Arraes e Françoise Ega, autora do belíssimo “Cartas a uma Negra”.

Eu quero cada vez mais ver a sociedade espantada, pois construíram um lugar social para os corpos pretos em que eu não cabia. Uma mão negra segurando uma taça com uma excelente cerveja, um bom livro, uma ótima comida, é um acinte a branquitude. A mulher preta geralmente serve pessoas brancas e quando ela, neste caso eu, faço minhas escolhas, destruo essa narrativa de subserviência que construíram para mim.

Antirracismo e alcoolismo 

O consumo de álcool no Brasil está acima da média mundial e a Organização Mundial coloca o país na quinta posição em consumo per capita nas Américas. São, em média, 8,9 litros ingeridos por pessoas a partir dos 15 anos, disse a OMS em 2016, revelando aumento de 43% em relação ao estudo feito em 2006.  Lembrando que a média mundial é de 6,4 litros. 

Leia também: Bárbara Borges fala como se curou do alcoolismo e da importância do amor-próprio

O alcoolismo é destrutivo em todos os setores sociais, mas afeta principalmente os mais pobres e negros. São poucos ainda os números com recorte racial sobre a dependência do álcool no Brasil, mas um estudo de 2007 publicado nos Estados Unidos revelou a disparidade entre brancos, negros e hispânicos com ingestão semelhante de bebidas alcoólicas. 

Sueli Carneiro em boa companhia, não é mesmo?

O “Alcoholism: Clinical & Experimental Research” aponta a desigualdade no acesso aos tratamentos contra a dependência como exemplo de racismo. O diagnóstico foi feito por Laura Schmidt, professora de saúde pública da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. 

“Eu poderia consumir três bebidas alcoólicas por dia, o que aumentaria o risco de morrer de cirrose em 50%. No entanto, uma mulher hispana ou negra, da mesma idade e do mesmo nível social, veria aumentar o perigo de cirrose em 75%”, acrescentou à Agência EFE. 

Sara Araújo demonstra preocupação com o tema e ressalta o peso da educação em seu trabalho como forma de conscientização e alerta. “Tenho um compromisso ancestral, principalmente, com o meu povo”, pontua. 

Historicamente, o álcool foi uma das formas que as pessoas negras encontraram para fugir da dor, isto está muito atrelado ao período escravocrata e é muito doloroso saber que muitos e muitas dos meus foram tragados pela bebida. Lima Barreto foi um deles. Então, o lema beber com moderação para mim vai nesse lugar, até porque o maior índice de alcoolismo atinge jovens e sobretudo negros – e eu quero ver esses jovens vivos e desenvolvendo suas habilidades e potencialidades.    

Um viva para o trabalho de Sara Araujo no Negra Cerveja Sommelier

A história de Sara Araújo é, sem dúvidas, um exemplo a ser seguido. A soteropolitana de 43 anos deu um 360 em sua vida, se aproximou da cerveja com um olhar de especialista e encontrou a liberdade para ser o que se é por intermédio dos livros. Agora, consolidada como uma sommelier de respeito, ela segue de mãos dadas com a educação em busca de um presente equânime.

“Os livros foram os principais responsáveis por me permitir uma leitura crítica do mundo e buscar sempre tentar entender as relações sociais. Lutar contra o racismo não foi uma escolha, foi uma busca por sobrevivência em uma sociedade como a nossa, que foi e é estruturada no racismo”.

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Fotos: Reprodução/Instagram/Negra Cerveja Sommelier


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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