Inovação

Nüshu: a língua secreta só para mulheres inventada na província de Hunan, na China

Vitor Paiva - 10/11/2021 às 10:14 | Atualizada em 12/11/2021 às 11:16

Para alcançar algo tão essencial e ao mesmo tempo raro quanto a liberdade de expressão, as mulheres da província de Hunan, ao sudeste da China, encontraram no passado um caminho eficaz e profundo para poderem se comunicar e trocar informações, afetos, sonhos e segredos – e desenvolveram, provavelmente entre o século XIII e XIV, um novo e único sistema de escrita. Intitulado Nüshu, o idioma escrito foi desenvolvido pela população feminina que vivia nos vilarejos rurais escondidos entre montanhas da região, e permaneceu como um segredo local por muitas eras. Ao longo dos séculos, a escrita era passada secretamente entre gerações durante períodos em que o acesso à educação era simplesmente proibido às mulheres.

As montanhas da província de Hunan

As montanhas da província de Hunan © Getty Images

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Alguns especialistas acreditam que a escrita Nüshu seja ainda mais antiga, remontando ao século VIII, ou mesmo à dinastia Shang, cerca de 3 mil anos atrás – o auge de sua popularidade na região teria se dado no século XIX, principalmente no condado de Jiangyong, onde era utilizado pelas mulheres das etnias Han, Yao e Miao. O aprendizado se dava de forma direta: mães que ensinavam às filhas, praticando somente a reprodução dos escritos em relação com sons e sentidos estabelecidos – Nüshu é uma escrita silabaria, na qual símbolos correspondem a silabas que formam palavras, sem uma gramática geral documentada e aplicada, e costumava ser escrito da direita para a esquerda, utilizando gravetos de bambu afiados para realizar as inscrições.

Nüshu

Os símbolos do Nüshu não necessariamente se relacionam entre si em regras gerais © Alamy

Leque com escrita em Nüshu

Inscrições em echarpes e leques eram também meios de trocar mensagens © Xin Hu

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Apesar de não ser costumeiramente uma língua falada, as histórias contam que o Nüshu era utilizado pelas mulheres tanto para anotarem tarefas domésticas, aniversários e memórias simples, quanto para escreverem poemas, cartas, canções e relatos – revelando segredos e contando, para outras mulheres em outras cidades, por exemplo, suas experiências, bem como transmitindo ensinamentos e conhecimentos entre as populações. O idioma escrito, portanto, ajudou no desenvolvimento de uma complexa cultura feminina na região, permitindo a aproximação e a troca entre pessoas isoladas geograficamente e também pelo machismo, a opressão, a falta de acesso à educação.

Nüshu

Em Puwei, o idioma Nüshu segue vivo, inclusive nas ruas e em placas © Xin Hu

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Por séculos ou mesmo milênios, o segredo foi tão bem guardado que somente na década de 1980 o “mundo exterior” tomou conhecimento do sistema. Não por acaso, muito da memória do idioma se deve a um homem, o pesquisador Zhou Shuoyi, que conheceu e aprendeu o Nüshu através de sua tia, nos anos 1950, e enfrentou a perseguição até mesmo da revolução de Mao Tsé-Tung – que visava apagar os resquícios feudais da China – para ajudar a memória do idioma a sobreviver. Recentemente, um ressurgimento do sistema se deu no vilarejo de Puwei, onde até mesmo uma escola foi inaugurada para ensinar a escrita – que hoje é celebrada como um instrumento ancestral de passagem de conhecimento e de libertação feminina, através de uma belíssima caligrafia e simbologia, e da coragem dessas mulheres do passado.

o pesquisador Zhou Shuoyi

O pesquisador Zhou Shuoyi, que ajudou a fazer o Nüshu sobreviver © Frederic J Brown/Alamy

Mulheres na escola de Nüshu, em Puwei

Mulheres na escola de Nüshu, em Puwei © Alamy

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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