Diversidade

O que é pronome neutro e porque é importante usá-lo

Roanna Azevedo - 05/11/2021

Apesar de o debate sobre identidade de gênero ter crescido nos últimos anos para além do movimento LGBTQIA+, muita gente ainda trata o uso do pronome neutro com descaso e até como alvo de piada. Antes de mais nada, é preciso entender que adaptar o modo que nos comunicamos para abranger todas as pessoas, independentemente dos gêneros com os quais elas se identificam, é tão fundamental quanto legítimo.

Para solucionar as principais dúvidas sobre linguagem e pronomes neutros, explicamos os conceitos mais importantes sobre o tema.

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O que é e como funciona o pronome neutro?

Pronome neutro é aquele que tem uma terceira letra para além do “a” e do “o” como vogal temática. Ele é utilizado com o objetivo de não especificar gênero e sim se referir a todas as pessoas, principalmente às não-binárias, aquelas que não se identificam com a binariedade, resumida apenas ao masculino e ao feminino. Isso quer dizer que suas identidades de gênero podem coincidir com as representações associadas tanto ao homem quanto à mulher ou não se encaixar em nenhuma delas.

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Como a estrutura da língua portuguesa segue o padrão binário, sempre marcando o gênero dos substantivos, adjetivos e pronomes, quem se adequa aos dois gêneros ou não se adequa a nenhum fica de fora. O ponto principal do uso da linguagem neutra é incluir todas essas pessoas, respeitando suas identidades e fazendo com que se sintam representadas.

“Olá, meus pronomes são ___/___.”

Para que isso aconteça, é possível substituir os artigos e a desinência nominal de palavras por “ê” (o acento circunflexo é necessário para fazer a diferenciação com a conjunção aditiva e destacar a pronúncia correta). Os caracteres “x” e “@” já foram sugeridos como substitutos dos marcadores de gênero binários, mas deixaram de ser usados porque são difíceis de pronunciar e prejudicam a leitura de quem é deficiente visual ou neurodiverso.

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No caso dos pronomes pessoais e possessivos de terceira pessoa, “ele”/“dele” para o masculino e “ela”/“dela” para o feminino, a orientação é utilizar os termo “elu”/“delu”. Segundo a proposta da linguagem neutra, as frases “O meu amigo é engraçado” e “Ela é bonita”, por exemplo, se transformariam em “Ê minhe amigue é engraçade” e “Elu é bonite”, respectivamente.

Uma outra alternativa é utilizar “ile”/“dile” para substituir os pronomes binários. Já para palavras em que a letra “e” é marcador do gênero masculino aplica-se “ie” no lugar. “Doutores”, por exemplo, pode ser escrita como “doutories”. Todas essas opções equivalem aos pronomes “they”/“them” na língua inglesa, usados pela comunidade não binária por já serem neutros.

Qual a diferença entre linguagem neutra e linguagem inclusiva?

Tanto a linguagem neutra quanto a linguagem inclusiva buscam maneiras de utilizar a língua portuguesa que integrem todas as pessoas, independentemente de suas identidades de gênero. Ambas desejam que nenhum grupo seja excluído ou invisibilizado. O que difere é o modo como cada uma delas faz isso.

A linguagem neutra propõe alterações e acréscimos de palavras no idioma, como é o caso da substituição dos artigos “a” e “o” por “ê”. As mudanças promovidas por ela são mais objetivas e específicas. Já a linguagem inclusiva sugere a utilização de expressões mais gerais, que se referem ao coletivo, no lugar daquelas marcadas por gênero. Um exemplo é substituir “alunos” ou “alunas” por “estudantes”.

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A língua portuguesa é machista?

Os pronomes they/them já são neutros na língua inglesa.

Se a língua portuguesa deriva do latim, que também contava com o gênero neutro, por que os únicos gêneros marcados por ela são o masculino e o feminino? A resposta é simples: no idioma português, o masculino e o neutro se fundiram graças às suas estruturas morfossintáticas parecidas. Desde então, o masculino genérico passou a indicar neutralidade do sujeito, ou gênero não marcado, e o feminino se tornou o único marcador de gênero de verdade.

Quando um falante da língua portuguesa lê ou escuta a frase “Os funcionários da empresa foram demitidos”, por exemplo, ele entende que todas as pessoas que trabalhavam na tal empresa perderam o emprego e não apenas os homens. Por isso, o masculino genérico também é chamado de falso neutro.

Alguns podem pensar que isso é algo positivo, um sinal de que o português já conta com o próprio pronome neutro. Mas não é bem assim. Especialistas argumentam que usar palavras com marcadores masculinos como indicador de neutralidade para se referir às pessoas como um todo é um modo de fortalecer a estrutura patriarcal da nossa sociedade. 

Esse reforço contribui para que a ideia de superioridade do homem em relação a mulher continue sendo naturalizada. Nosso costume de tratar empregadas domésticas quase que exclusivamente no feminino e médicos no masculino é um bom exemplo dos efeitos do uso do masculino genérico.

Apesar da língua portuguesa em si não ser sexista, ela é a ferramenta que a sociedade utiliza para se comunicar e expressar suas opiniões. Se a maior parte das pessoas que compõem essa sociedade é preconceituosa, é para perpetuar estereótipos e intensificar desigualdades que o português será usado.

Qual é a polêmica por trás do uso do pronome neutro?

Ainda invalidada, a linguagem neutra continua sendo motivo de piadas.

Se a implementação do novo acordo ortográfico em 2009 já enfrentou dificuldades para ser aceita pela maioria da população, a questão da linguagem neutra divide ainda mais opiniões. Alguns gramáticos mais conservadores defendem o masculino genérico. Eles argumentam que a língua portuguesa já é neutra e que pronomes como “eles” e “deles” podem se referir tanto a homens quanto a mulheres dentro de um mesmo grupo, rejeitando qualquer tipo de mudança em nome da inclusão de pessoas que divergem da binariedade de gênero.

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Diferentemente da gramática, também conhecida como norma culta, a linguística é mais favorável ao uso da linguagem neutra. Ela afirma que a língua é um produto social em constante mudança. Por ser viva, ela acompanha naturalmente as transformações socioculturais de cada época. É por isso que palavras caem em desuso com o tempo, enquanto outras são adicionadas no vocabulário. “Chat” e “web”, por exemplo, são termos importados do inglês que passaram a integrar nossa língua desde a popularização da internet.

Outro ponto crucial nessa discussão é ter em mente que um mesmo idioma pode compreender mais de uma variação linguística. É muito comum pessoas de lugares, estilos de vida, classes sociais e graus de escolaridade diferentes se comunicarem de uma forma própria entre si. O grande problema é que muitas dessas linguagens são estigmatizadas pelo padrão do grupo dominante, que as invalida como legítimas. Esse é o caso da linguagem neutra que, mesmo após ter descartado o uso do “x” e do “@” como marcador de gênero, continua enfrentando resistência para ser aceita.

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Foto 1: Sharon McCutcheon/Unsplash

Foto 2: Katie Rainbow /Unsplash

Foto 3: Anete Lusina/Pexels


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

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