Diversidade

Professora é afastada por usar livro de Conceição Evaristo em sala: ‘Familiares não se sentiram confortáveis’

Vitor Paiva - 24/11/2021 | Atualizada em - 25/11/2021

Um artigo assinado por Tailane Muniz no jornal Metrópole, e reproduzido pelo site Metro1, denuncia um caso de perseguição e racismo no Colégio Vitória Régia, em Salvador, não somente contra uma professora, mas por conta de uma das maiores escritoras brasileiras.

De acordo com a reportagem, uma professora, mulher e negra de 43 anos, cujo a identidade não foi revelada, foi afastada de uma turma por propor o estudo do livro “Olhos D’Água”, da autora mineira Conceição Evaristo. Vencedor do Prêmio Jabuti, o livro trata em 15 contos da realidade, das dores, violências e lutas das mulheres negras em contextos urbanos.

quadro negro

O artigo denuncia situação de racismo em uma sala de aula baiana

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Veto ao livro de Conceição Evaristo em plena sala de aula 

Segundo consta, a rejeição dos alunos adolescentes se deu por acharem que não devem “lidar” com uma dor que não é deles. Com mais de duas décadas de experiência em salas de aula e 17 anos no Colégio, a professora foi afastada 15 dias depois da turma, com 40 alunos, por pressão de oito famílias – e o que inicialmente parecia um afastamento como forma de proteger a integridade da professora, rapidamente revelou sua verdadeira face: passados dois meses e lecionando em outras três classes, ela ainda não pode voltar à turma em questão.

Parte da escola Vitória Régia, em Salvador

Parte da escola Vitória Régia, em Salvador

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“A coordenação me disse que as famílias estavam enraivecidas comigo, algumas chegaram a ir até lá. Me sinto insegura, porque nem sequer sei quem são esses pais. Pretendo registrar um boletim de ocorrência e pedir uma medida protetiva”, revela a matéria. A direção da escola afirmou que as famílias exigiam que a professora pedisse desculpas para poder voltar a fazer seu trabalho e, diante da negativa da professora – que chegou a ser suspensa momentaneamente de todas as turmas por, nas suas palavras, “não passar pano pra racista” – o Sindicato dos Professores da Bahia (Sinpro-BA) procurou a escola e, ao não obter esclarecimentos, decidiu levar o caso ao Ministério Público da Bahia (MP-BA).

A escritora mineira Conceição Evaristo

A escritora mineira Conceição Evaristo

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“Racismo é injúria, mas também quando pessoas querem te colocar em posição de subserviência. Jamais me desculparia, em respeito à obra e à autora. Eles não quiseram sentir ‘a dor do outro’, tudo bem. Mas nada mais é do que ter empatia”, afirmou a professora.

Vale lembrar que a situação ocorre na capital baiana, a cidade com a maior população negra fora do continente africano no mundo, e a partir da obra de uma das autoras brasileiras mais conceituadas e reconhecidas em todo o mundo hoje. “O silêncio contra os nossos corpos continua sendo uma arma. Estão tentando silenciar as professoras negras, escritoras negras”, afirmou a professora.

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O Colégio Vitória Régia afirmou, em nota, que “o estímulo constante aos estudantes acerca das reflexões e ações sobre as diferenças de pensamento, combate ao preconceito e valorização humana”, é parte do DNA da instituição, que, segundo o comunicado, “preza sempre pela comunicação ética, clara e objetiva, se colocando sempre aberta ao diálogo com os alunos, famílias, professores e colaboradores em geral”. Ao explicar o ocorrido, porém, afirmou que “alguns alunos e seus respectivos familiares não se sentiram confortáveis com a obra, por acharem a linguagem inapropriada para a faixa etária, nos termos da Lei nº. 8.069/90”.

Olho d'Água

Capa do livro de Evaristo, perseguido na escola

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O motivo apresentado seriam as narrativas de violência e os eventuais palavrões na obra, e lamentou que a professora tenha levado o tema para seu perfil pessoal nas redes sociais, negando a acusação de racismo e silenciamento. A nota não explica, no entanto e para além da própria perseguição a um livro, a manutenção do afastamento e da responsabilização da professora.

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© foto 1, 3: Wikimedia Commons

© foto 2, 4: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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