Fotografia

ringl+pit: o estúdio fotográfico experimental criado por duas mulheres queers e poligâmicas nos anos 1930

Vitor Paiva - 12/11/2021 | Atualizada em - 16/11/2021

Antes de ser tomada pelos horrores do nazismo, a Alemanha do período conhecido como República de Weimar, entre 1919 e 1933, era um país democrático e, apesar da profunda recessão econômica, pulsante em termos culturais, comportamentais e artísticos. Nesse mesmo contexto em que surgiu, por exemplo, a mais importante escola de design da história com a Bauhaus, bem como alguns dos mais importantes pensamentos filosóficos do século, uma dupla de fotógrafas mulheres revolucionou a fotografia, a publicidade e mesmo a afirmação queer no período e no país de então. Intitulado ringl+pit, o estúdio fundado por Grete Stern e Ellen Auerbach se tornaria uma das primeiras agências comandadas por mulheres, e ajudaria a definir a “Nova Mulher” de Weimar – e a afirmar a liberdade feminina.

Autorretrato de Greta Stern

Autorretrato de Greta Stern

Ellen Auerbach fotografada por Grete Stern em 1930

Ellen Auerbach fotografada por Grete Stern em 1930

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Greta e Ellen vinham de famílias burguesas e estruturadas quando se conheceram, no final dos anos 1920: ambas dedicadas e talentosas jovens fotógrafas, que rapidamente identificaram-se entre si, tornaram-se amigas e começaram um relacionamento amoroso – para, em seguida, começarem a trabalhar juntas. O espírito, porém, era livre e afirmativo em tudo, tanto no trabalho quanto nos acordos sociais, e a criação do estúdio de fotografia tinha a experimentação estética como norte, assim como o relacionamento entre elas era também aberto, poligâmico e experimental. O casal se transformou em poliamor quando Grete começou a se relacionar com outro artista, chamado Walter Auerbach – com quem Ellen, porém, viria a se casar.

Walter Auerbach e Ellen Auerbach em 1931, por ringl+pit

Walter Auerbach e Ellen Auerbach em 1931, por ringl+pit

Autorretrato de Greta Stern em 1943

Autorretrato de Grete Stern em 1943

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O nome do estúdio, ringl+pit, juntava os apelidos de infância das duas artistas, mas era propositalmente grifado em letras minúsculas e com o sinal de adição entre as palavras, influenciado pelo estilo moderno da Bauhaus, feito uma marca corporativa. Mesmo com enfoque especial em retratos para publicidade, o trabalho da dupla era experimental em tudo: para uma propaganda de luvas, a foto escolhida foi a de uma peça de criança virada do avesso, mostrando seu interior; em outra propaganda de luvas, uma cabeça de manequim compõe a imagem de duas luvas cruzadas. As montagens eram instigantes, singulares, radicais, e levaram o ringl+pit a conquistar público e crítica, tornando-se um estúdio popular e premiado na Berlim do início dos anos 1930.

A luva infantil ao avesso em propaganda pela ringl+pit

A luva infantil ao avesso em propaganda pelo ringl+pit

ringl+pit

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ringl+pit

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As mulheres fotografadas eram também livres e radicais, e a estética afirmava essa liberdade bem como sugeria a força queer e feminista que a dupla levava para sua vida. Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, o estúdio teve de ser desfeito, e Grete e Ellen – cada uma casada, a primeira com o fotógrafo argentino Horacio Copolla, e a segunda com Walter Auerbach – tiveram de deixar Berlim e o país. Grete e Horacio mudaram-se para a Argentina, onde tornariam-se nomes fundamentais no surgimento e afirmação da fotografia moderna no país, e Ellen e Walter refugiaram-se primeiro na Palestina, e depois nos EUA, onde ela também trabalhou por muitos anos com fotografia, para depois migrar para uma carreira em terapia e pedagogia infantil, especialmente para crianças com deficiências.

Grete Stern e Horacio Coppola, circa 1932

Grete Stern e Horacio Coppola, circa 1932

Trabalho de Grete realizado já na Argentina

Trabalho de Grete realizado já na Argentina

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Nos anos 1980 o trabalho do ringl + pit começou a ser redescoberto, e em 1996 tornou-se tema de um premiado documentário. Ainda que tenham trabalhado juntas pela última  nos anos 1940, em um breve período em que estiveram lado a lado em Londres antes de seguirem seus destinos separadamente, as duas artistas permaneceram como grandes amigas até o fim da vida. Grete Stern morreu em Buenos Aires, em 1999, aos 95 anos, e Ellen Auerbach faleceu cinco anos depois, em 2004, em Nova York, com 98 anos.

Elen à esquerda e Grete à direita, em cena do documentário

Elen à esquerda e Grete à direita, em cena do documentário ringl + pit, de 1996

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© fotos 1, 2, 4 e 9: Greta Stern/Messy Nessy/Reprodução

© fotos 3, 5, 6, 7 e 8: ringl+pit/Messy Nessy/Reprodução

© foto 10: Messy Nessy/Reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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