Debate

Suécia abriga crânios de brasileiros em coleção sobre mito racista da ‘superioridade do homem branco’

Vitor Paiva - 17/11/2021 | Atualizada em - 19/11/2021

Uma das mais reconhecidas instituições de pesquisas médicas do mundo, o Instituto Karolinska da Suécia está tendo de lidar com uma terrível herança racista que marcou de forma sombria uma parte de sua história – e que incluiu uma coleção de quase 800 crânios humanos abrigados no local, dos quais nove são brasileiros. Responsável por eleger e oferecer anualmente o Prêmio Nobel de Medicina, o Instituto abrigou, entre os séculos XIX e XX, experimentos pseudocientíficos realizados pelos cientistas suecos Anders e Gustaf Retzius, que também eram pai e filho, que buscavam justificar a falsa ideia de uma superioridade da raça branca, e que utilizava as peças da coleção.

Instituto Karolinska

Prédio administrativo do Instituto Karolinska

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“Sob a perspectiva atual, reconheço que uma parte dos 200 anos de história do Instituto Karolinska pode ser considerada racista”, disse o reitor da instituição, Ole Petter Ottersen, à BBC Brasil. Segundo Ottersen, pesquisadores e professores do instituto “cometeram atos ou expressaram opiniões caracterizadas atualmente como antiéticas, anticientíficas e racistas” sob a influência da “ordem colonial dominante” – atitude definida pelo reitor como “inaceitável nos dias de hoje”. Parte dos crânios utilizados nos experimentos foi saqueada de forma ilegal de túmulos em todo o mundo – a maioria dos nove crânios brasileiros foram enviados ao Instituto por Jonathan Abbot, professor de anatomia inglês que viveu e trabalhou na Bahia, em meados do século XIX.

Crânios do Instituto Karolinska

Parte da coleção de crânios, guardada em caixas de papelão

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Anders Retzius e seu filho Gustaf Retzius foram médicos de renome internacional, mas que defendiam teorias racistas no campo da craniologia, que estuda características do crânio humano para encontrar diferenças – e hierarquias – entre grupos étnicos. Diversas medidas dos crânios determinariam a qual raça o indivíduo pertencia, bem como a suposta superioridade de uma raça sobre outra. A craniometria, portanto, foi utilizada como ferramenta na busca de uma confirmação científica para o racismo e a supremacia branca: no passado, coleções de crânios como o do Instituto Karolinska eram símbolos de status e importância das instituições.

Busto de Anders Retzius no Instituto

Busto de Anders Retzius no Instituto

Busto de Anders Retzius no Instituto

O busto sendo retirado recentemente

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O gesto de admitir e enfrentar esse passo racista por parte do instituto, porém, não se deu somente por simples consciência: protestos e pressões por parte dos alunos vêm exigindo mudanças profundas e imediatas para cessar o que vem sendo chamado de “tributo ao racismo”. Diversas placas, estátuas e homenagens em nomes de alas e prédios dentro do Instituto Karolinska celebram não somente Anders e Gustaf Retzius, como outros cientistas ligados à instituição, como o químico sueco Hans von Euler, sabidamente nazista, que batiza uma das aleias do campus.

Retrato de Gustav Retzius, filho de Anders

Retrato de Gustav Retzius, filho de Anders

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© foto 1: Wikimedia Commons

© fotos 2, 3, 4, 5: Instituto Karolinska


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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