Ciência

Terra plana: tudo o que você precisa saber para combater este embuste

Roanna Azevedo - 04/11/2021

Quem diria que em 2021 ainda estaríamos discutindo sobre o verdadeiro formato da Terra? Milhares de anos e incontáveis experimentos científicos que já comprovaram que o planeta é uma esfera depois, parece que o número de pessoas que duvida disso aumentou nos últimos tempos. Conhecida como terraplanista, essa parcela da população acredita que vivemos em um mundo plano, e não esférico.

Mas por que tanta gente defende essa ideia? De onde ela surgiu e por qual motivo ganhou destaque recentemente? Resolvemos responder essas e outras questões sobre o terraplanismo abaixo.

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O que é terraplanismo?

O terraplanismo é um conjunto de concepções de viés conspiratório e negacionista que afirma que a Terra tem formato plano, e não esférico. De acordo com essas ideias, a superfície terrestre seria um disco redondo e achatado, coberto por uma redoma invisível (domo) e imóvel no espaço, sendo o centro do Sistema Solar. Enquanto isso, os demais planetas seriam apenas estrelas fixadas na abóbada do domo.

Desmentida e classificada como pseudociência pelos cientistas, a teoria terraplanista defende que o Polo Norte ocuparia o centro da superfície da Terra, com os continentes espalhados em torno dele, e que as bordas do planeta seriam compostas por barreiras de gelo, formando a Antártida. Esse continente teria a responsabilidade de conter as águas dos oceanos, impedindo que elas escorressem para fora.

Reprodução de como seria a geografia da Terra plana.

E não para por aí. Para a maioria dos terraplanistas, tanto o Sol quanto a Lua seriam muito menores e estariam mais próximos da Terra, além de se moverem seguindo padrões independentes. Ambos circulariam em volta do Polo Norte e paralelamente a superfície terrestre, impulsionados por uma força desconhecida. Os dias e as noites aconteceriam à medida em que o Sol iluminasse regiões diferentes do planeta durante esse movimento.

Em essência, o terraplanismo se baseia em observações empíricas extremamente simples, sem grande fundamento prático ou profundo. Para isso, desconsidera fatos já comprovados cientificamente, como experimentos, fotografias e expedições, para tentar validar seus argumentos.

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Mas como o terraplanismo explica os efeitos da gravidade?

Ao invés de explicar, teóricos terraplanistas preferem negar a existência da gravidade. Mas por que?

A força gravitacional é o motivo pelo qual a Terra é uma esfera, segundo a lei formulada por Isaac Newton. Ela atrai todos os corpos em direção ao centro do planeta, onde seu campo magnético está localizado, além de ser a responsável por nos manter sobre o chão. A intensidade da gravidade aumenta de acordo com o tamanho do corpo em questão. Por isso, ao exercer sua força sobre os planetas, que têm massas de valor extraordinário, ela moldou a superfície deles, as tornando arredondadas.

Como a lei da gravidade entra em conflito direto com a ideia de que a Terra é plana, ela é desprezada pelo terraplanismo. Para explicar o porquê de tudo ser “puxado” pelo chão, inclusive os seres humanos, os adeptos do movimento desenvolveram a teoria de que a Terra estaria em um movimento de ascensão acelerado, como se fosse um gigantesco elevador subindo constantemente pelo espaço.

Como surgiu a teoria da Terra plana?

A concepção de que a Terra era plana era bastante comum entre civilizações antigas. Na Idade Média, por exemplo, grande parte dos cristãos se baseava nas escrituras sagradas para acreditar nessa teoria. Mas foi apenas no século XIX que surgiu o primeiro movimento moderno em defesa do terraplanismo, fundado pelo britânico Samuel Rowbotham.

Sob o pseudônimo “Parallax”, o escritor inglês publicou em 1881 o livro “Astronomia Zetética: A Terra não é um globo”. Na obra, ele compartilhou suas ideias e fez uma série de interpretações literais da Bíblia com o objetivo de “desmascarar” a ciência, expondo todas as “mentiras” que ela havia contado, principalmente aquelas sobre o formato do planeta. Rowbotham acreditava no método zetético, ou seja, na superioridade das observações sensoriais em relação à teoria científica.

Mapa da Terra plana projetado por Samuel Rowbotham.

Mais tarde, os estudos terraplanistas do britânico foram continuados por Wilbur Glenn Voliva e os criadores da Sociedade da Terra Plana (Flat Earth Society), Samuel Shenton e Charles K. Johnson. A organização teve origem nos Estados Unidos, em 1956, e enfrentou alguns problemas ao longo dos anos, voltando a receber membros somente em 2009.

Uma nova fase do terraplanismo se iniciou em 2014, depois da publicação de um arquivo que apresentava evidências de que a Terra era plana. O autor era o professor Eric Dubay, fundador e presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa sobre a Terra Plana. A instituição defende que a NASA e outras agências são empresas de efeitos especiais que falsificam pesquisas e explorações no espaço para enganar as pessoas. 

Como seria o mundo se a Terra realmente fosse plana? 

Se os milhares de anos de descobertas científicas nunca tivessem existido e a Terra realmente fosse plana, muita coisa seria diferente, além do formato do planeta e da natureza do Sol e da Lua. As estações do ano, por exemplo, não seriam mais determinadas pelos movimentos de rotação (quando a Terra gira em torno do próprio eixo) e translação (quando a Terra gira em torno do Sol), mas pelas diferentes órbitas em que o Sol transitaria, se aproximando ou não de cada trópico de acordo com o momento do ano.

Os vulcões seriam formados não pela instabilidade do interior da Terra, mas pelas consequências da força de aceleração que o planeta sofreria. A pressão sobre o que está abaixo da crosta terrestre seria tanta, que criaria um oceano de magma no manto, o principal material expelido durante a atividade vulcânica.

A atmosfera, camada de gases que envolve a superfície da Terra, passaria a ser chamada de “atmosplana” ou “atmocamada”. Já a região mais quente do mundo não seria a dos polos, mas a da Linha do Equador por estar exatamente abaixo do Sol.

Quais são as evidências que comprovam que a Terra é uma esfera?

Antes que viagens espaciais e fotografias tiradas por satélites fossem possíveis, outros experimentos e observações comprovaram o formato esférico da Terra. 

A geometria euclidiana: No ano de 300 a.C. aproximadamente, o matemático Euclides desenvolveu uma geometria própria, a geometria euclidiana. Segundo ela, a menor distância entre dois pontos em uma superfície esférica, como a Terra, é um arco de circunferência, e não uma linha reta. É de acordo com essa comprovação científica que as rotas de voo e de navegação são traçadas até hoje.

A circunferência da Terra: Séculos após Aristóteles e Pitágoras afirmarem que a Terra era redonda, o matemático grego Eratóstenes foi capaz de determinar com precisão qual era a circunferência do globo terrestre em 240 a.C.. Para isso, ele mediu as distâncias entre as cidades de Alexandria e Siena e comparou os ângulos de incidência da luz do Sol em varetas ao mesmo tempo e em cada uma das cidades. O resultado que Eratóstenes obteve desviava apenas 5% da medida correta realizada por satélites nos dias de hoje.

O mapa do globo terrestre: Por volta de 150 d.C., Claudio Ptolomeu se baseou na circunferência da Terra descoberta por Eratóstenes e na geometria euclidiana para escrever a obra “Geographia”, um compilado de todo o conhecimento geográfico greco-romano, e criar um sistema de coordenadas embasado nos conceitos de latitude e longitude. Assim foi dado o pontapé inicial para o desenvolvimento dos mapas que utilizamos atualmente.

Segunda projeção do mapa do planeta Terra de Ptolomeu.

As circum-navegações: Depois que os mapas foram aperfeiçoados, o navegador português Fernão de Magalhães realizou a primeira circum-navegação (viagem marítima em torno de um mesmo lugar) ao redor do globo terrestre em 1522. Ele viajou rumo a uma única direção e, ao final, voltou ao ponto de onde tinha partido, provando mais uma vez que o planeta era esférico.

A teoria heliocêntrica: Publicada em “As Revoluções dos Orbes Celestes” no ano de 1543, a teoria heliocêntrica foi desenvolvida por Nicolau Copérnico e revolucionou a astronomia da época. De acordo com ela, o Sol era o verdadeiro centro do Sistema Solar e não a Terra, como até então acreditavam.

A teoria da gravitação universal: Reconhecida por Isaac Newton, a teoria da gravitação universal permitiu que fosse possível calcular o sentido e a intensidade da força de atração exercida de uma massa sobre a outra. A gravidade faz com que essas massas sejam atraídas de modo igual por todas as direções. Isso quer dizer que a única forma viabilizada pela gravitação universal é a esférica. Outra constatação importante a partir dessa teoria é a de que, se a Terra fosse realmente plana, a força gravitacional se tornaria mais intensa quanto mais perto nos aproximamos da borda. A gravidade agiria de modo paralelo ao solo e acabaríamos “caindo” em direção ao centro da Terra de novo.

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O pêndulo de Foucault: No ano de 1851, o físico francês Jean Bernard Léon Foucault analisou o movimento de oscilação de um pêndulo e comprovou que a Terra gira em torno do próprio eixo, o que é conhecido como movimento de rotação.

O que causou a ascensão atual do terraplanismo?

As teorias da conspiração, como o terraplanismo, são crenças que tentam explicar eventos da humanidade como frutos de organizações poderosas, ocultas e com más intenções que se unem para planejar tramas secretas, enganando o resto do mundo. Essas convicções são geralmente baseadas em mentiras, na rejeição de estudos científicos e na distorção de fatos. O objetivo é descredibilizar as versões oficiais de determinadas situações e acontecimentos.

Psicólogos afirmam que não existe um único motivo para as pessoas acreditarem em teorias da conspiração. Elas podem adentrar esse universo enquanto estão à procura de explicações sobre algo no mundo, identificação com um grupo ou reafirmação dos seus preconceitos contra determinadas minorias sociais. 

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Acreditar que a Terra é plana pode não ser consequência da falta de uma educação formal, mas de um viés ideológico mais conservador, por exemplo. Grande parte dos terraplanistas, inclusive no Brasil, se apoiam em interpretações independentes da Bíblia, defendendo uma “ciência cristã” em detrimento de descobertas realmente científicas. 

Maquete de Terra plana na primeira Convenção Nacional da Terra Plana em São Paulo, 2019.

Por mais antiga que fosse a teoria terraplanista, o cenário atual se tornou favorável para que essa ideia ganhasse força e popularidade. A era da pós-verdade na qual vivemos é marcada pela desimportância dos fatos. A cada dia, eles exercem menos influência sobre a formação de opinião de uma pessoa, que prefere dar ouvidos às suas crenças pessoais e emoções. Portanto, se um determinado acontecimento está em concordância com uma das minhas ideias, para mim ele é verdadeiro simplesmente porque eu quero que seja.

O compartilhamento de fake news, memes e boatos nas redes sociais agravam ainda mais a situação. A desinformação se espalha e as mentiras se tornam verdades absolutas. Caso haja a tentativa de um debate entre um conspiracionista e um especialista, por exemplo, ele logo será invalidado porque o estudo científico foi esvaziado de importância.

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Como constatar o formato do planeta Terra de forma independente?

Se as inúmeras evidências científicas coletadas ao longo dos anos ainda não forem suficientes para fazer alguém acreditar que a Terra não é plana, existem alguns testes que podem ser feitos por qualquer um que comprovam o formato esférico do planeta.

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Observar um barco ou navio se afastar no horizonte: À medida em que um barco navega em direção ao horizonte, seu casco é a primeira coisa que deixamos de ver, sendo possível observar apenas o mastro e a vela. Conforme ele avança, passamos a enxergá-lo cada vez menos, até que o percamos totalmente de vista. Isso acontece porque a Terra é uma esfera. Se ela fosse plana, veríamos o barco por completo, porém menor.

Subir em um lugar alto: Quando estamos em um lugar muito alto, é possível ver coisas que não conseguíamos no momento em que ainda estávamos no chão. Quanto mais alto for esse lugar, mais coisas veremos. Isso jamais aconteceria se a Terra fosse plana. Nesse caso, seríamos capazes de enxergar a mesma paisagem independentemente da altura do lugar em que estamos.

Assistir a um eclipse lunar: Um eclipse lunar acontece quando a Terra passa entre o Sol e a Lua, projetando sua sombra nessa última. Essa sombra é sempre redonda e pode ser produzida apenas por um corpo de formato esférico. Portanto, se a Terra fosse um disco plano, jamais criaria esse tipo de sombra.

A ocorrência de um eclipse lunar.

Conheça os diferentes fusos-horários: O motivo pelo qual os fusos-horários existem, ou seja, é dia em uma parte do mundo e noite em outra, é o movimento de rotação da Terra. Se ela fosse plana e imóvel, como a teoria terraplanista defende, seria possível ver o Sol mesmo estando de noite.

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Foto 1: Reprodução/Jonatan Sarmento/Thales Molina/Superinteressante

Foto 2: Reprodução

Foto 3: Reprodução/Leinhart Holle, 1482

Foto 4: Reprodução/Rafael Roncato/Folhapress

Foto 5: Unsplash


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

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