Arte

Viola de cocho: o instrumento tradicional do Mato Grosso que é patrimônio Nacional

Vitor Paiva - 03/11/2021 | Atualizada em - 05/11/2021

Mais do que simplesmente um instrumento musical, a viola de cocho é um verdadeiro símbolo, um elemento da história e da memória do Brasil, e um patrimônio nacional imaterial reconhecido e tombado. Desde sua fabricação até a sonoridade e elemento determinante da identidade da região do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, a viola de cocho veio de Portugal, mas ganhou novos materiais e novas formas de fabricação, bem como uma maneira original de ser tocada e, assim, tornou-se um instrumento tipicamente local: um instrumento profundamente brasileiro.

viola de cocho

A viola de cocho veio de Portugal para ser adaptada ao estilo nacional e pantaneiro © IPHAN/Reprodução

viola de cocho

O instrumento mistura cordas de tripa ou de pesca com cordas de metal de violão © IPHAN/Reprodução

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O nome vem da técnica de fabricação, similar à feitura de um cocho, recipiente usado para colocar alimentos para animais: ambos são talhados a partir de um pedaço de madeira maciça. Para feitura da viola, a madeira é “cavada” até formar um vão como a caixa de um violão, que depois é tampada e recebe as outras partes do instrumento. Acredita-se que o instrumento foi para a região vindo de São Paulo com as expedições bandeirantes, e os registros do uso da viola de cocho no centro-oeste do país remontam a meados do século XIX, em festas tradicionais bem como em ritmos e estilos pantaneiros como o cururu e o siriri.

Feitura da viola de cocho

A viola é talhada diretamente em um tronco maciço © IPHAN/Reprodução

Viola de cocho

Algumas versões da viola trazem um furo no tampo © Wikimedia Commons

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O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) não só reconheceu em 2005 a viola como patrimônio imaterial nacional, como preparou um interessante dossiê, contando a história do instrumento e suas técnicas de fabricação. Segundo consta, madeiras como Ximbuva e Sarã são utilizadas para o corpo, enquanto a raiz de Figueira Branca é a mais recomendada para o tampo – o Cedro é utilizado nas peças restantes. O encordoamento tradicionalmente trazia três cordas de tripa e uma coberta de metal como dos violões, mas atualmente a tripa vem sendo substituída por fios de pesca.

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O instrumento também costumava ser feito com um pequeno furo no meio do tampo mas, para evitar que aranhas e outros animais entrem na viola e prejudiquem seu som, atualmente é normal encontrar novos instrumentos que não trazem o buraco. O processo de tombamento e de tornar a viola de cocho em patrimônio se deu como meio de resgate, valorização e conservação de uma cultura ameaçada, não só pela passagem do tempo, como por uma tentativa de registro. Alguns anos antes, um estudioso de musica cuiabano havia registrado a marca “Viola de Cocho” no INPI: uma série de mobilizações e protestos, porém, cancelou o registro, e precipitou o processo de reconhecimento e tombamento desse símbolo – musical, estético, memorial, histórico – da região centro-oeste do Brasil.

Viola de cocho

A viola de cocho pode ser simples ou decorada com madeira estampada © Wikimedia Commons

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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