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Violet Gibson: a história da mulher que tentou matar Mussolini

Vitor Paiva - 05/11/2021 | Atualizada em - 09/11/2021

Violet Gibson tinha 39 anos quando foi até uma praça a Roma a fim de mudar a história – e disparou dois tiros contra Benito Mussolini, líder fundador do fascismo, que governou a Itália entre 1922 e 1943 em uma ditadura de extrema-direita. Censurando e perseguindo opositores políticos, rasgando a constituição do país e se posicionando como líder supremo, impondo prisões e torturas arbitrárias, aliando-se a Hitler e causando a morte de milhões e milhões de pessoas, Mussolini foi um dos mais terríveis ditadores do século XX, mas por poucos milímetros tudo isso não deixou de acontecer. Foi essa mínima distância que separou um dos tiros disparados por Gibson da face do ditador, na Piazza del Campidoglio, na capital italiana, em 1926.

Mussolini discursando em Roma

Mussolini discursando em Roma © Wikimedia Commons

O líder fascista ao lado de Hitler durante a Segunda Guerra

O líder fascista ao lado de Hitler durante a Segunda Guerra © Wikimedia Commons

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Filha de um político com uma cientista, Violet Gibson nasceu em Dublin, na Irlanda, em família nobre: seu pai era o Lord Ashbourbe, e ocupava a função de Lorde Chanceler, então o cargo judicial mais alto do país. Católica fervorosa, Gibson enfrentou, ao longo de toda sua vida, quadros de instabilidade mental ou mesmo de surto psicótico, tendo sido internada por dois anos no início dos anos 1920: em 1925, ela tentou o suicídio, atirando contra si. Foi nesse período, segundo relatou, que compreendeu que deveria assassinar o líder fascista “para glorificar a Deus”.

Violet Gibson

Violet Gibson em sua juventude, à época em que permaneceu internada © Myles Dungan/Reprodução

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Mussolini caminhava em meio a multidão, após sair de um congresso internacional de cirurgiões, quando se pôs na mira do revólver Modèle 1892 que Gibson carregava, escondido em um xale preto. Segundo relato posterior, ela cria que Deus havia enviado um anjo para manter seu braço firme na hora de puxar o gatilho: um dos disparos, porém, falhou, enquanto o outro atingiu de raspão o nariz do ditador, que sobreviveu ao atentado com somente um curativo no rosto. A mulher por pouco não foi linchada no local pelos seguidores fascistas, mas acabou presa pela polícia e em seguida deportada para o Reino Unido, após ser perdoada por Mussolini e dispensada das acusações.

Gibson presa após atirar contra Mussolini

Gibson presa após atirar contra Mussolini © Wikimedia Commons

Mussolini com um curativo no nariz

O ditador com um curativo no nariz por conta do tiro de raspão © Getty Images

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À época, especulou-se que a mulher estaria em surto quando do atentado, mas a própria Gibson negou, afirmando que havia agido sozinha e ciente de seus atos. Mais do que seu sentido literal, o tiro saiu completamente pela culatra em sua tentativa original: ao sobreviver ao atentado e perdoar a mulher que tentou lhe matar, Benito Mussolini conquistou ainda maior popularidade, impondo, pouco tempo depois, severas mudanças na legislação italiana, oprimindo ainda mais os adversários e tomando o controle completo do país. Violet Gibson passou o resto de sua vida em uma instituição psiquiátrica na Inglaterra, apesar de seus diversos pedidos de liberdade, e veio a falecer no local, aos 79 anos, em 1956 – Mussolini, no entanto, já havia sido morto, em 1945, no processo de conclusão da Segunda Guerra Mundial.

Mussolini

Por milímetros o atentado não tirou a vida do fascista italiano © Getty Images

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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