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Wagner Moura detalha luta para colocar ‘Marighella’ nas ruas e acusa presidente de terrorismo

Vitor Paiva - 08/11/2021 | Atualizada em - 09/11/2021

Depois de 2 anos de ameaças e intensas campanhas contrárias, por parte tanto de uma militância de extrema-direita quanto do próprio governo federal, “Marighella”, filme dirigido por Wagner Moura contando os últimos anos da vida do mais célebre guerrilheiro a lutar contra a ditadura militar no Brasil, finalmente estreou. Nas entrevistas recentes que o ator e diretor vem dando para divulgar o trabalho e convidar o público a ir aos cinemas, Moura relata não só as qualidades do filme e da história, mas também a verdadeira luta que vem enfrentando para que seu filme possa existir – e as situações de censura e ataque que sofreu, por parte até mesmo do atual governo federal.

Seu Jorge e Wagner Moura durante as filmagens de "Marighella"

Seu Jorge e Wagner Moura durante as filmagens de “Marighella” © Divulgação

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Em entrevista recente ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Moura detalhou o caminho enfrentado pelo filme até chegar às telas, como também posicionou-se sobre os ataques sofridos e sobre como enxerga o sentido que a história de Carlos Marighella possui. “[O filme] homenageia também Canudos, Palmares, a Revolta dos Malês e outras revoltas populares que sempre foram contadas do ponto de vista do dominador”, afirma o diretor. “Os acusados de terroristas são os pobres, o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], o Black Lives Matter, e isso sempre me incomodou, mas 600 mil mortos por Covid é terrorismo, 19 milhões de pessoas passando fome, a Amazônia pegando fogo, o ministro da Economia que tem uma conta offshore enquanto o povo paga imposto alto é terrorismo”, afirmou.

Seu Jorge, Wagner Moura e Bruno Gagliasso, no Festival de Berlim, em fevereiro de 2019

Seu Jorge, Wagner Moura e Bruno Gagliasso, no Festival de Berlim, em fevereiro de 2019 © Getty Images

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O filme foi primeiro exibido e recebido com aplausos em fevereiro de 2019, no Festival de Berlim, e estava previsto para estrear em novembro do mesmo ano no Brasil, mas só chegou aos cinemas brasileiros agora, em novembro de 2021: a equipe enfrentou ameaças de invasão e agressão durante as filmagens, além de ataques nas redes por membros do governo e boicotes por parte da Ancine, que afirmou problemas burocráticos para adiar algumas vezes a estreia, negou ressarcimentos e adiantamentos financeiros afirmados como legais pela 02, produtora do filme, e chegou a arquivar o projeto de lançamento. “A questão com a Ancine foi uma situação absolutamente clara de censura“, afirmou Moura.

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Moura também denunciou um ataque realizado por homens encapuzados contra um acampamento do MST em Prado, na Bahia, onde o filme será exibido. “Eu não tenho medo dessa gente, são covardes”, declarou. “Fazer um filme sbore Marighella no Brasil faz parte de um movimento contra o fascismo do qual me orgulho de participar”. O filme é baseado no livro “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo”, de Mário Magalhães, o filme conta os cinco últimos anos da vida do guerrilheiro, desde o golpe militar, em 1964, até seu assassinato, em 1969.

Seu Jorge e a atriz Adriana Esteves em cena do filme "Marighella'

Seu Jorge e a atriz Adriana Esteves em cena do filme © Divulgação

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Eleito Deputado Federal pelo PCB em 1946, Marighella foi baleado e preso logo no início da ditadura militar e, depois de solto, em 1965 migrou para a clandestinidade e aderiu à luta armada, tornando-se o “inimigo número um” da ditadura. ”Você não precisa gostar, mas você não pode trabalhar para que o debate cultural seja interditado”, comentou o diretor. “A gente não pode admitir um governo federal trabalhando para que um filme não aconteça. Até hoje tem gente do governo falando mal, mobilizando sua militância digital para dar nota baixa no IMDb. É uma luta bruta, e isso diz mais sobre o estado das coisas do que sobre o filme”, afirmou. “Marighella” é a estreia de Wagner Moura na direção, traz Seu Jorge no papel principal, e está em cartaz em diversos cinemas do país: em três dias superou 36 mil espectadores, tornando-se o filme brasileiro mais visto do país em 2021.

Seu Jorge em Marighella

O filme conta os últimos anos da vida do mais célebre guerrilheiro do Brasil © Divulgação

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© fotos: créditos


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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