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5 frases capacitistas para não repetir na ceia de Natal (e na vida!)

17 • 12 • 2021 às 10:08
Atualizada em 22 • 12 • 2021 às 10:08
Veronica Raner
Veronica Raner Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

Eduardo Victor é daqueles que amam o Natal. Morador da Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele vê na data um momento de acolhimento, mas não necessariamente entre a família de sangue. Para ele — e para um número cada vez maior de pessoas — família não significa só aquele grupo de pessoas que compartilha laços consanguíneos com você, mas aqueles que te abraçam na integralidade de quem você é. 

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Eduardo Victor, o Dudu.

E no caso de Dudu, como gosta de ser chamado, isso inclui sua paixão por música, sua vida como DJ, criador de conteúdo, influencer, palestrante e o fato dele ser uma pessoa com deficiência. Dudu nasceu de um parto prematuro, aos seis meses de gestação. Hoje tem 21 anos e usa sua voz para levar o debate sobre capacitismo à frente. Mas não só isso.

A minha deficiência me define sim, porque ela faz parte da minha vida. tudo que eu faço eu faço sendo uma pessoa com deficiência cerebral, mas eu não sou só isso. Eu sou uma pessoa complexa como qualquer outra, eu tenho outras habilidades que também são parte de mim”, diz. 

Neste Natal, Dudu decidiu fazer algo diferente. Ele se juntou ao Hypeness para contar os 5 tipos de frases que nenhuma pessoa com deficiência aguenta mais ouvir, seja na hora da ceia, do amigo oculto ou fora das festividades do fim do ano. 

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As pessoas acham que podem falar o que quiserem e que você (enquanto pessoa com deficiência) não sabe se defender.  A família também é o lugar onde, muitas vezes, essas violência são reproduzidas independente da data comemorativa. Por anos eu fiquei constrangido na forma que eu dançava, que eu andava, na hora de fazer o amigo oculto… Tudo é o limite que a gente coloca e, nessas horas, o limite nunca era o que eu colocava e sim o deo outra pessoa. A ceia já foi momento de muito climão e eu sei que pela primeira vez não vai ser constrangedor como foi em outras vezes”, desabafa.

A ceia de Natal é um momento de celebração mas também é um momento em que vão falar sobre o jeito que você anda, que você não anda, e por aí vai”, diz. 

1) ‘Nossa, mas nem parece que tem uma deficiência!’ 

Eu não poderia começar com outra frase porque já ouvi muito. Uma vez, inclusive, minha tia estava conversando com uma amiga e falou sobre uma das minhas primas, que havia passado no vestibular. Essa amiga da minha tia perguntou se eu ia me formar na faculdade e completou: “Para quem tem paralisia cerebral, até que você chegou longe”. A minha prima estava do lado e ia rebater, mas eu segurei ela e disse: “Hoje é domingo, deixa para lá.”

A gente precisa entender que pessoas com deficiência são só pessoas. Ter uma deficiência é normal, faz parte do ser humano. É comum ser como eu sou. Essa moça podia simplesmente falar: “Nossa, meus parabéns!” porque eu consegui me formar. As pessoas, no geral, não conseguem se formar, PCDs muito menos. A maioria da nossa sociedade não tem ensino superior, isso já é motivo suficiente para você me parabenizar. É só dar parabéns.” 

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2) ‘Ai, tadinho…’

Por que você tem pena de eu ter deficiência se isso é algo comum? É normal! Algumas pessoas tem essa ideia de que é a minha existência é um milagre e que eu deveria não conseguir fazer nada. Há também um abandono por parte dos pais quando descobrem que a criança tem deficiência. Existe um coitadismo que é fruto de uma desumanização. Mas eu sou uma pessoa como qualquer outra, só sou diferente do que as pessoas dizem que é a norma.” 

3) ‘Você é um exemplo de superação!’

Não é porque eu tenho uma deficiência que eu estava fadado a morrer. É óbvio que eu tinha um risco de vida muito grande, eu nasci com seis meses e meio, isso vem carregado daquele ‘apesar das suas limitações, você está aqui com a gente’. Porque existe esse imaginário do que é ter ou não ter uma deficiência. Apenas 1% das PCDs do Brasil tem emprego neste país. E por eu ter, me colocam nesse lugar de milagre. Não é para romantizar isso. Eu não quero ser a única pessoa de um lugar a ter uma deficiência. Olhar para o lado e ver uma pessoa como eu é extremamente importante.” 

4) ‘Parabéns pela sua história de vida’

As pessoas não me falam ‘parabéns pelo seu trabalho’, ‘parabéns pelas suas conquistas’, elas me dão parabéns pela minha vida. A gente percebe o tom quando é com a gente. Espera-se muito sobre o que uma pessoa com deficiência tem capacidade de fazer. Quantas vezes eu não ouvi que eu deveria fazer concurso porque tem cota. Espera-se que haja um limite em que a gente vai chegar e não vai passar daquilo. Não tem problema se você é uma pessoa com deficiência e tem limitações, mas não se pode pensar que a pessoa com deficiência é só um determinado padrão. Nós somos múltiplos. É muito legal quando alguém se emociona com a nossa historia, mas eu quero que você entenda que a minha história faz parte de um processo de naturalizar corpos como o meu para que não existam limites quando a gente pensar em uma pessoa com deficiência.” 

5) ‘Mas o que ELE teve?’ 

Chega alguém que sabe que você é deficiente, mas não sabe o grau. Dificilmente ela vai se referir a você diretamente. Ei, eu estou aqui, você pode falar comigo. Se eu não souber falar, alguém vai te sinalizar. Olha para mim, eu não sou um neném, sou um adulto, Meu trabalho inclusive é me comunicar. Falar sobre quem a gente é também é muito sobre controlar a sua narrativa. Sou eu tendo o poder sobre quem eu sou, sobre a minha história, sobre o que eu quero construir. A gente só pode pensar o futuro se a gente souber quem a gente é agora.

 

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