Arte

A pintora Artemisia Gentileschi foi uma guerreira feminista do século XVII e um dos maiores nomes do barroco

Vitor Paiva - 03/12/2021 | Atualizada em - 07/12/2021

Não foi por acaso que a pintora barroca italiana Artemisia Gentileschi se tornou um ícone do feminismo já nos anos 1970, mais de 300 anos após sua morte, ocorrida em 1656 – e curiosa e tristemente nem foi somente por seu grande talento para pintura, que, a propósito, a coloca em destaque entre os maiores nomes do barroco em todo o mundo. Artemisia foi uma verdadeira feminista de sua época, que sofreu de violência sexual, lutou contra a opinião pública que condenou e estigmatizou a vítima enquanto amenizava a culpa do agressor, e ainda conseguiu se destacar em meio a um contexto totalmente dominado por homens como era o da pintura na Europa do século XVII, para ser cada vez mais reconhecida hoje pela imensidão de seu talento e sua obra.

Autorretrato tocando violão, 1615 e 1617.

Autorretrato tocando violão, 1615-1617

Judite decapitando Holofernes, 1612-1613.

Judite decapitando Holofernes, 1612-1613. Esse quadro é a leitura de Artemisia para uma pintura clássica de Caravaggio, com o mesmo nome e a mesma cena bíblica

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Artemisia nasceu em Roma, em 8 de julho de 1593, filha do pintor Orazio Gentileschi e de Prudentia Montone. O pendor para a arte, portanto, veio de casa: desde muito pequena, brincando no ateliê do pai, Artemisia já demonstrava talento para o desenho e para a pintura. Aos poucos, a influência que o grande pintor barroco Caravaggio exercia sobre o trabalho de Orazio foi se derramando também sobre as pinturas da jovem – que, no entanto, trazia em seu estilo uma forma original, natural e direta, de representar os temas, afastando-se de qualquer idealização dos trabalhos e assuntos retratados e, assim, desde muito cedo conquistando admiradores e crescendo no concorrido cenário artístico romano de então.

Santa Catarina de Alexandria, cerca de 1635

Santa Catarina de Alexandria, cerca de 1635

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Um ano depois de pintar, com somente 17 anos, o incrível quadro Suzana e os Anciões – que retrata um contexto de tonalidade sexual com a densidade de um evento traumático, ao mesmo tempo que reitera o imenso talento da artista –, Artemisia viria a enfrentar, em 1611, o evento que alteraria o trilho de sua vida à força, pela violência e o horror de um estupro. A jovem havia começado a estudar com o pintor Agostino Tassi, que trabalhava com seu pai: foi durante uma das aulas que Tassi a violentou. Como se não bastasse, em princípio ainda se viu obrigada a se casar com seu estuprador, como forma de não ferir a honra da família, conforme as tradições e leis da época.

Susana e os Anciões,

Susana e os Anciões, seu primeiro trabalho reconhecido, de 1610

A Virgem amamentando a criança, cerca de 1616-1618

A Virgem amamentando a criança, cerca de 1616-1618

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O casamento, no entanto, não ocorreu, e Artemisia decidiu que iria enfrentar a opinião pública e a própria justiça e denunciou Tassi por estupro. O julgamento levou sete meses, durante o qual foi revelado que o pintor já havia violentado suas cunhadas, planejado o assassinato de sua esposa, e roubado quadros de Orazio, pai de Artemisia. O estuprador foi condenado, mas não chegou a cumprir pena: enquanto isso, para fugir do estigma que quedava pesado sobre sua reputação, Artemisia decidiu casar-se e mudar-se para Florença, a fim de recomeçar sua vida. Rapidamente, através de seu talento, ela conquistou a poderosa família Médici para serem seus patronos, e se tornou uma das grandes artistas da corte da cidade – passando inclusive a prover todo o sustento da família.

Madalena penitente, 1615-1616

Madalena penitente, 1615-1616

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Em Florença, Artemisia foi a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes da cidade, convivia com Galileo Galilei e gozava da admiração e do reconhecimento de toda a classe artística florentina. Mestra no realismo e no uso da técnica do chiaroscuro herdada de Caravaggio – mas aprofundando de forma radical a expressão e a função da figura da mulher em seu trabalho, bem como a forma de abordar cada temática, representando a mulher de forma forte e inclemente até mesmo através de personagens sagradas e religiosas  –, Artemisia Gentileschi lutou como mulher e como artista contra a opressão e a violência, mas também pelo direito à expressão de seu próprio talento, e hoje, para elencar os grandes nomes do barroco, ao lado de artistas como Velazquéz, Rembrandt e Caravaggio, é preciso incluir o seu nome.

Autorretrato como Alegoria da Pintura, entre 1638 e 1639

Autorretrato como Alegoria da Pintura, entre 1638 e 1639. Nesse quadro, Artemisia realizou um feito simbólico: retratou a si mesma como alegoria da pintura, algo que não era possível para os pintores homens, ja que essa figura era sempre representada por uma mulher. No quadro, ela é a alegoria, mas aparece pintando. 

Salomé com a cabeça de São João Batista, entre 1610-1615

Salomé com a cabeça de São João Batista, entre 1610-1615

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© artes: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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