Debate

África do Sul teve gestão da pandemia mais rígida que o Brasil

Vitor Paiva - 02/12/2021 | Atualizada em - 06/12/2021

Enquanto o mundo aguarda com apreensão os testes e pesquisas que buscam respostas sobre a nova cepa do coronavirus, a África do Sul, primeiro país a detectar a variante intitulada ômicron, vê as restrições impostas ao país como punição pela competência de seus cientistas.

Os traços de xenofobia em medidas restritivas impostas por países como Estados Unidos, Israel, Cingapura, Ilhas Maurício, União Europeia e Brasil ficam mais claros quando sabemos, por exemplo, que a variante já se encontra espalhada pelo mundo – provavelmente tendo circulado antes em outros países, incluindo europeus como a Holanda, que reportou a presença da variante ômicron em seu território antes dos cientistas sul-africanos.

E mais, que a África do Sul teve condução mais rígida e controlada do que muitos, a começar pelo Brasil. O país governado por Jair Bolsonaro demorou a comprar vacinas, fez um lockdown torto e ouviu o chefe de Estado diminuir a letalidade da covid, responsável pela morte de mais de 600 mil brasileiros.

Cidadão tomando vacina contra a Covid-19 na África do Sul

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“Essas proibições de viagem castigam a África do Sul pela sua capacidade avançada no sequenciamento de genomas e em detectar mais rapidamente as novas variantes. A excelência científica deveria ser aplaudida e não castigada”, afirmou, em comunicado, o governo sul-africano. ”

Vemos também que há novas variantes detectadas em outros países. Nenhum desses casos tem relação recente com o sul da África. E a reação com esses países é radicalmente diferente da gerada pelos casos no sul da África”, diz o texto, que afirmou que alguns líderes encontraram na África do Sul um bode expiatório atual da pandemia.

Cyril Ramaphosa, presidente do país

Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul

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O lockdown na África do Sul 

O país manteve sequências de lockdown seguidos de aberturas no início da pandemia, em março de 2020, e estabeleceu leis proibindo aglomerações em diversos estágios, e suspendendo atividades gerais, principalmente durante o ano de 2020. Uma das medidas mais rígidas impostas no país no período foi a proibição da venda de bebida alcoólica, como uma forma de evitar aglomerações.

Atualmente a África do Sul contabiliza 2,9 milhões de casos da Covid-19 no país, com 89,8 mil mortes e 2,8 milhões de recuperados, segundo dados oficiais. A queda no número de casos que o país vinha apresentando nos últimos tempos, porém, foi interrompida pelo intenso crescimento provocado pela variante ômicron.

Bar fechado durante um lockdown, no final de 2020, em Johannesburgo

Bar fechado durante um lockdown, no final de 2020, em Johannesburgo

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O problema enfrentado pela África do Sul atualmente parece ser mesmo a baixa cobertura vacinal do país, com somente 24% da população completamente imunizada.

Parks Tau, membro do conselho executivo de desenvolvimento econômico e ex-prefeito de Johannesburgo, tomando sua segunda dose da vacina

Parks Tau, membro do conselho executivo de desenvolvimento econômico e ex-prefeito de Johannesburgo, tomando sua segunda dose da vacina

Daí a importância de campanhas eficazes pela vacinação dos países do continente africano e aqueles mais pobres ou com maior dificuldade de vacinação entre sua população, já que, por definição, a pandemia é um problema global, e não local – especialistas confirmam que a variante é também fruto do acúmulo de vacinas entre os países mais ricos, e o abandono dos países mais pobre no tema. O governo ainda destacou, em seu comunicado, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendou medidas de isolamento como as que foram tomadas, e pediu que as decisões sejam baseadas em “abordagem científica”.

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© fotos 1, 3, 4: Getty Images

© foto 2: Flickr/CC


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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