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Boate Kiss: sobrevivente que lida com os traumas de perder uma perna no incêndio depõe no julgamento

06 • 12 • 2021 às 10:10 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

O julgamento dos responsáveis pelo incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, vem sendo marcado pelos fortes depoimentos de sobreviventes da tragédia, ocorrida em 27 de janeiro de 2013. Uma das falas mais impactantes foi de Kellen Giovana Leite Ferreira, de 28 anos, que era frequentadora do local e teve 18% de seu corpo queimado e parte de uma perna amputada por conta dos ferimentos sofridos no incêndio que tirou a vida de 242 pessoas e deixou 636 feridas. Kellen depôs na última quarta-feira, dia 01, e confirmou que estava na boate com sete amigos, dos quais três morreram.

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Em seu depoimento, a sobrevivente relatou que a casa estava de tal forma superlotada que era difícil simplesmente caminhar dentro da boate durante a festa. Quando o fogo começou no palco, segundo Kellen, não houve qualquer comunicação através do microfone, nem orientações para o público ou mesmo sinalizações que indicassem a saída. Emocionada durante todo o depoimento, a jovem relatou que caiu enquanto tentava fugir do incêndio, e sua sandália acabou presa em seu tornozelo, impedindo assim sua circulação sanguínea e causando o ferimento que viria a provocar a amputação. “Eu me atinei a correr. Eu achei que fosse briga. (…) Quando eu cheguei na porta, eu caí. Nesse momento, senti meus braços queimarem, muito calor e um cheiro muito forte”, afirmou Kellen.

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Sua recuperação exigiu internação de 78 dias em um hospital em Porto Alegre, e ela ainda atravessa diversos tratamentos por conta dos ferimentos e traumas causados. “Vivemos numa sociedade que exige corpo perfeito. Eu comecei um processo de aceitação do ano passado para cá. Eu tinha medo de sair nas ruas e as pessoas me julgarem. Só ano passado passei a usar short. Eu usava calça jeans até no calorão de 40 graus”, afirmou. O alto custo de sua prótese, bem como de outros equipamentos que utiliza em tratamento, levou a jovem a ingressar na justiça contra o Estado e a Prefeitura de Santa Maria, a fim de conseguir auxílio financeiro – Kellen revelou que jamais recebeu qualquer ajuda dos réus.

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O julgamento acontece em Porto Alegre, e traz quatro pessoas como réus: Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, empresários sócios da boate Kiss, o músico Marcelo de Jesus dos Santos e o produtor Luciano Bonilha Leão, são acusados de homicídio simples contra as 242 vítimas, e tentativa de homicídio contra as 636 que se feriram na tragédia. Marcelo era vocalista da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava na festa “Agromerados”, organizada por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, e foi quem levantou um fogo de artifício aceso, encostando na espuma do telhado da boate e iniciando o incêndio – o produtor, Luciano Leão, foi quem comprou o artefato. Embora a capacidade da boate fosse de 691 presentes, na noite da tragédia havia, segundo a polícia. entre 1000 e 1500 pessoas no local.

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© fotos 1, 3: YouTube/Reprodução

© fotos 2, 4: Wikimedia Commons

 


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