Diversidade

Carlinhos Brown recorda racismo sofrido no ‘Rock in Rio’; relembre ataque de garrafas

02 • 12 • 2021 às 09:52
Atualizada em 06 • 12 • 2021 às 10:40
Redação Hypeness
Redação Hypeness Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Músico de carreira extensa e com um currículo de dar inveja em qualquer aspirante de popstar, Carlinhos Brown navegou por muitas águas na música brasileira. Um dos criadores da Axé Music, dono de um dos hits mais tocados dos anos 90 (e que dava abertura para falar sobre a relações homoafetivas), membro fundador do projeto Tribalistas e até jurado do The Voice Brasil! Contudo, mesmo sendo um dos maiores percussionistas do mundo, não escapou de uma cena lamentável no Rock in Rio de 2001.

Aos gritos de “Nada me atinge!”, Brown foi alvo de vaias e garrafadas no palco palco principal do festival. Vestindo um cocar e tocando música brasileira, ele foi escalado para abrir o dia de apresentações de bandas de metal, como  o destaque da noite, a banda Guns N’ Roses. Vinte anos depois desse dia, o músico de 58 anos vê naquele episódio, um “dos primeiros cancelamentos”.

 

“Precisamos de tempo para observar o que são as coisas. E o cancelamento talvez seja a síntese [daquele episódio]. E dentro do cancelamento tem tudo. Tem racismo, preconceito contra o gênero, contra a música”, disse o cantor à Folha.

“Eu era um artista muito mais frágil naquele momento, com expectativas gigantes jogadas naquele momento, eu já estava com música estourada —já tinha criado, com meus amigos, o axé music. Mas eu era frágil com inocências antropofagistas. Me vestia como índio, eu não queria me vestir como o cara do rock’n’roll.”

Rock in Rio 2001

Duas décadas atrás acontecia a 3ª edição do festival que já havia sido um grande sucesso no anos 80, já que foi uma oportunidade rara para os fãs brasileiros conseguirem ver show de suas bandas internacionais favoritas. No entanto, a edição de 2001 tem essa marca horrível de preconceito e intolerância.

Além disso, músicos brasileiros da época se recusaram a participar da edição. Bandas como Skank, Jota Quest, Raimundos, Cidade Negra, O Rappa e Charlie Brown Jr. boicotaram o evento alegando que os cachês oferecido aos brazucas eram muito menores e os horários de apresentação de muito menos prestígio do que os das atrações estrangeiras.

Rock in Rio 2001 – Palco principal durante o primeiro dia de evento. (Foto de Theo Wargo / WireImage)

“Que bom que houve aquele choque porque a gente sabia que, no Rock in Rio, a palavra rock, suas quatro letras, era maior que Rio. Mas a gente também estava dizendo que o Rio é enorme. A música brasileira precisava ser mostrada.”

Mas se você pensa que Brown se intimidou com toda essa história, aí é que você se engana. Tanto no dia — que, com coragem enfrentou aquela situação horrorosa com a dignidade e a cabeça erguida de um rei — quanto hoje, ele se lembra do episódio com muita resiliência. Na época, o dono do festival, Roberto Medina, provocou o músico escalando-o para se apresentar no mesmo dia de bandas de rock mais pesado. Hoje, é Brown quem provoca: “Queria fazer um convite, quero fazer aquele show de novo.”

Carlinhos Brown, Gloria Estefan e Anitta se apresentam no palco durante a 22ª Entrega Anual do GRAMMY Latino, em novembro de 2021.

Ele diz que a música da periferia, como o funk, é vista com o mesmo preconceito vivido por ele, já que também tem raízes africanas. “O nosso funk precisou de um neologismo para ser aceito. Porque, na verdade, é a macumba que se eletronizou. Quando olho o funk, eu vejo o candomblé eletrônico.”

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Reprodução: Getty Images


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