Inspiração

Casamentos de Boston: vitorianos vislumbraram a possibilidade do casamento entre duas mulheres há mais de um século

17 • 12 • 2021 às 17:23 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A aceitação da união entre duas mulheres pode parecer, aos desavisados, uma tendência contemporânea, uma novidade progressista, mas, em verdade, desde tempos tão longínquos quanto a Grécia e a Roma antiga que formas variadas de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo eram naturalmente praticadas e aceitas.

Até mesmo na conservadora era vitoriana, entre o século XIX e o XX, esses verdadeiros casamentos não oficiais eram de tal forma comuns que tinham um nome próprio: conhecidos como “Casamento de Boston”, reuniam duas mulheres normalmente ricas e bem-educadas, que não dependiam economicamente de homens ou casamentos tradicionais – e heterossexuais – para viver.

"casamentos de Boston"

Alguns “casamentos de Boston” eram lésbicos, mas nem todos incluíam o caráter sexual

-Vintage Lesbian: perfil no Pinterest reúne fotografias e ilustrações da cultura lésbica do passado

O nome de refere ao clássico livro Os Bostonianos, publicado por Henry James em 1886, que conta justamente a história de duas mulheres ricas que vivem juntas, em Boston e em intimidade.

Essas uniões não eram necessariamente de cunho sexual, e eventualmente reuniam mulheres que simplesmente não queriam se submeter às determinações de um casamento tradicional, e preferiam viver em par com outras mulheres – em muitos casos, porém, as uniões eram amorosas e sexuais de fato.

"casamentos de Boston"

O livro de Henry James deu nome à prática

-A incrível história do casal de lésbicas que enganou a Igreja Católica para se casar

Conhecidas então como “novas mulheres”, eram pessoas que alcançaram independência financeira através de heranças ou mesmo de carreiras efetivas, como escritoras, professoras, médicas ou cientistas.

Desde o século XVIII que tais relacionamentos se tornaram comuns, e nos quase 200 anos seguintes eram vistos como uniões inocentes e mesmo respeitáveis, que permitiam que mulheres com visões semelhantes de vida e mundo conquistassem autonomia e pudessem viver em independência.

"casamentos de Boston"

Os relacionamentos eram respeitados socialmente

-Macaroni, uma subcultura entre o queer e o drag, na aristocracia inglesa do século 18

Até os anos 1920, os “Casamentos de Boston” eram aceitos e mesmo reconhecidos socialmente, em momento histórico em que tanto a Europa quanto os EUA viviam especial afirmação queer e LGBTQIA+.

Em seguida, porém, infelizmente a onda de repressão e perseguição que fomentaria a latente homofobia do século XX, surgiria com toda força, e diante dela os “Casamentos de Boston” praticamente desapareceriam enquanto fenômeno aceito: a hipótese de um relacionamento lésbico lançou forças tão fundamentais e salutares quanto o amor e a liberdade às sombras.

Sarah Ponsonby e Lady Eleanor Butler, que viviam em um "Casamento de Boston" no passado

Sarah Ponsonby e Lady Eleanor Butler, que viviam em um “Casamento de Boston” no passado

Publicidade

© fotos 1, 3: Messy Nessy

© fotos 2, 4: Wikimedia Commons


Canais Especiais Hypeness