Design

Colecionador e designer monta galeria com quase 2 mil objetos de plástico em casa

06 • 12 • 2021 às 10:14
Atualizada em 07 • 12 • 2021 às 22:52
Veronica Raner
Veronica Raner Jornalista em formação desde os sete anos (quando criou um "programa de entrevistas" gravado pelo irmão em casa). Graduada pela UFRJ, em 2013, passou quatro anos em O Globo antes de sair para realizar o sonho de trabalhar com música no Reverb. Em constante desconstrução, se interessa especialmente por cultura, política e comportamento. Ama karaokês, filmes ruins, séries bagaceiras, videogame e jogos de tabuleiro. No Hypeness desde 2020.

A hora não é boa para falar de plásticos com paixão. Em plena era da sustentabilidade, os materiais — no plural e não no singular, como veremos a seguir — são vistos como os grandes vilões no descarte de lixo poluente ao meio ambiente. Gerson Lessa, professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sabe disso, mas sua relação com baquelites e afins está no apego e na admiração pelo design. 

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Objetos de diferentes tipos de plásticos ficam expostos pelo apartamento de Gerson Lessa, em Niterói.

Há quase 40 anos, o acadêmico coleciona objetos dos mais diferentes tipos de plásticos. São cadeiras, rádios, mesas, telefones e centenas de outros objetos que ele guarda com absoluto cuidado no apartamento onde mora, em Niteroi, no Rio de Janeiro. A obsessão pelos objetos veio ainda na época da faculdade, quando sua turma visitava fábricas para analisar os materiais que eram produzidos. 

“Os plásticos foram encantadores para mim. A maneira como eles são transformados, como as máquinas funcionam… Eu me sentia na Disney vendo aquilo tudo“, brinca. 

Em 1985, Gerson encontrou o livro que mudaria sua vida perdido em uma livraria. Era “Classic Plastics“, da pesquisadora britânica Sylvia Kats. Quando o professor abriu as páginas da obra, percebeu que ali sua vida mudaria para sempre. 

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O designer e professor Gerson Lessa.

As imagens de utensílios domésticos analisados sob a perspectiva do design fizeram com que ele quase que imediatamente decidisse começar a coleção. A decisão até hoje o faz receber olhares tortos e críticas pouco esclarecidas, como ele mesmo diz, de conhecidos. 

Essa ‘ideia maluca’ de ficar juntando plásticos, como algumas pessoas menos esclarecidas falam, resultou na minha vida como ela é hoje. Tudo que eu consegui fazer na minha vida profissional teve como base o estudo desses materiais e o impacto que esse livro teve em minha vida“, explica. 

A arte de encontrar artigos raros no lixo

O acervo de objetos de Gerson foi criado a partir das mais variadas buscas. Antes da pandemia, ele era figura carimbada em feiras de antiguidade não só no Rio de Janeiro, como em outras cidades pelo Brasil. Por outro lado, sempre buscou produtos do seu interesse em sites de leilão, como o eBay, ou simplesmente andando pela cidade mesmo. 

Às vezes eu vejo alguém vendendo um objeto na rua e eu ignoro completamente o que a pessoa está vendendo e pergunto quanto ela quer no banco em que está sentada“, confessa. “São coisas que as pessoas tratam como se fossem lixo ou achadas no lixo, mas são objetos muito valiosos quando restaurados e colocados no mercado“, explica. 

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Ele lembra da vez em que estava voltando para Niterói, onde mora, após um dia de trabalho na Gávea, na Zona Sul da capital carioca. Ao tropeçar em uma pilha de lixo jogada na rua, Gerson percebeu que havia ali uma cadeira de acrílico da década de 1970 (“maravilhosa, em perfeito estado!”). O único detalhe que explicava ela estar jogada ali era um pino solto que não permitia que alguém se sentasse nela. 

Em dois minutos, eu restaurei a cadeira. Não tenho o menor problema em pegar do lixo. Peguei a cadeira, coloquei debaixo do braço e levei embora. Isso foi em 2000 e ela está aqui na minha sala até hoje.

Coleção tem centenas de rádios, garrafas, televisões, computadores, xícaras e eletrodomésticos.

Na internet, objetos de plástico são vendidos por milhares de dólares

Se engana quem vê as xícaras de baquelite da vovó e imagina que elas não têm valor algum. É claro, nem todo produto feito de plástico é valioso, mas Gerson conta que há objetos do século XX que chegam a valer US$ 30 mil no mercado de colecionadores. Alguns estão até mesmo em galerias de arte, como o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

O item mais caro de sua coleção pessoal, por exemplo, é um rádio comprado na Praça XV, no Centro do Rio, lugar que frequenta há cerca de 35 anos. “Antes da pandemia, eu ia todo sábado e todo domingo. O ponto alto da minha semana era ir nessas feiras. Atualmente, eu estou mais devagar porque eu não tenho mais espaço pra colocar nada. Acabou“, ri. 

Ele não se lembra exatamente quando foi ou quanto pagou pelo rádio, mas imagina que tenha sido algo em torno de R$ 2 mil. Atualmente, objetos semelhantes são encontrados por US$ 5 mil no eBay.

Telefones também fazem parte do acervo.

Os rádios costumam ser mais caros porque tem colecinador de plástico e tem também os colecionadores de tecnologia de rádio“, explica. “Os rádios têm um valor icônico que faz muita gente se atrair por eles por ter sido uma tecnologia muito grande e que mudou o século XX todo. É menor do que o fetiche com a televisão, por exemplo. talvez no futuro as TVs e os computadores cheguem nesse status também“, reflete.

O rádio xodó de Gerson é feito de baquelite americano dos anos 1940. Segundo ele, é um baquelite muito especial conhecido como catalin, “o mais bonito de todos”. Produtos semelhantes datados do pós Segunda Guerra são os mais difíceis do tipo a se encontrar. O valor desses pode chegar a US$ 5 mil.

O baquelite marcou época nos utensílios de décadas passadas. Com esse tipo de plástico, foram feitas milhões de xícaras, pratos e garrafas térmicas. Os produtos costumavam ser escuros por conta das características do baquelite, que já era de uma tonalidade mais fechada. 

Apesar de ter sido o queridinho do lar, o baquelite tinha suas limitações. Quando em contato com líquidos quentes, por exemplo, ele exalava um odor ruim. “Não funcionava muito bem tomar chá em uma xícara de baquelite porque você ia ter esse cheiro do material interferindo no sabor do chá. Esse tipo de limitação queimou o filme do fabricante muitas vezes“, conta o designer. 

Começou-se então uma busca por materiais que pudessem substituir o baquelite. Até mesmo outros plásticos, porque, como bem observa Gerson, não existe um plástico só. 

Plástico não é um material, são centenas, milhares, que se parecem, que são diferentes, que têm empregos diferentes. É um erro comum falar sobre o plástico no singular porque existem muitos tipos de plásticos, alguns que são problemáticos e outros que não são. É a mesma coisa que você dizer que um objeto é feito de metal porque você não tá dizendo absolutamente nada porque pode ser de ouro, chumbo, mercúrio líquido… Tudo isso é metal“, compara

É possível não demonizar os plásticos?

No meio de tanta paixão por esses tipos de materiais, como dissociar a imagem de que eles são os maiores vilões quando falamos de poluentes ao meio ambiente? Para Gerson, descobrir uma resolução para o que ele chama de “o problema dos plásticos” é responder à pergunta de “10 bilhões de dólares”. 

Quem resolver essa tem o Nobel garantido“, diz. 

A situação é realmente problemática. De acordo com o pesquisador, 99.99% dos objetos que utilizamos no dia a dia tem plásticos de diversas formas, algumas até que nós nem imaginamos. 

Sabe aquela pele da linguiça que você come? Plástico. Sabe o lençol da sua cama? Plástico. E a escova de dente? Plástico. Ah, não podemos esquecer da pasta de dente: microplástico. Isso sem falar nos eletrodomésticos utilizados no cotidiano. 

Tudo que a gente faz, a roupa que a gente veste: o plástico está em toda parte. É difícil fazer uma lista de objetos que não têm um elemento de plástico e as pessoas não têm essa consciência. A tinta que pinta a parede é plástico líquido.

A resposta rápida de Gerson para a pergunta feita no intertítulo acima é curta e grossa: não, não há como tirar do plástico a pecha de vilão. Muito menos, eliminá-lo por completo de nossas vidas. 

No estado em que os plásticos são na escala e na maneira como eles são usados hoje, eles se mostram muito problemáticos. Mas há uma boa quantidade de pessoas que defende que o problema não está nos plásticos, mas em como eles são usados e descartados. Mas, até o momento, a gente não encontrou uma solução. A indústria está 100% dependente dos materiais. não há como se livrar deles mesmo que você entre numa onda de ser um consumidor consciente e eliminar o plástico da sua vida. Boa sorte, porque você não vai conseguir. Você pode ter a ilusão de que está conseguindo, mas não vai conseguir.” 

 

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Fotos: Gerson Lessa/Acervo pessoal


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