Inspiração

Desmond Tutu: quem foi o herói da luta contra o Apartheid vencedor do Prêmio Nobel da Paz

07 • 12 • 2021 às 19:14
Atualizada em 27 • 12 • 2021 às 12:48
Roanna Azevedo
Roanna Azevedo   Redatora Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

No dia 26 de novembro de 2021, o mundo recebeu a notícia de que o arcebispo Desmond Tutu faleceu aos 90 anos de idade. Ao lado de Nelson Mandela, o antigo arcebispo da Cidade do Cabo, na África do Sul, foi um dos principais nomes do movimento contra o Apartheid no país e seu legado segue e seguirá influenciando a política e a sociedade sul-africana.

Que tal conhecer um pouco mais sobre a trajetória de uma das figuras mais proeminentes do século XX na luta pela democracia e pela liberdade?

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A origem e a carreira de Desmond Tutu

Desmond Tutu se formou em Teologia pela King’s College de Londres.

Desmond Mpilo Tutu nasceu na cidade de Klerksdorp, África do Sul, em 1931. Quando jovem, tinha o sonho de se tornar médico, mas sua família não podia arcar com as despesas das aulas de Física. Foi por isso que ele decidiu se tornar professor, assim como o pai. Após passar pela Pretoria Bantu Normal College e pela Escola Normal de Johannesburgo, se formou bacharel em Teologia pela King’s College de Londres.

De 1972 a 1975, Tutu trabalhou para o Conselho Mundial de Igrejas, um grupo cristão do Reino Unido. Em seguida, voltou para Joanesburgo, África do Sul, e se tornou deão da Catedral de Santa Maria. Entre 1976 e 1978, dirigiu a diocese de Lesoto e logo depois foi nomeado secretário-geral do Conselho das Igrejas da África do Sul, cargo em que permaneceu até 1985.

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Com o poder que tinha nas mãos, o objetivo de Tutu era fazer da sociedade sul-africana uma democracia. Para isso, era preciso que direitos civis iguais para todos, um programa educacional comum e o fim da deportação forçada de pessoas negras e das leis que pautavam as divisões raciais fossem garantidos.

Um ano depois, Tutu se tornou o primeiro arcebispo negro da Cidade do Cabo, o principal posto da Igreja Anglicana. Em 1988, ocupou a função de reitor da Universidade do Cabo Ocidental e, em 1996, se aposentou definitivamente como arcebispo.

Desmond Tutu e sua luta contra o Apartheid

Desmond Tutu se dedicou a luta contra o Apartheid durante a vida inteira. Enquanto liderava o Conselho das Igrejas da África do Sul, organizava protestos não violentos em oposição às leis dessa política segregacionista, que concedia todo o poder do Estado aos brancos e subjugava a população negra.

Depois que 23 pessoas morreram pelas mãos da polícia racista da África do Sul no Levante de Soweto, em 1976, Tutu passou a aprovar o boicote econômico a seu país. Por meio de inúmeras palestras e textos desenvolvidos ao longo dos anos, fez duras críticas ao Apartheid e passou a ser conhecido como “a voz dos negros sul-africanos sem voz”.

Em 1984, toda a luta política de Tutu foi recompensada. Aos 53 anos de idade, ele venceu o prêmio Nobel da Paz graças ao papel que desempenhou como “líder unificador na campanha não violenta para resolver o problema do Apartheid na África do Sul”, como pontuou o Instituto Norueguês do Nobel.

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Tutu recebendo o Nobel da Paz das mãos de Egil Aarvik, presidente do Comitê do Nobel.

Nos anos seguintes, continuou resistindo bravamente ao regime segregacionista do país, que chegou ao fim com a realização das primeiras eleições multirraciais da África do Sul. Em 1994, Nelson Mandela foi eleito o primeiro presidente negro do país e nomeou Tutu como líder da Comissão Verdade e Reconciliação, a CVR. Presidida por ele nos anos seguintes, a junta tinha autoridade para investigar e julgar crimes contra os direitos humanos cometidos durante a política de divisão de raças.

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Os ideais anglicanos de Tutu incentivaram a ocorrência de um processo de reconciliação política na África do Sul. Convencido de que a luta contra o Apartheid poderia servir de exemplo para o resto do mundo solucionar seus conflitos, ele apelidou seu país de “nação arco-íris”

Desmond Tutu e Nelson Mandela: parceiros de luta.

A influência política de Tutu nos dias de hoje

Mesmo após se afastar da política e se aposentar do cargo de arcebispo, Desmond Tutu seguiu sendo uma das figuras mais respeitadas pelo povo sul-africano. Ele integrou a The Elders, uma organização formada por ex-governantes mundiais que debatem em prol dos direitos humanos. 

Tutu fez história na luta contra o Apartheid.

Tutu seguiu bastante engajado na realidade econômica e político-social da África do Sul até seus últimos dias. O antigo presidente da CVR costumava fazer muitas críticas à corrupção e à ineficácia do governo ao tratar da pobreza e dos casos de xenofobia, cada vez mais recorrentes no país. Também já criticou a homofobia e questionou Mandela sobre os altos salários de seus ministros.

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Para além do cenário político sul-africano, Tutu sempre se manteve em oposição aos conflitos entre Palestina e Israel, afirmando que a segregação israelita contra os palestinos se assemelha à divisão racial promovida pelo Apartheid. Segundo ele, o sionismo é “parecido com o racismo e o efeito de ambos é o mesmo”.

Tutu faleceu aos 90 anos de idade. Ele lutava contra um câncer de próstata desde o fim dos anos 90, mas a causa de sua morte não foi divulgada pelas autoridades ou por seus familiares. Diversos lideres religiosos e políticos de todo o mundo lamentaram o falecimento do arcebispo.

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Fotos 1 e 2: Reprodução/AFP

Foto 3: Reprodução/Nelson Mandela Foundation/Louise Gubb

Foto 4: Tsugufumi Matsumoto/AP/REX/Shutter


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