Arte

Inhotim recebe Museu de Arte Negra em 4 atos inéditos

Gabriela Rassy - 13/12/2021 | Atualizada em - 11/01/2022

“Um museu dentro de um museu”. Depois de anos longe do público físico, o Museu de Arte Negra idealizado pelo artista e ativista Abdias Nascimento se projeta para fora do acervo virtual do IPEAFRO e para dentro do Inhotim. Pelos próximos dois anos, o projeto itinerante ocupa a Galeria da Mata com exposições divididas em 4 atos e abordagens inéditas.

O projeto nasceu para ser um “museu voltado para o futuro”, como disse Abdias, este importante africanista, ator e político – entre tantos outros predicados. Fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), lá nos idos de 1940, ativista pelos direitos das pessoas negras, e indicado ao prêmio Nobel da Paz em 2010, Abdias foi um visionário.

Neste ano, que completa 10 anos de sua morte, o Museu de Arte Negra (MAN) ganha uma nova casa. Digo nova pois esta não é a primeira vez, nem a segunda que as obras encontram seu público cara a cara. Mas depois de longos 40 anos é a primeira vez que tomam seu lugar em um ambiente, como muitos, já privado das pessoas negras.

Inhotim como quilombo

Na abertura da mostra, pessoas negras circulavam empoderadas pelo espaço. Era uma sensação de pertencimento, de merecimento, de finalmente ocupar um lugar de direito.

Julio Menezes Silva, coordenador do projeto Museu de Arte Negra do IPEAFRO – Instituto de Pesquisa e Educação Afro Brasileira no ambiente virtual, começou o trabalho na associação há 4 anos e conta que não sabia nem mesmo o que era arte, quem era Tunga ou Abdias.

“Qual é a potência de um saber desse, qual é a potência dessa intelectualidade que em tão pouco tempo te empodera e te capacita a pensar, propondo soluções, pensando coletivamente para construir uma exposição dentro de um espaço deste? Então se aproprie desse saber, dessa cultura, dessa força desse esse grande homem, desse grande artista que foi Abdias Nascimento”.

É um processo de conhecimento, de ocupação, de reparação histórica. Depois de 20 anos da
III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, que reconheceu a escravidão dos africanos como um crime contra a humanidade, cada passo em direção a um mundo que reconheça e repare a disparidade, é uma celebração.

Desde as primeiras conversas com o Inhotim, a ideia do IPEAFRO era fazer algo nunca antes feito pela instituição, mirando na mudança de paradigmas. “A nossa ideia é mudar por dentro, num processo de cura. Que cura é essa? Cura frente a esse racismo estrutural estruturante que nos aleja de um espaço como este”, afirma Julio.

Assim, a proposta é fazer do Inhotim um espaço verdadeiramente da negritude, constituído coletivamente com o Inhotim, mas principalmente com a perspectiva de se relacionar com o entorno da comunidade de Belo Horizonte e de Brumadinho. “A gente vai fazer desse espaço um quilombo”, conclui.

“Quando a gente fala de reparação, é disso que estamos falando. Reparação para as pessoas negras descendentes dos povos escravizados”, completa a socióloga norte-americana Elisa Larkin, que foi casada com Abdias durante 38 anos.

Primeiro ato – “Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra”

Feita a quatro mãos – além de muitas cabeças – o primeiro ato apresenta uma coleção formada a partir de afetos. O acervo preservado e mantido pelo IPEAFRO nasceu da missão de Abdias e de artistas e intelectuais negros que doaram obras para que o sonho do museu se tornasse realidade.

Abrindo os trabalhos, o Museu de Arte Negra apresenta o trabalho artístico de Abdias e o diálogo com as obras de Tunga. Amigos de longa data, a relação dos dois é familiar, de influência e inspiração. Os 38 anos que os separavam não trouxe afastamento e sim encontro.

Em 1967, com 15 anos, Tunga já falava sobre a influência da arte negra em suas obras. “Para mim, a arte negra foi a primeira a romper os grilhões das saturadas imagens renascentistas”, disse o jovem que dava suas primeiras pinceladas e já doava trabalhos à coleção MAN.

“Esse artista que se tornou o primeiro brasileiro a expor no Louvre, tem na sua formação o estreito diálogo com Arte Negra e com Abdias Nascimento”, aponta Julio. “Abdias fala muito dos orixás, das religiões de matriz africanas, que são mitologias, e Tunga cria suas mitologias em suas obras. Os mundos dos dois artistas de alguma maneira encontram um lugar em comum”, completa Douglas.

Os dois trazem para a arte brasileira uma discussão do que significa a arte moderna. Como disse Elisa, a arte negra passou dos museus antropológicos e da visão diminutiva do Europeu para ocupar lugar de referência para a produção de vanguarda do século 19. “Essa divisão entre o erudito e o popular é algo que está contido exatamente nessa frase de Tunga. Há muito em comum que evidencia ao meu ver uma continuidade rompedora de barreiras cosmicas, temporais, estéticas e intelectuais”.

Museu de Arte Negra – Primeiro ato: Abdias Nascimento e Tunga
Galeria Mata | Instituto Inhotim
4 de dezembro de 2021 a 10 de abril de 2022
Quinta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30
R$ 22 (meia) e R$ 44 (inteira)
Entrada gratuita na última sexta-feira de cada mês, exceto feriados, mediante retirada prévia através do Sympla

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Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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