Criatividade

O mágico e a sufragista: a estranha história do truque de serrar uma mulher ao meio

13 • 12 • 2021 às 12:28
Atualizada em 29 • 12 • 2021 às 18:42
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Um dos mais emblemáticos e reproduzidos números da história da magia, o truque de serrar ao meio uma mulher tem sua invenção credita ao mágico inglês P. T. Selbit. O debate sobre essa origem e autoria é, em verdade, extenso, com alguns estudiosos garantindo que, antes de Selbit, ainda no início do século XIX, o número já era realizado, outros afirmando que o grande mágico francês Jean Robert-Houdin foi quem idealizou o número, e alguns garantindo que truques semelhantes eram apresentados desde o antigo Egito. Seja como for, o fato é que a primeira pessoa a realizar a façanha em público e com registro devido, causando grande comoção e reconhecimento, foi Selbit, no teatro Finsbury Park Empire, em Londres, em 17 de janeiro de 1921.

P. T. Selbit

O mágico inglês P. T. Selbit, considerado inventor do número

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Mas o que isso tem a ver com as sufragistas e o movimento pela aprovação da lei que permitia às mulheres votarem na Inglaterra? No fim das contas, nada, mas por muito pouco não teve tudo a ver. Antes, porém, vale entender o que era o número de serrar a assistente de palco dentro de uma caixa – e quem era Selbit. Seu nome de batismo era Percy Thomas Tibbles (o nome artístico é o último sobrenome escrito ao contrário) e, além de um criativo desenvolvedor de truques e espetáculos de mágica, Selbit era também um excelente promotor de si e de suas apresentações. No contexto do início dos anos 1920, pouco tempo após uma Primeira Guerra Mundial que custou, de forma gráfica e explícita, a vida de mais de 40 milhões de pessoas, os números de mágica precisavam ser atualizados, e ir além de simplesmente fazer um inocente lenço desaparecer: era preciso chocar, e por isso foi desenvolvido o truque, com a mulher sendo serrada ao meio dentro da caixa, devidamente exposta em duas partes distantes, para em seguida sair de dentro da caixa caminhando – e inteira.

P. T. Selbit,

Selbit realizando seu mais célebre número

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O número de Selbit incluía amarrar a assistente de forma que deixasse claro que ela não tinha como fugir ou mesmo se mover. O sucesso foi imenso e imediato, e para promover seus shows, o mágico passou a colocar atrizes vestidas de enfermeira no teatro e no saguão, bem como a derramar litros de sangue falso nos arredores, e até mesmo contratar ambulâncias para anunciar as apresentações por Londres. Acontece que tudo isso se deu somente 3 anos após a assinatura do Ato de Representação das Pessoas, que permitiu pela primeira vez que mulheres votassem na Inglaterra, contanto que tivesse mais de 30 anos e fossem proprietárias de terra, ou casadas com um proprietário, e naturalmente os dois temas que causavam sensação no imaginário coletivo inglês da época, se cruzaram.

P. T. Selbit,

Selbit retirando uma assistente de dentro da caixa

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Assim, quando Selbit alcançou o sucesso, ele dividia as páginas dos jornais com o influente movimento sufragista feminino, em especial com Christabel Pankhurst, uma das mais ativas e influentes lideranças feministas e sufragistas inglesas. Selbit entendeu o contexto como uma oportunidade de causar ainda maior comoção e ganhar muito dinheiro, caso conseguisse juntar realmente os dois assuntos: sua mágica, e o movimento sufragista. Sem perder tempo, escreveu para Pankhurst para oferecer 20 libras por semana – equivalente atualmente a mais de 1000 libras, ou cerca de 7,4 mil reais semanais – para que ela se tornasse a personagem principal de seu famoso número: que Pankhurst fosse serrada ao meio em seus shows. O mágico garantia que a participação não teria qualquer conotação política.

Christabel Pankhurst

A líder sufragista Christabel Pankhurst

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É claro, no entanto, que ninguém que estivesse atenta à forma como o movimento sufragista era retratado pela imprensa da época poderia acreditar que a cena de serrar ao meio uma de suas mais importantes lideranças não teria conotação política – e Pankhurst estava bastante atenta, e declinou as diversas tentativas de Selbit de convencê-la. Segundo afirmou à imprensa da época, aquele não era o “tipo de trabalho” que ela estava procurando. Os dois nunca chegaram a dividir um palco, mas seguiram compartilhando as atenções da população inglesa da primeira metade do séculoXX. Desde então, as mulheres não mais tiveram seu direito ao voto questionado, e o número de “serrar uma mulher”, como era conhecido, jamais deixou de fazer parte dos repertórios de mágica em todo o mundo, como um truque impactante – e sem conotação política aparente.

Christabel Pankhurst, ao lado de Annie Kenney, em campanha sufragista de 1908

Christabel Pankhurst, ao lado de Annie Kenney, em campanha sufragista de 1908

Selbit

Selbit realizando outro truque

 

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© fotos: Wikimedia Commons


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