Debate

Reportagem portuguesa é apontada como xenofóbica ao apontar o ‘problema’ das crianças falando ‘brasileiro’ no país

15 • 12 • 2021 às 09:12 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A reportagem do jornal português Diário de Notícias tinha como propósito noticiar a influência dos muitos Youtubers brasileiros sobre as crianças portuguesas, alterando até mesmo o vocabulário dos pequenos – de acordo com a reportagem, as crianças em Portugal estão cada vez mais falando “brasileiro”, o idioma português da forma que se fala no Brasil.

A reação e o debate, porém, foram imediatos e intensos, não só pelo forte traço nacionalista que trouxe o texto, mas principalmente por certo tom de xenofobia que a crítica traz como pano de fundo ao apontar a influência, que teria se agravado especialmente durante a pandemia, e que no texto é diretamente chamada de “problema”.

Criança lendo dicionário

A influência do português falado no Brasil sobre as crianças é “problema” na reportagem

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O título já é chamativo e dá o tom: “Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro’”, diz a matéria, assinada por Paula Sofia Luz. Os “sintomas” do “problema” apontados – sem estatísticas ou pesquisas efetivas para comprovar a tese – é o fato de que supostamente as crianças estariam cada vez mais falando “grama” ao invés de “relva”, “ônibus” ao invés de “autocarro”, “bala” ao invés de “rebuçado”, “listras” ao invés de “riscas” e “geladeira” no lugar de “frigorífico”.

Em suma, o sucesso dos youtubers brasileiros estaria fazendo com que as crianças estariam trocando formas do português falado em Portugal por palavras encontradas recorrentemente no Português falado no Brasil, situação que estaria dividindo as opiniões de pais, professores e especialistas “entre a preocupação e os que relativizam, por considerarem tratar-se de uma fase”.

Crianças na internet

O Youtube é apontado como origem do problema pela reportagem

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O processo é visto como um “quadro de alerta” pela reportagem, que em momento algum comenta sequer sobre os evidentes aspectos que levaram diversos comentaristas e jornalistas brasileiros a apontarem o potencial xenofóbico da matéria – como o fato do Brasil falar português por uma violenta imposição do processo colonial conduzido por Portugal.

Outro ponto que não é mencionado no texto é o fato que hoje o português é numericamente muito mais falado por brasileiros do que portugueses – e, entre posições mais ou menos conservadoras, a reportagem trata a influência do “brasileiro” como um dilema ou uma questão que merece preocupação, chegando a apontar os youtubers como uma possível “ameaça”.

Luccas Neto

O youtuber Luccas Neto é apontado no texto como exemplo

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O mote da reportagem seria um show realizado com imenso sucesso por Luccas Neto, youtuber irmão de Felipe Netto, em Portugal. “Ao princípio, a família até achava alguma piada à forma como ele falava, às expressões brasileiras. Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se”, diz o texto, que traz uma família que colocou uma criança que falava “como se fosse brasileiro” em uma “terapia de fala” por conta da influência de Luccas Neto. “Neste momento estamos num processo de tratamento como se fosse um vício.

Explicámos-lhe tudo, que ele não podia ver por que isto só o prejudica. E já notamos que está muito melhor”, afirma um pai. A reportagem parece esquecer que um idioma é uma entidade cultural autônoma, livre e maleável, que reflete a história e a realidade do povo, moldada não por temores conservadores ou pela norma culta, mas sim pelas práticas, falas, escritas e influências efetivas de uma população – sem se importar com qualquer opinião.

Diário de Notícias

A matéria foi publicada pelo Diário de Notícias, tradicional jornal português

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© fotos 1, 2: Getty Images

© foto 3: Divulgação

© foto 4: Wikimedia Commons


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