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Técnica milenar de captação de água da chuva é recuperada para salvar aldeias indianas da seca

Vitor Paiva - 07/12/2021 | Atualizada em - 28/12/2021

Há mil anos, os paredões repletos de escadas que formam o poço Chand Baori, no vilarejo de Abnaheri, na Índia, eram utilizados para coletar água da chuva: construído entre os séculos VIII e IX, os 3.500 degraus distribuídos em um espaço de altura equivalente a de um prédio de 13 andares, o poço no passado era a principal fonte de abastecimento de água da região do Rajastão, nos arredores do Grande Deserto Indiano, na divisa com o Paquistão. O tempo passou, e os sistemas de encanamento e irrigação modernos tornaram esse método de coleta obsoleto, e assim o local, reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade, tornou-se somente um ponto turístico.

O Baori Chand, no vilarejo de Abhaneri é um dos maiores e mais profundos poços do tipo na Índia

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Curiosamente, porém, nos últimos anos, esse e outros poços semelhantes espalhados pelo país vêm sendo reformados, mas não para receber turistas, e sim para voltarem a ser utilizados como meio de distribuição de água para vilarejos e aldeias do país afetados pela seca. Conhecidos como “baolis” or “bwaris”, alguns dos mais de 3 mil poços na Índia encontravam-se completamente abandonados, cobertos por folhas e vegetações ou mesmo utilizados como lixão. Somente em Delhi, 15 poços foram reformados em baixo custo, e passaram a fornecer 33 mil galões de água para a cidade.

Poço em Nagnath Mandir, na vila de Hatnoor

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A bela vista da escadaria Shravanabelagola cheia de água, em Karnataka

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Em outras regiões do país, dezenas de milhares de pessoas já utilizam a água coletada nos poços para matar a sede, cozinhar, mas também para festas e cerimônias – com os locais também retomando o potencial turístico, como estruturas literalmente milenares que seguem funcionando perfeitamente para um propósito vital. “Agora temos acesso à água limpa para beber, para uso doméstico e para cerimonias religiosas”, afirmou uma professora do do vilarejo de Shivpura, em reportagem da BBC News. “O baoli se tornou o esplendor de nosso vilarejo”.

Um dos mais belos poços com degraus é o Toor Ji Ki Bawari, em Jodhpur

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Jachcha Ki Baori, em Hindaun

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A estrutura das escadarias permite não só que a água desça para o poço, como também que se tenha acesso até o fundo da construção – e mais: mesmo que ninguém coletasse a água, o sistema é bastante eficaz para irrigar a água da chuva para os solos. Os relatos confirmam que os poços revividos tornaram-se também pontos de encontro da comunidade, além de uma importante alternativa para as constantes crises de seca que assolam diversas regiões da Índia – uma solução que já existia de fato há milhares de anos.

Poço em Hampi

Baoli em Hampi

Em plena Nova Déli, o Baoli de Agrasen Ki, que foi reconstruído no Século XIV

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© fotos: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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