Arte

100 anos da Semana de 22: desigualdade social, de raça, gênero e descentralização do modernismo pautam mostras

Vitor Paiva - 19/01/2022 às 08:56 | Atualizada em 21/01/2022 às 07:53

Um dos momentos mais importantes da arte e da cultura brasileira, como uma espécie de ponto fundador do modernismo no país, a Semana de Arte Moderna de 1922 trouxe à luz o trabalho de grandes artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti e muitos outros que participaram do evento, ocorrido no Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 11 e 18 de fevereiro – portanto, há cem anos. Se, ao longo dos anos, a Semana de 22 foi sendo permanentemente celebrada por sua importância e influência, ela também foi alvo de críticas, por centrar-se quase que exclusivamente nos braços paulistas e cariocas do momento modernista brasileiro, bem como pela ausência de artistas negros ou menos abastados.

Cartaz da Semana, criado por Di Cavalcanti

Cartaz da Semana, criado por Di Cavalcanti

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É nesse sentido expansivo e inclusivo que apontam algumas exposições em comemoração pelo centenário da Semana de 22, revendo o acontecimento histórico não só por sua herança direta, mas também pela lente da diversidade regional, social, de raça e gênero. A mostra “Brasilidade Pós-Modernismo” chegou ao Centro Cultural Banco do Brasil, de São Paulo, pensada por Tereza de Arruda para justamente revisar o legado do acontecimento na arte contemporânea, a partir de produções feitas desde os anos 1960. O trabalho de nomes como Cildo Meireles, Tunga, Anna Bella Geiger, Adriana Varejão, Rosana Paulino, Lina Bo Bardi e Nelson Leiner foi reunido para tanto compreender o impacto do modernismo sobre a realidade atual, mas também o elitismo e o próprio sentido restrito do ciclo de 1922.

Entrada da mostra

Entrada da mostra no CCBB de São Paulo

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Já o Museu de Arte Moderna de São Paulo recebeu, no final do ano passado, a mostra “Moderno Onde? Moderno Quando? A Semana De 22 Como Motivação”, organizada por Regina Teixeira de Barros e Aracy Amaral, que procura justamente alargar as noções da fundação do moderno brasileiro, indo além de São Paulo, do grupo que realizou a semana, e mesmo do ano de 1922 – mostras semelhantes acontecerão na Pinacoteca da cidade e no Masp, enquanto o Centro Cultural Fiesp prepara a mostra “Era Uma Vez o Moderno”, realizada em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB) reunindo obras e documentos que percorrem o período entre 1910 e 1944.

A mostra "Era Uma Vez o Moderno" está no Centro Cultural Fiesp

A mostra “Era Uma Vez o Moderno” está no Centro Cultural Fiesp

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Ponto central do debate sobre a própria noção de arte brasileira e da brasilidade de modo geral principalmente a partir dos anos 1960, a Semana de 22 trouxe com contundência a questão da influência europeia e internacional sobre a arte e a cultura nacional, bem como a forma de assimilar tais traços e, com eles, forjar uma sugerida noção “moderna” do país e da arte brasileira. A atualização de tal debate, no entanto, salutarmente passa por temas hoje tão caros e centrais para a atualidade – como as citadas questões raciais, sociais, regionais e de gênero, que atravessam as celebrações e revisões a respeito do evento ocorrido no Teatro Municipal de São Paulo, passado um século.

Parte do grupo modernista com, entre outros, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e, à frente, Oswald de Andrade

Parte do grupo modernista com, entre outros, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e, à frente, Oswald de Andrade

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A mostra “Brasilidade Pós-Modernismo” encontra-se no CCBB de São Paulo desde 12 de dezembro, onde permanece até 07 de março. Já a mostra “Era Uma Vez o Moderno” foi inaugurada também em dezembro no Centro Cultural Fiesp, onde permanece até 29 de março.

O Teatro Municipal de São Paulo, fundado em 1911

O Teatro Municipal de São Paulo, fundado em 1911

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© fotos 1, 5: Wikimedia Commons

© foto 2: CCBB/Divulgação

© foto 3: Centro Cultural Fiesp/Divulgação

© foto 4: Divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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