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‘BBB 22’ e solidão da mulher negra: a dor de Natália vai muito além de ‘chorar por macho’

Redação Hypeness - 27/01/2022 às 14:39 | Atualizada em 24/03/2022 às 11:28

Nesta madrugada, a participante do “BBB22”, Natália Deodato, entrou em prantos após uma série de eventos que ocorreram na festa da “casa mais vigiada do Brasil”. Enquanto muitos chamaram o episódio de “surto”, outras pessoas enxergaram o desabafo de uma mulher negra que sofre com a sobrecarga e com a solidão.

Natália Deodato sofreu e desabafou sobre suas dores em noite de festa no BBB

Tudo começou depois que Natália viu Lucas, seu interesse romântico, beijando Eslovênia, uma mulher branca. Natália ficou extremamente triste e, segundo a mesma, não era por ciúmes, mas por ver um amigo se relacionando com uma inimiga dentro do jogo. Posteriormente, um desabafo sobre a vida se estendeu e ele definitivamente não se resumiu a “chorar por macho”, como foi dito por Naiara Azevedo.

A sertaneja disse que não “dava conta de ver mulher chorando por causa de macho” e levou uma chamada de atenção de Lina. “Não é sobre você”.

“Às vezes, tudo que a gente quer é um abraço, principalmente nós, mulheres negras, que somos vistas como fortes. Temos que lidar com muito homem escroto. É gostosa para comer, mas para assumir relação, não”, disse Natália. E isso tem uma justificativa social.

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A solidão da mulher negra

Nos últimos anos, o conceito de solidão da mulher negra tem se expandido nos espaços de debate das ciências sociais e da psicologia. Essa ideia abarca as dificuldades afetivas enfrentadas pelas mulheres negras que sofrem com o racismo estrutural de um lado e com o machismo de outro.

Bell Hooks abordou o termo em ‘Vivendo de Amor’; para teórica social, o processo da escravidão afeto o amor entre os negros

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor. Essa é uma de nossas verdades privadas que raramente é discutida em público. Essa realidade é tão dolorosa que as mulheres negras raramente falam abertamente sobre isso”, explica Bell Hooks no livro “Vivendo de amor”.

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“A opressão e a exploração distorcem e impedem nossa capacidade de amar.  Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade”, continua.

A ausência de mulheres negras em espaços de prestígio profissional são um indicativo disso: na docência, apenas 3% das doutoras que dão aulas de pós graduação no Brasil são negras. Somente 0,4% dos CEOs no mundo empresarial são mulheres pretas.

Mas qual é a origem dessa fenômeno social? Adivinhe: a história.

Em um país que passou por mais de 300 anos de escravidão, as mulheres negras foram relegadas, em muitos casos, ao trabalho de cuidado durante o período da escravatura: lavar, limpar, amamentar, cuidar dos brancos doentes, etc. Mesmo após a abolição, isso não se transformou. Elas ainda são a maioria das domésticas, das profissionais da limpeza, na saúde são raramente médicas, mas enfermeiras, e estes exemplos não faltam. Por séculos, a mulher negra tem cuidado do outro e não tem tido a possibilidade de ser cuidada.

Junte isso com um padrão de beleza supremacista que coloca a mulher branca como o ideal desde sempre. A beleza foi negada ao corpo negro, mas não só isso: imputaram às mulheres negras a ideia de força, de resistência física e psicológica, e, acima de tudo, de não merecedora de amor.

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“A solidão da mulher negra começa muito cedo e nós todos precisamos ter pressa por mudança, para termos meninas e mulheres negras vivendo plenamente a afetividade em todas as suas formas. Essa realidade só vai mudar a partir do combate ao racismo, machismo e outros sistemas de opressão”, explica a psicóloga Mariana Cancoro de Matos, que atua com foco em saúde mental da mulher e relações étnico-raciais, ao Observatório do Terceiro Setor.

Então, voltamos às questões afetivas. Cerca de 61% das mães solo são negras no Brasil. Na Bahia, 71% das mães solo que vivem com menos de R$ 400 por mês são pretas. Os dados mostram que estruturalmente o racismo impacta a vida afetiva das mulheres negras brasileiras.

Não é sobre “macho”

E o desabafo de Natália gira justamente em torno dessa questão. Não é sobre o beijo de Lucas. É sobre ser abandonada. É sobre o vazamento de seu vídeo íntimo – que ela sequer tem conhecimento ainda. É sobre não ser merecedora de amor. Não é “chorar por macho”, Naiara.

Natália se viu abandonada no BBB ao ver sua confiança traída e sentiu-se trocada por mulher branca

“A Natália não tá mal por causa do Lucas. Ela é uma mulher que já viveu o suficiente pra saber q só pode contar com ela. Ela tá chorando porque chegou no ápice da rejeição. Rejeição dos interesses amorosos, rejeição da casa já que foi para o paredão. Fora as rejeições de uma vida. Por mais que ela estivesse bêbada e com os nervos a flor da pele doeu aqui ver toda tudo isso. A gente chora junto quando consegue imaginar o quanto que essa mulher está cheia!”, explica a cientista social e influenciadora Nátaly Neri.

Em coluna para o UOL, a jornalista Cris Guterres abordou o tema de uma perspectiva íntima. “Eu e muitas mulheres negras sabemos exatamente o que Natália está dizendo. Não somos dignas de amor. E como já afirmei no início deste texto, não tenho tanta facilidade para falar do que não tenho vivido. O amor nunca me foi farto, muito pelo contrário, sempre me foi escasso, e todas as mensagens que a sociedade me passa por meio de filmes, novelas e da vida real é de que não mereço ser amada”.

E, na voz de Natália:

O tema também foi debatido no Twitter:

Leia também: O que é misoginia e como ela é a base da violência contra a mulher

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Fotos: Foto 1 e 3: Reprodução/BBB Foto 2: © Getty Images


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