Arte

‘Com açúcar, com afeto’: a canção encomendada por Nara Leão que Chico Buarque deixou de cantar

Redação Hypeness - 27/01/2022 às 15:55 | Atualizada em 27/01/2022 às 17:29

Em entrevista a um documentário sobre Nara Leão para o Globoplay, o compositor e cantor Chico Buarque anunciou que não canta mais a canção “Com açúcar, com afeto”. A música, que conta a história de uma mulher que aguarda pelo marido beberrão em casa, é considerada machista por algumas pessoas.

Chico Buarque afirma que Nara Leão não cantaria ‘Com Açúcar, Com Afeto’ se estivesse viva hoje

A canção “Com açúcar, com afeto” conta a história de uma mulher que aguarda e cuida como mãe de um homem que lhe destrata e que não lhe dá atenção.

– De Chico Buarque a Gonzaguinha, 10 músicas proibidas pela ditadura militar

“Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto/pra você parar em casa, qual o que/com seu terno mais bonito, você sai, não acredito/quando diz que não se atrasa… E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer, qual o que/logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/e abro os meus braços pra você”, diz a letra.

Veja Nara cantando a canção:

O que diz Chico Buarque

De acordo com Chico, a música foi composta após um pedido de Nara. “Ela pediu: “Eu quero uma canção que fala que a mulher sofre, a mulher espera o marido etc. e tal. Eu fiz pra Nara e pro tema exato que ela pediu. Uma canção sob encomenda mesmo”, disse o compositor  em entrevista para o seu site sobre “Com açúcar, com afeto”.

No novo documentário, intitulado “O Canto Livre de Nara Leão”, Chico um pouco mais sobre a canção. “As feministas vão ficar zangadas comigo e com a Nara agora. Ela me encomendou essa música. Disse, ‘quero uma música de mulher sofredora’. Me deu exemplos de canções do Assis Valente, do Ary Barroso, aqueles sambas das antigas onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo ‘Ai Que Saudade da Amélia’”, explica, referenciando Ataulfo Alves.

Compositor homogeneizou o movimento feminista em declaração a documentário da Globo

“Ela me encomendou e eu fiz. Gostei de fazer. A gente não tinha esse problema. E é justo que haja. As feministas têm razão, eu vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia… Não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não podia ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar ‘Com Açúcar, com Afeto’ mais, e se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente”, disse o compositor

Entretanto, ao tratar o movimento feminista como um uníssono, Chico Buarque comete um erro. E arma a ideia de que exista uma patrulha cultural que censura suas músicas.

A canção foi a primeira composta por Chico com um eu-lírico feminino. Posteriormente, outras viriam, como a também criticada “Mulheres de Atena”, em “Ana de Amsterdã” e “Bárbara”, remontando a um modelo poético do trovadorismo. “Com Açúcar, Com Afeto” dialoga justamente com os mesmos temas de “Mulheres de Atenas”. Ambas podem ser lidas como sátiras ao patriarcado, mas acabam não sendo.

‘Não canta há quase 40 anos’

A notícia sobre Chico Buarque deixar de cantar a música viralizou nas redes sociais. E muita gente foi atrás de pesquisar e uma postagem viral no Facebook dá conta de que ele não inclui “Com açúcar, com afeto” em seu repertório há quase 40 anos.

O texto escrito por André Luís Câmara, especialista na obra de Chico Buarque de Holanda, no Facebook, afirma que Chico cantou “Com açúcar, com afeto” pela última vez em 1986, no programa que tinha com Caetano Veloso na TV Globo.

Publicidade

Fotos: Divulgação


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Canais Especiais Hypeness