Ciência

Como médicos transplantaram um coração de porco para o corpo de um ser humano

14 • 01 • 2022 às 10:11 Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

Pela primeira vez na história da medicina um transplante de um coração de porco para um ser humano foi realizado com sucesso, para salvar a vida de um homem de 57 anos, diagnosticado com uma doença cardíaca terminal.

O procedimento foi feito por médicos da Universidade de Medicina de Maryland, nos EUA, durou sete horas para ser concluído e utilizou um órgão geneticamente modificado para evitar rejeição: passados alguns dias desde o xenotransplante (transplante entre diferentes espécies), o paciente, um morador de Maryland chamado David Bennett, segue estável e saudável em sua recuperação.

Da esq. pra dir.: David Bennett Jr., filho do paciente, David Bennett e o Dr. Mohiuddin, após a cirurgia

David Bennett Jr., filho do paciente, David Bennett e o Dr. Mohiuddin, após a cirurgia

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O transplante 

Segundo Dr. Bartley Griffith, cirurgião que realizou o procedimento pioneiro, o transplante até aqui vem sendo considerado um sucesso, e o paciente já foi retirado da máquina que mantinha seu sangue circulando corretamente. “Ele [o coração] parece estar feliz em seu novo hospedeiro, e já superou em muito nossas expectativas”, comentou o médico.

O planejamento original era manter Bennet plugado ao equipamento por 45 dias, mas, segundo Griffith, o coração está “tão estável” que a equipe médica decidiu retirá-lo: Bennet está respirando sozinho e já consegue falar de forma estável e em baixo volume.

coração de porco

O coração de porco alterado geneticamente utilizado no transplante

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“Foi uma cirurgia revolucionária e que nos leva um passo mais próximo de resolver a crise de escassez de órgãos. Simplesmente não há corações humanos doados disponíveis para atender à longa lista de possíveis recebedores”, afirmou o médico, em nota. “Estamos avançando com cautela, mas também estamos otimistas de que essa primeira cirurgia do tipo no mundo possa oferecer uma nova e importante opção para pacientes no futuro”, concluiu.

A decisão de participar do experimento veio do próprio Bennett, que havia sido considerado inelegível para um transplante convencional ou para receber uma bomba cardíaca: era, portanto, sua última opção.

Muhammad M. Mohiuddin

O médico Muhammad M. Mohiuddin, que liderou a pesquisa e o procedimento

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Para a realização do procedimento, a FDA (Food and Drug Administration), órgão equivalente à Anvisa nos EUA, concedeu autorização de emergência. As alterações genéticas no coração recebido por Bennett visaram retirar genes do porco que poderia causar rejeição no corpo humano, bem como adicionaram genes capazes de auxiliar na aceitação imunológica.

Em outubro de 2021, um rim suíno foi transplantado sem rejeição imediata para uma paciente, mas o procedimento experimental foi realizado com uma receptora com morte cerebral. David Bennett segue sendo monitorado para que o sucesso da recente cirurgia possa ser de fato celebrada como um verdadeiro marco na história da medicina.

O Dr. Bartley Griffith junto a Bennett

O Dr. Bartley Griffith junto a Bennett

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© fotos 1, 2, 4: Universidade de Medicina de Maryland

© foto 3: YouTube/Reprodução


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