Arte

Elza Soares, morta aos 91 anos, cantou mesmo até o fim

Kauê Vieira - 20/01/2022 às 17:42 | Atualizada em 20/01/2022 às 18:01

Morreu Elza Soares aos 91 anos. Ícone brasileiro e cantora dona de uma das vozes mais potentes do mundo, Elza marcou gerações que testemunharam sua versatilidade. Cantava de tudo, samba MPB, bossa nova, jazz e o que viesse pela frente. 

Elza Soares faleceu de causas naturais e teve morte confirmada por sua assessoria de imprensa na tarde da quinta-feira (20), feriado de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro. “É com muita tristeza e pesar que informamos o falecimento da cantora e compositora Elza Soares, aos 91 anos, às 15 horas e 45 minutos em sua casa, no Rio de Janeiro, por causas naturais”, diz o texto da assessoria de imprensa de Elza. 

“A amada e eterna Elza descansou, mas estará para sempre na história da música e em nossos corações e dos milhares de fãs por todo mundo. Feita a vontade de Elza Soares, ela cantou até o fim”.

Elza Soares cantou até o fim. Como sempre sonhou

“Me deixe cantar. Eu vou cantar”

Elogiada pelo célebre Louis Armstrong pelos tons graves da voz, Elza Soares realmente cantou até o fim. Nem os problemas da idade, como os que a impediram de se apresentar como de costume – percorrendo o palco com seu molejo -, conseguiram frear o ímpeto dela, “A Mulher do Fim do Mundo”” 

O disco, aliás, foi um dos grandes responsáveis por renovar a carreira de Elza. Gravado em São Paulo, o álbum se caracterizou pela sonoridade inspirada no movimento conhecido como Vanguarda Paulista, eternizada em grupos da década de 1980 e por nomes como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. 

“A Mulher do Fim do Mundo” chegou às lojas em 2015 e contou com participação ativa do guitarrista Kiko Dinucci, conhecido também pelo trabalho com Juçara Marçal e por ser um dos membros do MetáMetá. 

Ela botou o pé na estrada e fez uma turnê inesquecível para divulgar o trabalho. O 32º disco de estúdio de sua carreira fez tanto sucesso, que ganhou o “Grammy Latino”, em 2016, na categoria Melhor Álbum de Música Popular. 

O álbum tinha samba, rap e música eletrônica e debateu temas importantes contra o racismo, pela diversidade diversidade, transexualidade etc. O disco e se tornou um ícone no enfrentamento ao conservadorismo e provou mais uma vez o pioneirismo de Elza Soares, que falavas destas questões centrais do Brasil desde a década de 1950.

O sucesso foi tanto que Elza Soares não parou e ainda lançou títulos como “Deus É Mulher”, com canções como “Exu nas Escolas”. O último disco de inéditas Elza Soares foi “Planeta Fome”, título de uma frase histórica dita por ela no programa de Ary Barroso nos anos 1950. Elza Soares morreu no mesmo dia que Garrincha, seu marido e que teve a vida prolongada pela luta (não reconhecida) da cantora. 

“O negócio é ir pra rua”, disse Elza Soares, no palco, sobre o governo de Jair Bolsonaro.

“Laroyê e Mojubá, liberdade

Abre os caminhos pra Elza passar

Salve a mocidade

Essa nega tem poder

É luz que clareia

É samba que corre na veia”

Samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de Elza Soares, para o Carnaval de 2020.

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Foto: Getty Images


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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