Arte

Madame Lydia: a história e a importância da assistente de Henri Matisse

Vitor Paiva - 19/01/2022 às 19:06 | Atualizada em 24/01/2022 às 08:38

Quando Lydia Delectorskaya foi contratada, em 1932, para trabalhar como assistente de um importante pintor, a jovem lutava pela própria sobrevivência como imigrante russa em Paris, e sequer conhecia o homem para quem iria prestar serviços. O artista, porém, era ninguém menos que Henri Matisse, e a parceria entre o pintor francês e a jovem se tornaria a relação mais importante de ambas as vidas: Lydia foi modelo para muitos dos quadros de Matisse, cuidou da esposa do pintor quando Amelie se encontrava doente, ajudou o artista no fim de sua vida, sem que os dois jamais tenham sido amantes.

Lydia Delectorskaya

Lydia Delectorskaya se tornaria a principal parceira de Matisse por toda sua vida

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Hoje os biógrafos não exageram quando afirmam que “Madame Lydia”, como Delectorskaya passou a ser conhecida, foi a mais importantes presença na carreira e na vida de Matisse. Inicialmente, porém, sua chegada ao ateliê tinha duração prevista de somente seis meses, enquanto a esposa do artista estava doente, para auxiliar o pintor durante a conclusão do mural The Dance II, um tríptico comissionado pelo colecionador estadunidense Albert C. Barnes, em 1932. Diante das dificuldades enfrentadas pela imigrante na capital francesa, após concluir o mural Matisse decidiu contratar Lydia como enfermeira, para cuidar de Amelie – trabalho que ela exerceria pelos três anos seguintes.

Lydia Delectorskaya

A imigrante russa chegou ao ateliê do pintor em 1932

Lydia Delectorskaya e Matisse

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Somente em 1935 ela começou a posar para Matisse e, para supresa da jovem, o pintor não cometeu nenhuma investida sexual em sua direção, completamente comprometido com a realização de seu trabalho – ao longo dos quatro anos seguintes, Lydia se tornaria sua principal modelo e sua assistente pessoal. “Ela era capaz de comandar um exército, tinha incríveis habilidades, dirigia o estúdio, organizava as modelos, lidava com os mecenas, compradores, galeristas, e tudo funcionava como um relógio”, escreveu Hilary Spurling, biógrafa de Matisse. Assim, mesmo sem qualquer desconfiança sobre um possível adultério, a presença de Lydia causou uma grande fissura no casamento de 40 anos do artista com Amelie, que exigiu que Matisse escolhesse entre ela ou sua assistente.

Nu Rosa, de Matisse

“Nu Rosa”, pintado por 1935 com Lydia como modelo

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Diante do impasse, Matisse escolheu sua esposa, e dispensou os serviços e a presença de Lydia: sentindo apartada do propósito de sua vida, Madame Lydia tentou o suicídio com um tiro no peito, mas inacreditavelmente a bala foi desviada pelos seu osso esterno, e ela sobreviveu – em seguida, Amelie se separou de Matisse. A partir de 1939, Lydia voltaria a comandar o estúdio e a carreira do artista, com quem iria trabalhar até o fim da vida do pintor. Os últimos trabalhos do artista, como seus incríveis recortes em papel e a Capela do Rosário, na cidade de Vence, só foram possíveis pela assistência incansável de Lydia, que permaneceu ao lado de Matisse até sua morte, em 1954, aos 84 anos.

"Mulher de Casaco Roxo", de 1937

“Mulher de Casaco Roxo”, de 1937

Lydia no ateliê de Matisse

Lydia no ateliê de Matisse

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Um dia antes de falecer, Matisse realizou o último retrato de Lydia, feito com uma simples caneta bic mas, ao longo das duas décadas de parceria, foram mais de 100 desenhos e 90 quadros para os quais ela serviu de modelo e inspiração – em um dos retratos, ele escreveu: “Para Lydia, que não tem asas, mas que certamente merece ter. Suavidade e bondade. Como um sinal de respeito!”. A família não a convidou para o velório, mas nos anos que seguiram a morte do artista, Lydia escreveu dois livros sobre o período, e passou a trabalhar como a principal especialista na obra de Matisse, ajudando a organizar exposições, mostras e homenagens.

Matisse

Outro quadro de Matisse baseado em Lydia como modelo

Lydia

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“Se você quer saber se eu fui ‘esposa’ de Matisse, a resposta é sim e não”, ela escreveu. “No sentido material, físico do termo, não, mas no sentido espiritual, muito mais do que sim. Por 20 anos, eu fui ‘a luz de seus olhos’, e ele era o único sentido da minha vida”. Lydia faleceu aos 88 anos, em 1998 e, em 2010, uma exposição em sua homenagem foi realizada no Museu Matisse, na cidade de Nice.

Matisse, próximo do fim da vida, junto de Lydia

Matisse, próximo do fim da vida, junto de Lydia

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© fotos: Arquivo Henri Matisse/Messy Nessy


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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