Inspiração

Maria Odília Teixeira: quem é a primeira médica negra do Brasil

Roanna Azevedo - 26/01/2022 às 09:00 | Atualizada em 27/01/2022 às 09:24

Numa época em que as mulheres não haviam conquistado o direito ao voto no país, Maria Odília Teixeira já desafiava paradigmas. A baiana é considerada a primeira médica negra do Brasil. Ocupando no início do século XX um espaço que ainda hoje é predominantemente ligado à branquitude, ela se tornou uma grande inspiração de vida.

Para celebrar a importância de Maria Odília sobretudo para a população negra, contamos abaixo um pouco mais sobre sua trajetória, que é retrato de um Brasil pós-abolição.

Ingrid Silva: a estrela do balé de Nova York que trouxe visibilidade negra para a dança

Quem é Maria Odília Teixeira?

Maria Odília Teixeira se formou em 1909 na Faculdade de Medicina da Bahia.

Maria Odília Teixeira nasceu na cidade baiana de São Félix do Paraguaçu, em 1884. Era filha de Josephina Luiza Palma, uma mulher negra que teve a mãe escravizada e alforriada, e José Pereira Teixeira, um médico branco que, apesar da origem humilde, era bastante prestigiado na cidade. Seguindo os passos dele, ela logo decidiu que se dedicar aos estudos seria seu plano de vida.

Aos 13 anos, Maria Odília saiu de Cachoeira, onde morava com a família, rumo a Salvador para ser aluna do Ginásio da Bahia. O colégio era um dos mais tradicionais do estado, formando grande parte dos herdeiros da elite branca. Mas isso não impediu que ela também se graduasse em ciências e letras, além de dominar idiomas como francês, latim e grego.

A partir daí, a trajetória acadêmica de Maria Odília só cresceu. Em 1904, ela entrou para a Faculdade de Medicina da Bahia. Era a única mulher em uma turma de 48 alunos e foi tutorada pelo irmão, Joaquim Pereira Teixeira, veterano do mesmo curso na mesma universidade.

Estudante insatisfeito com apagamento racial cria guia de doenças associadas com pele negra

Em seus últimos anos como estudante de medicina, Maria Odília desenvolveu uma tese sobre a cirrose, um tema pouco explorado por médicas mulheres. O estudo foi considerado pioneiro principalmente porque fugiu do racismo científico como fundamentação. Na época, doenças associadas ao consumo excessivo de álcool eram tratadas como enfermidades comuns ao suposto comportamento degenerado de pessoas negras.

Maria Odília com Eusínio Lavigne, seu marido. Os dois se casaram aos 37 anos.

Maria Odília se formou em 1909, sendo a sétima mulher a se formar em medicina na Bahia e a primeira no século XX. Registros históricos apontam que ela também é a primeira médica negra do Brasil. Mas, como das 16 mulheres que se formaram em medicina no país antes dela, apenas 12 têm seus dados raciais conhecidos, esse é um fato que ainda precisa ser confirmado.

Barbie cria boneca de biomédica brasileira que ajudou a decifrar DNA do coronavírus

A vida e a carreira de Maria Odília

Logo depois de se formar, Maria Odília começou a trabalhar como médica na cidade de Cachoeira, para onde retornou. Os primeiros atendimentos costumavam ser supervisionados pelo pai ou pelo irmão mais velho. Com o tempo, ganhou confiança e credibilidade para exercer a profissão por conta própria, tratando principalmente de pacientes mulheres e sendo muito respeitada na região.

A experiência como médica em Cachoeira durou cinco anos. Em 1914, Maria Odília foi chamada para ser professora de clínica obstétrica na Faculdade de Medicina da Bahia. Ela então retornou para Salvador e se tornou a primeira professora negra da universidade. 

Tripulação quase deixa passageiro morrer por não acreditar que mulher negra pudesse ser médica

Maria Odília lecionou até 1917, quando partiu de volta para Cachoeira após descobrir que o pai estava doente. Na intenção de cuidar melhor da saúde dele, toda a família se mudou para a cidade de Irará, no sertão baiano. Foi lá que conheceu seu marido, Eusínio Lavigne, advogado de uma família tradicional de Ilhéus. Os dois se casaram aos 37 anos de idade sem a presença da família do noivo, que, por causa do racismo, não aceitava que ele se relacionasse com uma mulher negra.

Maria Odília sentada ao lado de Eusínio e dos filhos, José Léo e Gastão.

Após se tornarem pais de dois filhos, Maria Odília abandonou a carreira de médica para ter mais tempo de se dedicar a família e Eusínio decidiu entrar para a política, inspirado pelos ideais comunistas. Ele atuou como intendente da cidade de Ilhéus de 1930 a 1937, ano em que foi destituído do cargo e preso por criticar o golpe que implantou a ditadura do Estado Novo no Brasil durante o governo Vargas — Eusínio foi preso novamente em 1964 no período da ditadura militar.

4 golpes de estado na América Latina para a história não se repetir

Resolvida a situação, Maria Odília, o marido e os filhos se mudaram juntos para Salvador. Em 1950, ela escreveu uma carta em defesa do próprio pai como resposta ao livro “Teixeira Moleque”. Escrito por Rui Santos, a obra falava sobre o legado do médico José Pereira Teixeira.

Maria Odília faleceu aos 86 anos, em 1970.

Publicidade

Fotos: Reprodução/Acervo da família


Roanna Azevedo
Diretamente da zona norte do Rio, é jornalista por profissão e curiosa por conta própria. Ama escrever sobre cinema e o universo do entretenimento há mais de dois anos. Tem paixão por tudo que envolve cultura, música, arte e comportamento, além de ficar sempre ligada no que rola no mundinho da comunicação nas redes sociais.

Canais Especiais Hypeness