Viagem

Nas Ilhas Diomedes, a distância dos EUA para a Rússia – e de hoje para o futuro – é de somente 4 km

Vitor Paiva - 21/01/2022 às 07:39

Engana-se quem pensa que a distância entre os EUA e a Rússia necessariamente alcança a casa dos milhares de quilômetros: para cruzar essa tão simbólica fronteira, basta atravessar meros 4 km pelo mar do Estreito de Bering, e pronto – em travessia que, apesar de curta em metros, também representa uma verdadeira viagem no tempo. Não, essa não é a premissa de alguma história de ficção científica ambientada na Guerra Fria, mas sim a realidade das Ilhas Diomedes, duas formações rochosas vulcânicas separadas por 3,8 km: uma pertence aos EUA, e outra à Rússia, e entre as ilhas passa a chamada Linha Internacional da Data, no meridiano 168º 58′ 37″ W, fazendo com que a diferença de fuso horário seja de 21 horas.

As duas pequenas ilhas, em meio ao Estreito de Bering

As duas pequenas ilhas, em meio ao Estreito de Bering

As Diomedes de longe: a pequena, à esquerda, e a grande, à direita

As Diomedes de longe: a pequena, à esquerda, e a grande, à direita

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Essa curiosa posição no espaço (e no tempo) explica o motivo pelo qual a Grande Diomedes, localizada a leste, pertencente antes à União Soviética e hoje à Rússia, é apelidada de “Ilha de Amanhã”, enquanto a Pequena Diomedes, no lado oriental das duas formações e parte do território dos EUA, é conhecida como “Ilha de Ontem”. Em resumo, quando é 11:00 da manhã do dia 1 de janeiro da ilha estadunidense, é 08:00 da manhã do dia 2 de janeiro na Ilha do Amanhã. No dialeto Inupiaq, típico da região ao norte do Alasca, a ilha menor é chamada de Ignaluk e, com 7,3 km2 e 118 habitantes somente, é o ponto mais a oeste dos EUA: já a maior é também chamada de Ilha de Ratmanov, desabitada em seus 27 km2, é o ponto mais a leste do território russo.

Parte do vilarejo na Pequena Diomedes

Parte do vilarejo na Pequena Diomedes, pertencente aos EUA

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A partir de 1867, quando os EUA compraram o território do Alasca, a distância entre as duas ilhas passou a representar justamente a fronteira entre os dos países – durante a Guerra Fria, essa estreita separação passou a ser apelidada de “Cortina de Gelo”. Ao longo dos meses mais frios, tal metáfora se torna praticamente literal: localizadas no gélido Círculo Polar Ártico, no inverno o raso oceano entre as Diomedes fica completamente congelado, tornando possível realizar a travessia a pé – logo, tecnicamente uma pessoa poderia caminhar em questão de minutos da Rússia até os EUA. Vale lembrar, porém, que cruzar de uma ilha para outra, caminhando, patinando, esquiando ou nadando, não é permitido por lei.

As instalações militares na Grande Diomedes

As instalações militares na Grande Diomedes

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O nome das ilhas surgiu por conta do dia em que o navegador Vitrus Bering, que também batiza o estreito, primeiro pisou no território – em 16 de agosto de 1728, dia em que a Igreja Ortodoxa russa festeja São Diomede. Cerca de 70 anos atrás, a população que ocupava a Grande Diomedes foi obrigada, por conta das tensões da Guerra Fria, a se mudar para a Sibéria, para que a ilha passasse a ser ocupada somente por bases militares que lá ainda permanecem. Já a população da Pequena Diomedes é formada por esquimós nativos americanos, que habitam um pequeno vilarejo de 7,4 quilômetros, mas que ocupam o local há mais de 3 mil anos.

Diomedes

No inverno, o oceano ao redor das ilhas congela completamente

As Ilhas Diomedes fotografadas via satélite

As Ilhas Diomedes fotografadas via satélite

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© fotos 1, 2, 3, 4: Wikimedia Commons

© fotos 5, 6: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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