Diversidade

Novos ciclos, velhos desafios para a população Trans

Erica Malunguinho - 28/01/2022 às 15:39 | Atualizada em 31/01/2022 às 10:10

*O artigo abaixo foi escrito e enviado ao Hypeness pela deputada estadual por São Paulo, Erica Malunguinho.

*Por Erica Malunguinho 

A luta trans, assim como as diversas lutas protagonizadas por populações historicamente marginalizadas, percorre séculos. Para o cenário brasileiro é possível citar referências dessa empreitada ainda no século XVI.

E como nos remotos anos 1500, os tempos atuais nos revelam grandes ambiguidades, entre avanços e retrocessos, no que diz respeito à integração da comunidade trans à sociedade. Tomando nosso país como referência, é notável que, à medida que pessoas trans adentram as instituições políticas – onde são tomadas as decisões que recaem diretamente ao nosso dia – também temos um despresidente que se esforça para fazer do Brasil um lugar altamente formatado para a transfobia.

Entretanto, reforçando o outro lado da moeda, que se mobiliza pela igualdade, se em 2016 não havia uma deputada trans e apenas oito mulheres trans vereadoras, hoje somos mais de 30 eleitas nas dezenas de parlamentos do país, fato impulsionado pelo aumento em 226% nas candidaturas T nas eleições municipais, entre 2016 e 2020, e de 657% nas gerais, entre 2014 e 2018.

Hoje somos mais de 30 eleitas nas dezenas de parlamentos do país

Vivemos, portanto, algo que se equivale a um contragolpe ultraconservador, que corre em paralelo aos avanços na corrida pelos direitos humanos e pela diversidade. Esse movimento, alinhado ao status quo forjado na idade da pedra, impacta o acesso de transgeneres aos direitos básicos. Ante a expansão das candidaturas aos cargos eletivos e ao exercício  da política, do acesso à educação superior e do financiamento público para qualquer tipo de tratamento de saúde que precisemos, ainda lutamos pelo uso de nossos nomes e liberdade de transitar no espaço público em segurança. No dia 29 de janeiro homens e mulheres trans e travestis procuram dar visibilidade às suas lutas por estes e outros direitos, negados a eles como se neles não houvesse humanidade. 

Compreendendo a educação como importante fator de transformação social, a escola ainda é um espaço bastante opressor para pessoas trans. É negado muitas vezes o uso do nome social e o uso do banheiro torna-se complexo e doloroso. Situação corriqueira que não deveria ser um problema, mas infelizmente é. Cabe aos gestores escolares  garantir a efetivação destes direitos, mas ainda é um problema para as estudantes que são mulheres trans e travestis usarem o banheiro feminino e para os estudantes que são homens trans usarem o banheiro masculino, o que se desdobra em um processo de exclusão escolar. 

Trago esse exemplo que pode parecer banal, para percebermos que um direito aparentemente simples, como o uso do banheiro, nos revela o quanto ainda estamos distante de qualquer linha de chegada, de constituição de humanidade para pessoas trans e travestis. Estudo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) estima que 82% das pessoas trans e travestis tenham abandonado a escola ainda na Educação Básica. O longa-metragem “Valentina”, dirigido por Cássio Pereira dos Santos, e estrelado pela atriz Thiessa Woinbackk, destaca os constrangimentos pelos quais passam uma adolescente trans para permanecer na escola. A violência sofrida na escola é um importante fator de exclusão para crianças e adolescentes trans, aumentando os índices de baixa escolarização dessa população, gerando o ciclo vicioso que leva ao subemprego e aos baixos salários. 

Compreendendo a educação como importante fator de transformação social

O Brasil continua liderando o ranking mundial de países que mais matam travestis e transexuais, sendo que 80% dos casos ocorrem com requintes de crueldade. Com a pandemia de Covid 19, o índice de vulnerabilidade social da população trans só aumentou.  Em 2020, por exemplo, a média de 122 assassinatos por ano aumentou 43% e o índice de violência doméstica subiu 45%. Esse cotidiano cruel das pessoas trans existe e perdurará enquanto as vidas transexuais não forem tratadas com humanidade, e, para tal, nada melhor que o exemplo vindo de ocupantes dos cargos de poder. 

Se hoje somos apenas 31 pessoas trans eleitas no país, continuemos com a organização coletiva na sociedade civil, e também nos mobilizemos para que lideranças trans estejam em espaços decisórios após as próximas eleições. Que em 2022 vejamos novas lideranças ocupando novos lugares e adquirindo novas armas para o combate contra aqueles que querem nos negar cidadania.

* Eleita deputa estadual em em 2018 pelo PSOL, Erica Malunguinho foi a primeira pessoa trans a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo. 

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