Debate

Papa Bento XVI: entenda investigação que acusa ex-pontífice de encobrir casos de pedofilia

Vitor Paiva - 26/01/2022 às 08:58 | Atualizada em 27/01/2022 às 17:19

Desde que o Papa emérito Bento XVI renunciou ao título máximo da Igreja Católica Apostólica Romana, encerrando papado que cumpriu entre 2005 e 2013, que críticas sobre sua possível omissão diante de denúncias de abuso sexual no contexto da Igreja contra crianças começaram a ser apontadas.

Um relatório independente publicado recentemente na Alemanha afirmou que, no período em que trabalhou como arcebispo de Munique, entre 1977 e 1982, ainda como cardeal Joseph Ratzinger, o líder religioso alemão deixou de agir diante de quatro situações de pedofilia denunciadas.

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A investigação

Hoje com 94 anos, Ratzinger negou as acusações sobre sua omissão, mas se disse chocado e envergonhado diante dos casos de pedofilia. Contraditoriamente, porém, ele admitiu ter participado de uma reunião ocorrida em 1980, na qual se discutiu a situação do padre Peter Hullerman, acusado de abusar sexualmente de dezenas de menores de idade: os crimes de Hullerman já eram conhecidos pela Igreja à época, mas Ratzinger teria ainda assim permitido seu trabalho. Segundo o arcebispo Georg Ganswein, secretário pessoal do Papa emérito, a contradição teria surgido por um “erro na edição” do depoimento de Ratzinger.

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O relatório de 1900 páginas foi realizado a pedido da própria Igreja pelo escritório de advocacia alemão WSW e, além de apontar a possível omissão do então Arcebispo, acusa 497 casos de abuso sexual ocorridos somente na Arquidiocese de Munique, no período entre 1945 e 2019.

A primeira resposta de Ratzinger veio em um detalhado documento de 82 páginas, mas as pontuações posteriores sugerem que Bento XVI deverá realizar uma nova resposta: segundo Ganswein, o erro a respeito da reunião em 1980 “não foi feito com má intenção”, sobre o qual o líder “lamenta muito e pede desculpa pelo ocorrido”.

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Segundo o relatório, a maioria das vitimas eram meninos entre 6 e 14 anos, com 235 agressores identificados entre padres, diáconos e funcionários de escolas ligadas à Igreja – o documento afirma que o então cardeal Ratzinger pode ser acusado de “má conduta” em ao menos quatro casos de abuso sexual.

“Ele ainda alega que não sabia dos casos, mas, na nossa opinião, é difícil conciliar essa alegação com a documentação que temos”, afirmou Martin Pusch, um dos autores do relatório, em entrevista. Para Pusch, a afirmação de que Bento XVI não tinha conhecimento dos casos não é crível, já que os padres envolvidos eram acusados de diversas agressões na justiça.

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© fotos 1, 4: Wikimedia Commons

© foto 2: Getty Images

© foto 3: Alchetron


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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