Diversidade

Podcaster que abriu vagas para pretos e indígenas é perseguida por brancos nas redes sociais

13 • 01 • 2022 às 10:09
Atualizada em 14 • 01 • 2022 às 10:36
Vitor Paiva
Vitor Paiva   Redator Vitor Paiva é jornalista, escritor, pesquisador e músico. Nascido no Rio de Janeiro, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Trabalhou em diversas publicações desde o início dos anos 2000, escrevendo especialmente sobre música, literatura, contracultura e história da arte.

A simples abertura de um processo seletivo para o trabalho de assistente de roteiro tornou-se uma fonte de transtorno, ódio, preconceito e mesmo ameaças para a psicóloga, escritora, roteirista e podcaster Déia Freitas.

O motivo está no fato da vaga ter sido anunciada como exclusiva para mulheres negras, pardas e de origem indígena: além dos ataques – que incluíram ameaças de processo por suposta discriminação contra homens e pessoas brancas – Freitas, do podcast Não Inviabilize, também perdeu momentaneamente o acesso ao e-mail pelo qual estava recebendo os currículos das candidatas.

A psicóloga e podcaster Déia Freitas

A psicóloga e podcaster Déia Freitas

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A vaga que despertou a ira de brancos nas redes 

A situação começou apenas um dia após a abertura da seleção, que traz, entre seus requisitos, o foco exclusivo em mulheres “pretas, pardas e indígenas”,“cis [que se identificam com o gênero de nascimento], mulheres trans, travesti”.

Segundo o anúncio, a vaga “contempla também mulheres PCD [pessoa com deficiência]”, deixando claro que “pode mãe solo, pode casada, pode solteira, pode tico-tico no fubá, pode hétero, pode lésbica, pode bi, pode tudo, isso não é importante para a vaga”, diz o texto. Em reportagem da Folha de São Paulo, a podcaster lembrou que poderia simplesmente não ter revelado o critério, mas que o fez para tornar o processo transparente, e não dar trabalho nem falsas esperanças a ninguém.

Podcast Não Inviabilize

O anúncio do início do processo seletivo foi feito através das redes do podcast

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“O resultado: ódio gratuito no Twitter, a vaga printada em grupos do FB [Facebook] com gente me ameaçando, gente tentando invadir o e-mail da vaga no Google”, afirmou, em tweet, a respeito dos ataques.

Entre advogados, professores, especialistas em Direito e juristas ouvidos pela reportagem, a posição foi unânime em confirmar que não somente Freitas tem o direito legal de promover esse tipo de seleção direcionada, como não se trata de qualquer tipo de discriminação – pelo contrário: a maioria dos ouvidos lembrou que somente com medidas reparatórias é possível começar a contornar os efeitos do racismo no Brasil – incluindo o mercado de trabalho.

Podcast Não Inviabilize

A podcaster anunciou que irá se afastar das redes para evitar a onda de ódio – mas que o processo seletivo segue

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Antes de perder o acesso, Freitas revelou que também recebeu uma enxurrada de currículos de pessoas brancas no e-mail. Apesar dos ataques coordenados, Freitas deixou claro que não irá alterar nada no regulamento determinado. O objetivo, segundo comentou à matéria da Folha, não era tirar a chance de alguém, mas sim oferecer oportunidade a quem nunca tem.

A vaga de assistente de roteiro tem contrato de quatro meses, com remuneração de R$ 22 mil em parcelas de R$ 5.000, e mais um bônus de R$ 2.000 ao fim do trabalho. Segundo o site, o podcast Não Inviabilize é “um espaço de contos e crônicas, um laboratório de histórias reais”.

Podcast Não Inviabilize

O podcast Não Inviabilize é um dos mais ouvidos no Brasil

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