Futuro

Quando as águas do Rio Cachoeira chegaram à minha porta

14 • 01 • 2022 às 11:25
Atualizada em 17 • 01 • 2022 às 11:39
Adriane Primo
Adriane Primo   Redatora Comunicadora, praieira nascida em Ilhéus, no sul da Bahia, nunca soube fazer outra coisa senão comunicação, em especial aquelas que envolvem arte, cultura e sociedade. Já escreveu para jornal, sites de notícias, atuou (e atua) em assessorias de imprensa, gerenciamento de redes sociais, pesquisa criativa e afins. Pensa, escreve e executa projetos de desenvolvimento social.

A comunidade do Banco da Vitória, localizada na cidade de Ilhéus, foi um dos locais impactados pelas enchentes de dezembro no estado da Bahia, que deixaram 30.915 desabrigados, 62.731 desalojados, 518 feridos e 26 mortos nos 166 municípios baianos atingidos, segundo dados da Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia.  

Entre os afetados nessa tragédia anunciada, parentes e vizinhos vítimas de um combo formado por barreiras estruturais que inflama o debate acerca do racismo ambiental e denuncia a fragilidade das negociações estatais de desenvolvimento social.

Antes de tudo 

Tenho certeza que você acompanhou as notícias dessa tragédia que fechou o ano de 2021. Inclusive, nós do Hypeness publicamos os números iniciais dos atingidos e buscamos entender o que realmente aconteceu no sul da Bahia nesta reportagem super importante que também nos traz informações sobre como ajudar as famílias. E sim, centenas ainda precisam de ajuda. 

Os debates acerca do racismo ambiental e o direito à terra e ao território também não são novidade aqui. A jornalista Karol Gomes fez um ótimo trabalho no EP 09 do podcast do Hypeness, o Prosa. E Gabrielle Estevans também já nos trouxe uma baita matéria sobre a importância de discutir novos caminhos para habitação que priorizem a esfera socioambiental. Contudo, quando as águas do Rio Cachoeira chegaram à minha porta dessa forma tão violenta, eu não pude deixar de escrever sobre tudo isso e mais um pouco para reafirmar que algo precisa ser feito para garantir qualidade de vida a TODOS os brasileiros. E que ~ amar a Bahia ~ apenas para fins neocoloniais de exploração do seu arsenal cultural não dá mais. 

O presente é ancestral 

O Banco da Vitória é uma pequena e pacata comunidade formada à beira do Rio Cachoeira onde sou nascida e criada e que abriga a maior parte da minha família materna e paterna. Local não turístico da Costa do Cacau, carrega em sua historicidade a participação na construção do município de Ilhéus, que este ano completa 487 anos. 

Território indígena, em Ilhéus resiste o Povo Tupinambá de Olivença com 22 aldeias, sob orientação de uma das maiores lideranças indígenas do país, o Cacique Babau. A localidade do Banco da Vitória também é território indígena, lá habitavam os povos Tupiniquins e Aimorés, segundo pesquisadores. Mas com a chegada dos colonizadores, em meados do século XV, quando começou a se desbravar a Capitania de São Jorge dos Ilhéus, o território passou a ser um dos pontos mais importantes de passagem e escoamento das produções agrícolas da região cacaueira e os indígenas foram expulsos e/ou escravizados.

Foi ali também nas terras de Banco da Vitória que implantou-se a sesmaria Victória, em meados de 1857, uma das maiores fazendas de escravos da região.  Após a implementação da Lei do Ventre Livre e, por fim, a Abolição da Escravatura, a comunidade começa a se reorganizar. Aqui, peço desculpas ao leitor pelo lapso temporal. Mas é que a história do índio e, principalmente, do negro a partir do seu ponto de vista ficou na oralidade e se perdeu.

Não possuo mais nenhuma bisavó ou bisavô vivos para me contarem como chegaram no Banco da Vitória. Minhas avós não se lembram de uma vida antes dali. E meus avôs morreram. Por isso parto para minha avó Hilda, 90, a mais velha das minhas anciãs, que lembra de ter trabalhado na sesmaria Vitoria “quando menina” na casa de farinha para sustentar os filhos. Lugar que até hoje guarda os resquícios visuais da escravidão. “Assombrado”, afirma vó que é mãe daquele que vinha a se tornar um dos craques do futebol nacional: Aldair Nascimento, zagueiro e tetracampeão mundial. Meu pai. 

Abismo cognitivo

Cheguei lá quando a pista foi liberada para passagem de carros, já que dois dias antes o rio havia subido nove metros e transbordado ao ponto da comunidade ficar ilhada. E se não fosse o desânimo de ir celebrar o Natal depois de apenas sobreviver 2021 no Brasil com tanto descaso político à saúde pública, 12,9 milhões de desempregados (entre os quais alguns muitos membros da família), variantes virais e os altos números de contaminados com o aumento do movimento anti-vacinas, além das mortes que continuam em todo o mundo (um ano no mínimo desgastante para nós que fazemos parte de grupos sociais que sofrem com a precarização de tudo, inclusive de acesso à vacina contra a covid-19 aos negros e indígenas), eu teria vivido mais de perto essa catástrofe. 

Ao chegar fui conferir se meu tio avô Zabelê, de 66 anos, e minha prima Seilane Primo, 32, estavam bem na casa da minha avó Lôra, que fica em um ponto não diretamente atingido pela água. Estavam todos com a feição assustada. Minha prima Seilane, com sua pequena filha Maria Clara, de apenas cinco meses, tinham acabado de vivenciar uma catástrofe climática que tanto víamos na infância pela televisão.

“Foi muito rápido Dri. Eu só pensava em pegar as coisas de Clarinha e sair”, me contou. Ela conseguiu tirar os móveis antes da água invadir a parte interna da casa. Meu tio Zabelê mal falava. Estava incrédulo. Teve resistência em deixar sua casa. Não queria acreditar que a água iria chegar até lá. E quando chegou “foi tão rápido, que eu fui acudir o povo”, me disse. Perdeu alguns bens. 

Quintal da casa de Seilane Primo durante a enchente e depois. Foto 1: arquivo pessoal Foto 2: Adriane primo

Em seguida me dirigi aos locais afetados. Atravessei a praça até chegar no final da rua Aldair e encontrei um cenário de destruição e o sentimento que pairava no ar era de tristeza e indignação. Casas no chão, tomadas pela lama e pessoas com a mão na cabeça. Na casa de Dona Lourdes, 73, que mora por ali há 31 anos, a água chegou até o teto. Felizmente deu tempo de recolher tudo. “Invadiu tudo aí minha filha. Foi um desespero só”, disse andando de um lado a outro eufórica.

Na comunidade do Banco da Vitória, em Ilhéus, moradores perderam bens e ficaram desabrigadas. Foto: Adriane Primo

Enquanto observava todo o cenário, vi Seu Zé* sentado paralizado vendo sua casa completamente no chão diante dos seus olhos. Aquela cena me marcou profundamente. Não tive coragem de entrevistá-lo, em respeito ao seu luto e luta. Era também morador antigo, me disse Dona Lourdes. 

A casa de seu Zé* foi completamente destruída pela enchente. Foto: Adriane Primo

Depois, fui ao colégio e ao ginásio municipal, que serviram de alojamento para as vítimas. Um cenário doloroso de se ver. Móveis espalhados, gente no chão dormindo, comendo, visivelmente abaladas e desesperançosas.

A escola municipal da comunidade se tornou ponto de apoio para as famílias atingidas pela enchente. Foto: Adriane Primo

De acordo com moradores, cerca de cem pessoas foram afetadas no bairro. Fotos: Adriane Primo

Ginásio municipal também se tornou pontos de apoio para desabrigados. Foto: Adriane Primo

Colônia de Pescadores ficou quase submersa após o Rio Cachoeira subir 9 metros. Foto: Adriane Primo

Rua atingida pela enchente deixou rastro de lama e destruição. Foto: Adriane Primo

Máquina de comer mundo

Foi uma tragédia anunciada, com precedente de 1967, a última enchente que a população da região de Itabuna e Ilhéus tem memória. E, neste vídeo, podemos ver que os estragos nas cidades foram os mesmos porque nenhum dos municípios implementou ações socioambientais de médio e longo prazo para evitar a repetição dos danos, como foi anunciado à época e depois neste projeto de revitalização que seria executado pela prefeitura de Itabuna. E não saiu do papel. Então, 54 anos depois presenciamos algo de uma magnitude infinitamente maior, que atingiu diversas regiões do Estado da Bahia. 

Não podemos descartar os fenômenos climáticos. O La Niña foi um dos causadores de chuvas tão intensas. Mas não podemos, sobretudo, deixar passar a responsabilidade que o governo municipal, estadual e federal  têm sobre essa tragédia. Acordos políticos e econômicos para a construção de barragens, portos e o avanço desenfreado do agronegócio vem alterando a dinâmica socioambiental da população baiana, brasileira e mundial. E cada vez mais o planeta responde com a mesma violência dos maquinários que cimentam a terra.

A construção do Porto Sul, uma obra de R$ 4 bilhões custeada pela Bahia Mineral e que vem inflamando debates desde seu anúncio em 2007, é um bom exemplo sobre os impactos socioambientais que obras de grande porte como esta, sem comprometimento com as pessoas e a preservação dos recursos naturais, podem influenciar no racismo ambiental e no direito à terra e ao território.

Nesta reportagem publicada um pouco antes da enchente de dezembro pelo jornalista Victor Uchôa, temos uma real noção disso. Vale a leitura! O movimento @suldabahiaviva também produziu o material audiovisual abaixo de caráter informativo sobre essa obra. 

Segundo  reportagem do Observatório da Mineração, a Bahia foi o segundo Estado a receber incentivo financeiro para pesquisa mineral nos últimos dois anos, ficando atrás apenas de Minas Gerais, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Mineração, em junho de 2021. 

No oeste da Bahia, no município de Cocos, um dos nove afetados pela enchente de dezembro, os conflitos com agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas e quilombolas são antigos e devido à construção de barragens e hidroelétricas. Essa audiência pública com a presença de representantes sociais e judiciais evidencia a fragilidade do Estado em cumprir a segurança ambiental e implementar políticas essenciais à população no oeste. Nela, o líder indígena Cacique Divalci denuncia os projetos de construção de barragens ao longo do Rio Itaguari e os impactos às comunidades indígenas que vivem da biodiversidade. 

No âmbito nacional, acumulamos uma série de catástrofes ambientais nos últimos tempos. Alguns dias depois das enchentes na Bahia, Minas Gerais foi atingida e deixou um rastro de caos. Mas também, o que esperar em um país que  vem aumentando a emissão de CO2, assim como em todo o mundo? O Brasil também é o 2º maior comprador de agrotóxicos proibidos na Europa. Proibido na União Europeia, o que mais apareceu nos alimentos brasileiros disponíveis nos mercados europeus foi o carbendazim. Segundo reportagem da organização Repórter Brasil, ele estava em 64 dos 770 alimentos testados. Principalmente nas frutas. O carbendazim foi banido na Europa porque pode causar defeitos genéticos, prejudicar a fertilidade e o feto, além de ser muito tóxico para a vida aquática.

Além disso, o Brasil tem dificuldade em cumprir as políticas essenciais, como mostrou auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2018. O relatório concluiu que a Agência Nacional de Mineração (ANM), instituição responsável por fiscalizar mineradoras e garantir a segurança de barragens, como a que rompeu em Brumadinho (MG), é o segundo órgão federal mais exposto à fraude e à corrupção no país. Também o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil (com dados de 2020), publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta o retrato de um ano trágico para os povos originários. De acordo com o relatório, a pandemia, ao contrário do que se poderia esperar, não impediu que grileiros, garimpeiros e madeireiros intensificassem ainda mais suas investidas sobre as terras indígenas. Leia o relatório completo aqui

E o Brasil também é o quarto país do mundo mais perigoso para os ativistas e defensores da terra e do meio ambiente, de acordo com o relatório anual da ONG Global Witness. Na frente estão Colômbia, México e Filipinas. No último dia 09 de janeiro, tivemos a primeira morte oficialmente registrada nos termos de 2022. José do Lago, sua esposa Márcia e a filha do casal, Joene, de 6 anos, foram mortos a tiros. Eles eram moradores da região de São Félix do Xingu, sudeste do Pará, e lutavam para a preservação de tartarugas e jabutis há vinte anos, mesmo sob ameaças. 

O que te afeta no mundo

Nesse cenário, experienciar de perto uma catástrofe ambiental foi angustiante. E mais do que nunca as palavras de Ailton Krenak, ambientalista e pesquisador,  fazem sentido. Em uma declaração recente, ele disse que aprender com o sofrimento é coisa de “mentalidade  branca”. É é. Nós não precisamos aprender com o sofrimento. Para isso, talvez basta responder uma pergunta aparentemente simples: Qual a mágica te afeta no mundo?  

Aproveito para deixar aqui um de seus pensamentos:

 

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