Diversidade

Um caldeirão onde ninguém se mistura: como eu vivo em Londres há 3 meses e todos os amigos que fiz são outros imigrantes negros

Jamille Bastos - 28/01/2022 às 10:03 | Atualizada em 31/01/2022 às 10:10

Sentada no metrô enquanto conversava com minha nova amiga, uma malawiana linda com a qual me juntei organicamente nas aulas do meu mestrado e fiz todos os projetos junto, o pensamento me atingiu como um raio: todos os amigos que eu tinha feito após três meses na Inglaterra eram imigrantes, mais especificamente imigrantes negros

E em um país onde mais de 80% da população é branca, essa matemática é de se estranhar. Algumas perguntas a mais e eu descobri que essa também era a realidade dos meus amigos daqui, inclusive da francesa negra com quem eu divido um flat: nove anos na Inglaterra, apenas quatro amigos britânicos, todos negros. Nos dois meses que se seguiram, eu fui atrás das respostas por trás dessa estranha realidade e é claro que não existe uma só, mas números e realidades que mostram como esse país ainda vive uma grande ressaca moral dos tempos do império que explorou múltiplos países pelo mundo.

A noz que talvez quebre mais fácil se você for branco

Todas as pessoas que eu entrevistei me falaram do mesmo sentimento: o de que as pessoas em Londres estão sempre correndo e não têm muito tempo pra fazer novas amizades. 

“Londres é uma noz dura de quebrar. As pessoas estão ocupadas e mal têm tempo para seus próprios amigos, então incluir novas pessoas é difícil. E acho que há genuinamente um tipo de natureza defensiva que vem de estar em uma cidade grande. Londres é um lugar onde há uma espécie de ‘quem é você, o que você quer?’ Eu não consigo evitar. Alguém está andando na minha direção na rua e eu estou tentando descobrir: você é perigoso? Você é seguro? Não é consciente”, diz Tony Simpsom, um ator branco londrino que vive em um bairro cheio de diversidade chamado Hackney. 

O movimentado bairro do Hackney, em Londres

Em outras palavras, Tony descreveu exatamente o que Wendy Brobey, uma paralegal francesa que vive na cidade há nove anos, me contou que experimentou quando chegou na capital: 

“Me lembrou uma versão pior de Nova York. Porque morei 6 meses em Nova York e, apesar de ser um lugar rápido, as pessoas ainda são acessíveis. Aqui você pode ver no transporte, todo mundo está em sua própria caixa e você vai ter sorte se algum cara se oferecer para ajudar com suas malas, mas hoje em dia ninguém faz isso, ninguém tem tempo. Isso foi o que realmente me chocou quando cheguei aqui”.

Na verdade, eu não tenho nenhum amigo britânico desde que eu saí da escola

Wendy conta que foi realmente difícil fazer amizades aqui e que, por isso, após 9 anos no país, ela só mantém 4 amigas britânicas e todas negras. Já Ayslim Ofori-Dadzie, uma estudante de direito negra que é nascida e criada em Londres, diz que zerou essa conta: “Na verdade, eu não tenho nenhum amigo britânico desde que eu saí da escola”, conta. Quem vive uma situação um pouco diferente e parece ter quebrado essa noz com facilidade é a mestranda alemã Alexandra van Hall, que fez cinco amigos brancos britânicos desde que chegou aqui, há dois meses e meio. “Eu conheci eles nas aulas do meu mestrado em Campanha de Mídia e Mudança Social. Somos próximos, saímos e compartilhamos os mesmos interesses”, conta.

A experiência de Alexandra, que é tão diferente das outras entrevistadas negras e o fato de que Ayslim e Wendy têm sim círculos de amizade, só não com britânicos brancos, me fizeram pensar que a natureza ocupada e reservada dos ingleses não é a real razão por trás dessa questão. Maurice Mcleod, um político londrino e CEO de uma ONG antirracista chamada Race on the Agenda, acredita que a questão do tempo até desempenha um papel nessa história, mas que a razão fundamental é outra. 

“Acho que as pessoas estão tão ocupadas que não têm tempo para conhecer novas pessoas. Então você conversa com as pessoas que você já conhece e as pessoas que você já conhece, provavelmente se parecem com você”, diz Maurice. Essa pareceu ser uma pista um pouco mais promissora a seguir, as invisíveis linhas de separação pela cidade.

Um caldeirão com cada ingrediente no seu canto – uma segregação moderna

A primeira coisa que qualquer um percebe ao chegar em Londres é uma incrível diversidade e o fato de que aqui você encontra a todo tempo com gente do mundo todo, o chamado caldeirão (ou melting pot, como eles falam por aqui). Mas se você ficar um pouco mais na cidade vai dar tempo de perceber que esses ingredientes que compõem Londres, na verdade, não se misturam muito. 

Em 2014 a então Social Integration Commission (Comissão de Integração Social) divulgou um relatório que ilustraria muito bem a questão: o britânico médio é 48% menos integrado por etnia do que seria esperado se não houvesse segregação social. Isso significa que o britânico médio tem 48% menos interações com pessoas de diferentes etnias do que seria esperado se a etnia fosse algo irrelevante. A pesquisa descobriu ainda dois outros fatos importantes dentro dessa realidade: o britânico branco é o mais segregado entre todas as etnias presentes na Inglaterra e os londrinos brancos são especialmente segregados das minorias em comparação com os brancos do restante do país.

Gráfico mostra nível de integração entre etnias em Londres

Essa separação da qual o estudo fala fica ainda mais clara quando você faz para qualquer pessoa negra em Londres a seguinte pergunta: “de onde você é?”. Não espere ouvir um “eu sou Inglês”, mesmo que você esteja falando com pessoas nascidas e criadas aqui, não vai acontecer. Há algumas semanas eu falava com Ayslim sobre o clima frio, quando ela me disse que, mesmo tendo sido nascida e criada em Londres, nunca se acostumou. Eu lhe contei sobre como eu achava que europeus já eram acostumados e não sofriam tanto, quando ela me disse que eles deveriam saber mesmo se virar com o clima deles. Eu parei um pouco confusa e falei: “não, mas eu estou falando de você”, ao que na hora ela respondeu: “ah não, por favor não me coloca na caixa deles”. 

Fui pra casa sem entender muito e pensando como, no Brasil, quem é da favela sofre uma clara separação de quem é do asfalto, mas que ninguém chega a questionar se é brasileiro ou não. A diferença é que Ayslim tem raízes muito mais claras que a dos negros brasileiros, que tiveram suas raízes propositalmente apagadas durante a escravidão e que ela vive uma imigração muito mais recente. Sua família, de Gana, faz parte dos habitantes das colônias que o Império Britânico convocou após a Segunda Guerra Mundial para ajudar a reconstruir o país. “Mesmo que no papel eu seja tecnicamente britânica, quando as pessoas perguntam de onde eu sou, eu digo Gana. Eu não tenho certeza do porquê, talvez seja porque eu experimento muito da cultura dentro da minha família”, conta Ayslim.

Existe uma grande diferença entre ser alguém que é de Roma e ser um romano

Mesmo sendo um representante eleito de uma comunidade londrina, Maurice compartilha exatamente do mesmo sentimento de Ayslim. “Eu nunca me chamaria de inglês. Nasci em Londres, não morei em nenhum outro lugar e sou inglês, mas ‘inglês’ soa branco para mim. Se eu digo ‘um cara inglês’ não é sobre mim, ser um homem inglês significa uma coisa muito particular, eu sei que nunca seria considerado como tal, mesmo que eu tenha nascido na Inglaterra e seja um homem”, conta, me dizendo que tanto o termo inglês quanto europeu são culturalmente carregados.

“Provavelmente há negros que se sentem à vontade se chamando assim. Se você realmente respeita a instituição inglesa e acha que o Império era ok, você se sente confortável em adotar essa identidade. Quando penso no Império Britânico, penso na colonização dos países do meu pai e da minha mãe. Não vejo nada de particularmente positivo nisso, então me amarrar a isso parece estranho. Existe uma grande diferença entre ser alguém que é de Roma e ser um romano”, explica.

Como alguém que pode fenotipicamente ser considerado um homem inglês, Tony diz que o sentimento que origina esse desconforto é passado para crianças inglesas desde pequenas. “A maioria dos britânicos ouvem que somos melhores que os outros, basta olhar para o nome do país, Great Britain. Somos ensinados a ter um senso inato de superioridade, que é falso, não é baseado em fatos. Por causa do nosso sistema de classes, todos nesse país aceitam cegamente a ideia de que existem pessoas que são melhores que as outras. É como se, genuinamente, tivéssemos uma ressaca redundante e tóxica do poder do Império”, diz o ator.

Além das fortes raízes com os países de seus pais e da falta de identificação com a nação que colonizou esses territórios, existe mais uma razão para a separação étnica que acontece por aqui. “Como uma pessoa negra, você é constantemente lembrado de que você não faz parte de como muitas pessoas veem este país, então você não consegue evitar se sentir assim”, conta Maurice, que cita a Lei de Nacionalidade e Fronteiras, em atual tramitação no Parlamento inglês, como um exemplo perfeito desse contínuo lembrete. 

Essa legislação significa que, se seus pais nasceram em outro país e você comete um crime, sua cidadania britânica pode ser removida. “São 6 milhões de pessoas com diferentes riscos legais. Se eles e um amigo branco cometem um crime, os dois são pegos, os dois vão para a prisão, mas apenas um deles é expulso do país. Essa lei é um exemplo de como somos constantemente lembrados de que não pertencemos realmente, que não somos totalmente britânicos” diz o político.

Na mesma semana em que Ayslim me contou não se considerar europeia, mesmo tendo nascido na Europa, a estudante alemã Alexandra confessou durante a nossa conversa o quanto ficou surpresa que eu a tivesse chamado para uma entrevista como uma imigrante, porque ela nunca tinha pensado em si mesma daquele jeito. “No fundo da minha mente eu sei que imigrei de um país diferente, que me mudei da Alemanha, mas ainda assim nunca me considerei imigrante”, conta. A total adaptabilidade de Alexandra frente à falta de pertencimento de cidadãos negros nascidos e criados aqui é um contraste significativo na forma de experimentar a cidade. Para Alexandra, Londres ainda parece ser uma cidade bem integrada entre suas diferentes etnias. 

“Acho que em Londres estamos bem no que diz respeito à integração. Existem áreas separadas, mas acho que são de fácil acesso. Eu moro em uma área turca e não sinto que não pertenço, as pessoas me tratam muito bem, explicam a comida para mim e são muito amigáveis. Eu sei que tudo o que estou falando pode soar um pouco positivo, mas estou falando pensando em minhas experiências e sei que minhas experiências são afetadas pelo meu privilégio, sei que estou falando de um ponto de vista muito privilegiado. Eu sou branca, alta e loira, nunca experimentei ser tratada de forma diferente”, conta a estudante.

Ele olhava pra mim como alguém que queria me bater

Experiência bem diferente viveu Wendy Brobey, negra e francesa, em sua chegada a Londres. Era o ápice da discussão do Brexit – que levou o Reino Unido a deixar a União Europeia -, e, além de receber flyers em sua caixa de correio sobre imigrantes terem que retornar para seus países em breve, ela foi atacada no metrô por falar francês ao telefone com uma amiga.

“Eu até disse pra minha amiga que tinha um cara olhando pra mim. Ela disse “talvez ele queira o seu número”, mas ele me olhava como alguém que queria me bater”, conta. Assim que ela terminou a ligação, o homem começou a gritar frases como ‘todos vocês precisam ir para casa, vocês não têm nada para fazer aqui’. “Perguntei se ele estava falando comigo e ele disse: ‘Sim, quando você olha em volta, quem não é daqui além de você?’, relembra a paralegal. 

Foi quando o homem começou a gritar que tinha ouvido ela falar em francês, que ela tinha recebido um ultimato e que todos eles precisavam ir embora agora. “E todo mundo olhava pra ele, mas não fazia nada. Eu disse que achava que ele estava louco e nesse momento ele se levantou e se aproximou de mim. Eu disse: se você me tocar, nós dois vamos para a cadeia, porque vou bater em você com meu computador. Depois disso, ele disse: ‘olha só, eles são violentos’. Foi só então que um homem grande veio e disse a ele ‘vai sentar’. Ele era um cara britânico branco e alto e o outro homem disse ‘tudo bem, me desculpe’. O que me chocou é que até aquele momento todo mundo estava quieto”, conta Wendy.

Campanha contra crimes de ódio no metrô de Londres

O ataque a Wendy, infelizmente, não foi algo isolado. O que não faltam são notícias sobre asiáticos recebendo socos no metrô no início da pandemia de covid, judeus sendo ofendidos, mulheres islâmicas tendo suas hijabs arrancadas e outras coisas. Existe, inclusive, um investimento em comunicação nas estações de metrô para que as agressões sejam denunciadas. Não existem muitas diferenças entre Wendy e Alexandra na chegada a Londres: ambas estudantes, ambas imigraram de países europeus vizinhos, uma negra, outra branca. 

Para Maurice, a separação revelada pelo relatório da Social Integration Commission e sentida na pele por ele, Ayslim e Wendy, é bem clara e algo difícil de reverter.  “Eu acho que, infelizmente, estamos nos tornando mais segregados racialmente sim. Por causa do racismo sistêmico, negros e asiáticos se encontram muitas vezes no fundo da pirâmide econômica e estamos nos tornando mais segregados com base em renda, finanças e oportunidades. Então, nós realmente vivemos em mundos diferentes”, reflete o político.

Eu vim pra Londres com a visão de que você pode usar o que quiser por aqui, que você pode ser do jeito que quiser. Mas aquela era uma visão bem inocente. A presença de uma diversidade única, com um número de nacionalidades que eu nunca vi em nenhum outro lugar, é inegável, mas existem muito mais camadas do que todo mundo só vivendo em harmonia. 

Acredito que o meu estranhamento inicial em só ter feito amigos imigrantes e negros em um país mais de 80% branco, foi porque eu caí nessa rede de proteção sem nem saber, fui acolhida por aqueles que sabem que a noz dura de quebrar que é Londres precisa de uma comunidade pra ter um pouso mais macio quando uma pessoa negra chega por aqui. Como destaca Maurice, “é natural querer estar em um espaço onde você está protegido e não sente que precisa explicar suas experiências ou justificar sua humanidade, é muito bom ser apenas uma pessoa”.

Eu realmente espero que uma maior integração aconteça, não porque haja nada de errado com a homogeneidade que as comunidades negras constroem por aqui e é realmente linda de ver e viver, mas para que os filhos que vão nascer, crescer e passar a vida por aqui, experimentem da justiça racial, social e econômica a qual eles têm direito.

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Fotos: foto 1: Getty Images/foto 2: Social Integration Commission/foto 3: Jamile Ribeiro

 


Jamille Bastos
Uma apaixonada pelo Rio de Janeiro vivendo em Londres, Jamille é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que atualmente faz mestrado em Diversidade e Mídia na Universidade de Westminster. Em oito anos de experiência no digital, já coordenou e editou alguns gigantes de audiência como o site gastronômico TudoGostoso, mas se encontrou mesmo trabalhando para incluir a questão racial na mídia de uma forma justa e livre de estereótipos. Mudar narrativas é seu objetivo.

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