Arte

A prótese dentária que transformou Marlon Brando em Vito Corleone

Vitor Paiva - 23/02/2022 às 10:02 | Atualizada em 24/02/2022 às 10:29

Para dar vida a um grande personagem, um ator precisa de talento, técnica e um excelente texto, mas não somente: às vezes é preciso também encontrar a dentadura correta. Quem nos ensina essa valiosa lição é ninguém menos que Marlon Brando, ao encarnar o inesquecível mafioso Vito Corleone para o filme “O Poderoso Chefão” – a fim de fazê-lo parecer com um buldogue, o ator utilizou uma prótese bucal projetada especialmente para estufar a boca de Brando, ou melhor, de Vito, e assim criar o icônico semblante de um dos principais personagens de um dos melhores filmes em todos os tempos.

Marlon Brando, sem a prótese, e à direita, já como Vito Corleone - e com a maquiagem

Marlon Brando, sem a prótese, e à direita, com a maquiagem de Vito Corleone

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A ideia de fazer o grande e temido patriarca se parecer com um cão veio do próprio Brando, que durante os testes para o filme encheu a boca com bolas de algodão para ilustrar ao diretor Francis Ford Coppola o que tinha em mente. Para as filmagens propriamente, uma dentadura especial foi projetada pelo lendário artista Dick Smith, um dos grandes maquiadores de efeitos especiais do cinema, responsável por trabalhos como “O Exorcista”, “Taxi Driver”, “O Franco Atirador”, “Scanners”, “Amadeus”, além dos dois primeiros filmes da saga da família Corleone.

A prótese dentária com o nome do ator, no acervo do museu em Nova York

A prótese bucal com o nome do ator, no acervo do museu em Nova York

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O projeto do maquiador foi realizado por um dentista de Nova York chamado Henry Dwork, primeiro em um protótipo mais confortável, feito em látex, mas que deixava a aparência do ator excessivamente suave e tombada: era necessário uma dentadura mais firme, mesmo que mais incômoda, e a prótese que enfim foi utilizada foi feita em resina e aço. A prótese se revelou perfeita para trazer à tona o espirito e o semblante canino que tanto marcaria a face do personagem, inicialmente criado pelo autor estadunidense Mario Puzzo para seu romance de 1969 também intitulado “The Godfather”, que viria a ser imortalizado nas telas por Marlon Brando no primeiro filme da trilogia, lançado em 1972.

O ator testando a prótese no set de filmagem

O ator testando a prótese no set de filmagem

Brando em icônica cena de "O Poderoso Chefão"

Brando em icônica cena de “O Poderoso Chefão”

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O sucesso da atuação de Brando como Vito Corleone foi tamanho que a prótese bucal se tornaria uma verdadeira peça da história do cinema, e hoje é parte do acervo do Museum of the Moving Image, museu dedicado à sétima arte em Nova York.  Tal performance seria celebrada, ao lado do trabalho de Al Pacino, como um dos pontos mais fortes do imenso êxito do filme, e traria ao ator seu segundo Oscar – ele, no entanto, recusaria o prêmio como resistência contra a forma como os povos nativos dos EUA eram retratados nos filmes, e enviaria a ativista Sacheen Littlefeathe à cerimônia em seu lugar, para oficialmente recusar a estatueta e ler um discurso em protesto.

Brando em icônica cena de "O Poderoso Chefão"

O semblante canino do personagem em cena do filme

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© fotos: Messy Nessy/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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