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Antes do jazz, o Ragtime projetou as primeiras estrelas da música dos EUA

Vitor Paiva - 24/02/2022 às 15:40 | Atualizada em 11/04/2022 às 13:05

Antes de Billie Eillish, Kanye West, Beyoncé, Taylor Swift, antes do Hip hop e do Rock dos anos 90, do início do Rap e do Punk, da Disco Music, do Rock dos anos 1970 e 1960, do Blues e até mesmo do Jazz, a música dos Estados Unidos se formava sob os pilares do que ficou conhecido como Ragtime, um estilo que alcançou imenso sucesso no início do século XX, e que provavelmente o leitor ou a leitora já ouviram, mesmo que a memória em princípio diga que não. Pois todos conhecem a melodia e o ritmo sincopado de “The Entertainer”, clássico imortal lançado pelo pianista e compositor negro Scott Joplin em 1902, que permanece como uma das mais importantes e inesquecíveis peças musicais dos últimos 120 anos – e deliciosamente divertida, como precisamente sugere o título.

A Orquestra do Teatro Eblon, com a estrela do ragtime, James Scott, o segundo da direita pra esquerda

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Se você duvida que conhece a música, então dê uma ouvida antes de seguir a esse próximo parágrafo. Viu só? Se a composição de Joplin segue lembrada e celebrada, é fácil concluir a dimensão de seu sucesso quando foi lançada. “The Entertainer” foi um hit antes mesmo dessa realidade efetivamente existir, e o Ragtime, como um estilo precursor imediatamente anterior ao Jazz, ajudou a criar a indústria fonográfica nos EUA e as primeiras estrelas da música americana, se tornando, de certa forma, a página inicial de uma das maiores expressões populares modernas: é nele que a música autenticamente produzida nos EUA realmente começou. O ponto de partida do Ragtime é, portanto, o talento da comunidade negra, mas o contexto desse começo tem suas raízes fincadas no racismo profundo de então.

"Rei do Ragtime": o jovem Scott Joplin, em retrato de 1904

“Rei do Ragtime”: o jovem Scott Joplin, em retrato de 1904

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Nos primeiros anos após o fim da escravidão, surgiu com lamentável e imenso sucesso um tipo de espetáculo conhecido como “Minstrel Show” ou Show dos Menestréis, nos quais artistas, em sua maioria brancos com o rosto pintado de preto, se valendo da famigerada prática do blackface, imitavam de forma jocosa a música e a dança negra. Por força da necessidade, artistas negros também participavam dos Shows dos Menestréis, e foi assim que o Ragtime começou a conquistar públicos maiores, como trilha de tais espetáculos, e a se tornar um verdadeiro fenômeno popular na virada do século. O primeiro artista de Ragtime publicado, Ernest Hogan, surgiu em um desses espetáculos.

Ernest Hogan, a primeira estrela do ragtime, fora de cena, à esquerda, e vestido para se apresentar, à direita

Ernest Hogan,  fora de cena, à esquerda, e pronto para se apresentar, à direita

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Além de Hogan, foram muitos os grandes nomes do Ragtime que contribuíram para a fundação da música negra e verdadeiramente americana, como Jelly Roll Morton, James P. Johnson, Joseph Lamb, Arthur Marshall, James Scott e tantos mais: o rei do estilo, porém, foi mesmo Scott Joplin, que hoje merece ser reconhecido como o primeiro grande nome da música nos EUA e um dos primeiros artistas a vender milhões de cópias – não de discos, mas sim de partituras, com sua igualmente popular e histórica composição “Maple Leaf Rag”. Apesar de seu sucesso, o rendimento com os direitos autorais, em uma indústria fonográfica nascente e racista, era modesto e, em 1917, Joplin viria a falecer com 48 anos, como consequência de uma sífilis neurológica, em Nova York.

Capa da partitura dos dois maiores sucesso de Scott Joplin

Capa da partitura dos dois maiores sucesso de Scott Joplin, que venderam milhões de cópias

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A morte de Joplin representou o fim do período áureo do Ragtime que, com a perda de seu mais popular e importante artista, aos poucos começou a se transmutar e dar espaço a outros gêneros geridos em seu ventre, como o Swing das grandes bandas, o Stride, e principalmente o Jazz. “The Entertainer” seria reconhecida pela Associação Americana da Indústria de Gravação como a décima mais importante “Canção do Século” no país, e Joplin receberia, em 1976, um Prêmio Pulitzer póstumo, por sua inestimável contribuição para o estabelecimento da música nos EUA – e, assim, para a fundação de uma parte fundamental da cultura, da identidade, e do que o país de melhor ofereceu até hoje ao mundo.

Scott Joplin foi a primeira estrela da música dos EUA

Scott Joplin foi a primeira estrela da música dos EUA

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© fotos 1, 3: Messy Nessy

© fotos 2, 5: Getty Images

© foto 4: Wikimedia Commons


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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