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Betty Davis: autonomia, estilo e coragem na despedida de uma das maiores vozes do funk

Vitor Paiva - 14/02/2022 às 10:08 | Atualizada em 11/04/2022 às 13:07

O espírito rebelde, libertário, provocador e criativo que fez da cantora e compositora estadunidense Betty Davis uma das mais importantes vozes na modernização da música negra dos anos 70 ressoam até hoje, a partir de sua obra mas também de sua vida, que se encerrou no último dia 9 de fevereiro. Por décadas, a artista nascida como Betty Gray Mabry em 6 de julho de 1944 foi preguiçosamente lembrada como ex-mulher de Miles Davis, de quem herdou o sobrenome, mas os últimos anos trouxeram à tona e aos ouvidos a verdade que aponta à obra de Betty como um pioneiro ponto de afirmação e revolução feminina e feminista, de excelência musical, coragem e originalidade.

Betty Davis

A artista faleceu em sua casa, nos EUA, aos 77 anos

Betty Davis

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Praticamente toda sua obra discográfica foi lançada em três discos: Betty Davis, de 1973, They Say I’m Different, de 1974, e Nasty Gal, de 1975. Betty Davis era uma mulher negra cantando de forma corajosa, franca e firme, aberta e sedutora sobre sexualidade, erotismo, amor, desejo, afirmação feminina – em quadro que talvez explique tanto o fato de sua obra não ter alcançado o sucesso comercial que merecia, quanto a dimensão da influência que trouxe às gerações seguintes, apesar do fracasso de vendas. Ao mesmo tempo em que a carreira de Davis era decretada como encerrada, artistas como Prince, Madonna, Erykah Badu e tantas mais se faziam possíveis graças ao seu legado: ao caminho que ela corajosamente ajudou a iniciar.

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“Ela deu início a tudo isso. Ela simplesmente estava a frente de seu tempo”, afirmou o próprio Miles Davis, em sua autobiografia, a respeito do impacto do trabalho de sua ex-mulher. Para além do que viria, ela também influenciou profundamente seus amigos mais célebres e contemporâneos, como Jimi Hendrix, Sly Stone, além, é claro, do próprio Miles. O relacionamento entre os dois foi curto, tendo durado pouco mais de um ano, mas o impacto de Betty sobre a obra do maior nome da história do Jazz duraria para sempre: foi ela quem apresentou a Miles justamente os trabalhos de Jimi Hendrix e da Sly & The Family Stone, sugerindo tais sonoridades como excitantes possibilidades de renovação para a obra de seu então marido.

Betty e Miles no velório de Jimi Hendrix, em 1970

Betty e Miles no velório de Jimi Hendrix, em 1970

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Ele concordou, e assim nasceram clássicos como In a Silent Way e Bitches Brew, discos que Miles lançou em 1969 e 1970 e, com eles, o início do que viria a ser conhecido como Fusion, gênero que misturava o jazz ao rock. Mais do que influenciar a Miles, porém, a obra de Betty hoje se destaca como um marco fundador da afirmação poética, política, estética e ética da personalidade, sexualidade e determinação feminina e negra na música pop – sem pedir licença ou desculpas, com coragem e qualidade de quem escreveu e arranjou quase todo seu repertório, dizendo e soando exatamente como quis. O conservadorismo, o machismo e o racismo, porém, impuseram sobre Betty Davis o fracasso comercial que fez com que ela permanecesse quase quatro décadas sem lançar nada.

Betty Davis

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Recentemente, antigas gravações inéditas e raras faixas recentes – além, é claro, de seus três discos efetivamente lançados nos anos 70 – reluzem como partes de uma obra tão original quanto fundamental, formando uma música crua e dançante, corajosa e elaborada, divertida e rascante que faz soar a marca inequívoca deixada por Betty Davis. A artista faleceu em sua casa, em Homestead, no estado da Pensilvânia, nos EUA, de causas naturais, aos 77 anos.

Betty Davis também trabalhou como modelo nos anos 60 e 70

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© fotos: Getty Images


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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