Sustentabilidade

Chuvas em Petrópolis, MG, SP e Bahia: emergência climática potencializa mortes por ausência de política socioambiental

Yuri Ferreira - 16/02/2022 às 13:59

Um temporal assolou a cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, na tarde da última terça-feira (15). As chuvas causaram 54 óbitos confirmados pela Defesa Civil até o momento, além de um número desconhecido de desaparecidos – soterrados em meio aos escombros provocados pelos deslizamentos de terra impressionantes que atingiram a Cidade Imperial.

Mais de 80 residências foram destruídas pelas chuvas e a região mais afetada pela precipitação, que superou a média esperada para todo o mês de fevereiro, foi o Morro da Oficina, no Alto da Serra.

Bombeiros buscam por sobreviventes no meio de um morro soterrado em Petrópolis (RJ)

As equipes dos Bombeiros e da Defesa Civil tentam encontrar desaparecidos e soterrados afetados pelo deslizamento de encostas causado pelas chuvas extremas na região serrana. Confira imagens da enchente:

Políticas públicas podem acabar com desastres ambientais

Petrópolis recebeu em seis horas um nível de chuva superior ao da média para fevereiro. Foram cerca de 260 milímetros, 20 a mais do que os 240 (mm) esperados para o período de quase 30 dias. As mortes, entretanto, aparecem nos jornais como mero acaso da mudança climática. Entretanto, será que estamos abordando essa realidade da forma correta?

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A prefeitura de Petrópolis irá conceder um auxílio-aluguel para as vítimas das enchentes no valor de R$ 400 até que moradias populares sejam concluídas e possam abrigar pessoas que moram em regiões de risco.

Os mortos e os desabrigados de Petrópolis são residentes de localidades menos observadas pelo poder público, que dá sempre a mesma desculpa: era impossível prever que haveria uma chuva tão forte assim.

Deslizamento de terra matou 4 em favela em Francisco Morato

O mesmo ocorreu em Francisco Morato (SP), nas cidades do norte de Minas Gerais e no sul da Bahia. Em todos esses lugares, inclusive, quem mais sofreu foram os mais pobres, com suas moradias relegadas às margens de córregos e às várzeas dos rios que encheram ou localizadas nas encostas de morros suscetíveis ao deslizamento e ao soterramento.

E em quase todos os municípios de médio e grande porte do Brasil existem bairros nessas condições. O Estado pensa somente na criação de piscinões, mas pouco se faz para instaurar um modelo de sustentabilidade que não valha apenas para o comercial do Itaú ou para as imagens de drone que passam na TV. Precisamos de uma sustentabilidade que evite mortes, agora.

Para isso, estudos sobre a segurança das condições dos morros no Brasil devem ser feitos com urgência pelos gestores públicos. Trabalhar com a previsão do tempo debaixo do braço, observando como diversos modelos climáticos preconizam chuvas e ventos para conseguir retirar as pessoas de locais de risco antes que as tragédias ocorram, também é importante.

Utilizar o Plano Diretor como política pública para garantir cidades com mais permeabilidade e moradias populares seguras e de qualidade para toda a população, a fim de evitar invasões irregulares que, pasmem, irão causar mortes evitáveis em médio e longo prazo.

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Tudo isso é possível e realizável. A Holanda é um país que possui toda uma política pública desenhada para conter mortes causadas por enchentes. No ano passado, quando as tempestades assolaram e mataram centenas na Bélgica e na Alemanha, o país vizinho saiu ileso, mostrando que sua política valeu a pena.

A Holanda criou uma política chamada de “Espaço para o Rio”, onde praticamente todos os cursos d’água do país tiveram seus leitos aprofundados e amplificados. Dessa forma, quando os níveis de água sobem, os rios não transbordam e as enchentes não ocorrem.

Na Bahia, 40 mortos e mais de 30 mil desabrigados por conta das enchentes

De acordo com Henk Ovink, expert em enchentes e enviado internacional da Holanda para assuntos climáticos internacionais, tudo é uma questão de política pública.

“Todo desastre ambiental é como um raio X. Ele mostra a vulnerabilidade do sistema e mostra todas as interdependências que existem entre as águas, as infraestruturas urbanas e os sistemas da sociedade. Se você olhar de forma atenta, você pode prevenir e criar um sistema de defesa melhor para os desafios que o futuro irá nos impor. Tragédias são terríveis, mas devem servir como alguma forma de lição”, explicou à NBC.

Quem é a vítima?

O que observamos nos últimos meses no Brasil não passa de uma consequência do despreparo das autoridades brasileiras com a questão ambiental. Para além da matriz energéticapara além dos recursos renováveis ou todos os outros tipos de discurso – que vale ressaltar, são importantíssimos -, a política ambiental brasileira também precisa se concentrar com o aqui e com o agora.

Ao olhar para as vítimas das enchentes do sul da Bahia, não encontramos os donos das mansões milionárias no lado da costa, mas vimos os trabalhadores das cidades afogados pelas águas.

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Em São Paulo, não foram as mansões da Serra da Cantareira, em Mairiporã, que foram atingidas pelo deslizamento de terra, mas uma favela, a poucos quilômetros dali. Qual a diferença entre uma e entre outra?

Em Petrópolis, o mesmo. Não foram as casas históricas e coloniais da elite que ainda tem a cidade como casa de campo – como a família real -, mas uma favela. As vítimas são os pobres e os pretos.

“As injustiças históricas e atuais fizeram com que comunidades de indígenas, de negros e de pessoas racializadas fossem expostas de forma muito mais intensa a catástrofes ambientais e de saúde do que as comunidades brancas e ricas”, explica a cientista e ativista climática Mulako Kabisa.

Hoje, o debate social sobre a mudança climática é amplamente acompanhado de questões raciais. “Para nós, como parte do movimento por justiça climática, separar essas coisas é impossível. A verdade é que o movimento contra a mudança climática, pessoas negras e pessoas indígenas sempre trabalharam juntos e de forma multidimensional por questões parecidas”, ressalta a ativista da Aliança Pela Justiça Climática Elizabeth Yeampierre em conversa na Universidade de Yale.

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“As comunidades que mais foram impactadas pela covid-19 e pela poluição também serão as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos. E não é surpresa. Também, aliás, não é surpresa que elas sejam as que mais sofrem com a violência policial e com a violência racista. São os mesmo locais, ao redor de todo os EUA e do planeta. E não dá para tratar o problema de forma isolada, porque tudo é sistêmico”, pontua.

A especulação imobiliária, a falta de políticas de larga escala para conter os efeitos da mudança climática e, por fim, a inação do poder público frente ao óbvio ululante evidencia que a mudança climática tem um alvo prioritário: antes de acabar com o mundo, acabarão com os pobres, com os pretos, com os indígenas, com os caiçaras e ribeirinhos, e com tudo que a elite não gosta.

Como ajudar Petrópolis

Agora que a tragédia já ocorreu, é importante que juntemos esforços para ajudar a população desabrigada a passar por esse momento difícil. E como ajudar Petrópolis? Selecionamos locais presenciais onde você, do Estado do Rio de Janeiro, pode fazer doações, além de contas para realização de doações em dinheiro para moradores de outros estados atingidos pelas chuvas.

Para doações presenciais, as prioridades são garrafas de água mineral, colchões, cobertores, material de limpeza e higiene pessoal, máscaras, álcool em gel, roupas (para adultos, crianças e bebês) e alimentos não perecíveis. Seguem locais de doação:

Em Petrópolis:

  • Centro de Cultura de Pedro do Rio
  • Centro de Defesa de Direitos Humanos, no Centro
  • Centro de Defesa dos Direitos Humanos: Rua Monsenhor Barcelar 400, Centro
  • Igreja Batista Atitude: Rua Quissamã 777
  • Igreja Católica de São Francisco de Assis: Rua João Xavier, Moinho Preto
  • Igreja Lagoinha, no Quitandinha
  • Igreja Metodista Central, na subida da Rua Teresa
  • Igreja Missões Evangelística Vinde Amados Meus: Rua Bernardo de Vasconcelos 604 , Cascatinha.
  • Igreja Semeando Avivamento: Rua Dr. Thouzet 10, Quitandinha
  • OAB: Rua Marechal Deodoro 229, sobreloja, Centro
  • Pronto Socorro do Alto da Serra: Rua Teresa 1.839, Alto da Serra
  • Shopping Tarrafas, em Itaipava

No Rio de Janeiro:

  • Sede do Fluminense, em Laranjeiras
  • Sede do RioSolidário: Travessa Euricles de Matos 17, em Laranjeiras
  • Sede do Flamengo, na Gávea
  • Sede Náutica do Vasco, na Lagoa
  • Paróquia São José da Lagoa: Avenida Borges de Medeiros 2.735
  • Botafogo Praia Shopping
  • Rio Design Leblon
  • Estádio do Maracanã
  • Estádio Nilton Santos, no Portão 2, no Engenho de Dentro
  • Estádio de São Januário, em São Cristóvão
  • Prefeitura Universitária da UFRJ: Praça Jorge Machado Moreira 100, na Ilha do Fundão
  • Shopping Tijuca: Av. Maracanã 987, 1º piso e SAC (G2).
  • NorteShopping: Av. Dom Hélder Câmara 5474, Cachambi, Espaço Cliente, 2º piso
  • Shopping Nova América
  • Madureira Shopping
  • Shopping Boulevard
  • Sede da OAB: Avenida Marechal Câmara 210
  • Sede da Ação da Cidadania: Rua da Gamboa 246, Santo Cristo
  • Sede da Cedae: Avenida Presidente Vargas 2655
  • Sede da Seap, na torre da Central do Brasil
  • Rio Design Barra
  • Cruz Vermelha de Realengo: Avenida Santa Cruz 1896
  • Quadra da Unidos de Padre Miguel: Rua Mesquita 8

Na Baixada:

  • Cruz Vermelha de Duque de Caxias: Rua Conde de Porto Alegre 155, bairro 25 de Agosto, e Praça da Mantiquira, em Xerém
  • Cruz Vermelha de Nova Iguaçu: Rua Iracema Soares Junqueira 224, Centro
  • Estação de Tratamento do Guandu: Rua Coqueiros 142, Nova Iguaçu

Em Niterói

  • Plaza Niterói: Rua XV de Novembro 8, Centro: SAC, 2º piso, e entrada principal

Em Teresópolis

  • Cedae: Avenida Feliciano Sodré 848, Várzea

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Fotos: Divulgação: Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro


Yuri Ferreira
Jornalista formado na Escola de Jornalismo da Énois. Já publicou em veículos como The Guardian, UOL, The Intercept, VICE, Carta e hoje escreve aqui no Hypeness.

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