Criatividade

Código Dickens: caligrafia ilegível do autor inglês é finalmente decifrada, mais de 160 anos depois

Vitor Paiva - 24/02/2022 às 15:40 | Atualizada em 03/03/2022 às 10:20

Em sua obra, o autor inglês Charles Dickens procurava escrever de forma clara e sedutora, a fim de atrair o leitor para dentro do universo retratado, em estilo que o tornou um dos romancistas mais celebrados e lidos desde o século XIX e até hoje. Em sua vida privada, porém – mais precisamente, em seus bilhetes, cartas e anotações manuscritas –, Dickens explorava uma grafia e mesmo uma linguagem oposta a que o tornou tão popular: através de uma forma de escrita à mão conhecida como “Braquigrafia”, o escritor desenvolveu uma maneira cifrada de abreviar palavras e letras de tal forma complexa e impossível de ser compreendida que ele próprio se referia à sua letra como sendo a “caligrafia do diabo”, que por quase dois séculos permaneceu praticamente ilegível e indecifrável, mesmo para os mais dedicados pesquisadores.

O autor inglês Charles Dickens

O autor inglês Charles Dickens: sua “braquigrafia” é uma das mais indecifráveis já vistas

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Em seu livro semiautobiográfico “David Copperfield”, Dickens se refere à sua braquigrafia como um “selvagem mistério estenográfico”, referindo-se à técnica de criptografia que consiste em abreviar palavras de tal forma que é possível transcrevê-las ao ritmo que são pronunciadas e ouvidas. A escrita de Dickens era tão criptográfica que, além dos muitos estudos e trabalhos que buscaram, ao longo dos anos, “traduzir” sua caligrafia, um site, precisamente intitulado The Dickens Code (O Código Dickens, em tradução livre) há anos se dedica a decifrar sua escrita. Na própria página, parte da dificuldade é explicada pelo fato de que, por ter utilizado a técnica ao longo de toda sua vida, o escritor naturalmente foi alterando os códigos, os desenhos, bem como seus significados, e tornando o que já era impossível em linguagem ainda mais incompreensível.

A carta que serviu de base para o concurso

A carta que serviu de base para o concurso

-Menina que nasceu sem as mãos é bicampeã em concurso de caligrafia nos EUA

Para incentivar a busca e resolver o “selvagem mistério”, o site estabeleceu um concurso, oferecendo prêmio de 300 libras – equivalente a cerca de 2,1 mil reais – para quem melhor conseguisse transcrever as abreviações do autor inglês. O vencedor foi o especialista em computação Shane Baggs, de San Jose, na Califórnia, que conseguiu “traduzir” mais símbolos do que qualquer um dos outros 1000 concorrentes que, entre os círculos, arrobas, ganchos, linhas e pontos da assombrosa caligrafia de Dickens, participaram da competição. Baggs decifrou uma carta manuscrita do autor para o editor do jornal Times of London, escrita em 1859, ano em que Dickens publicava o clássico “Uma História em Duas Cidades”.

O próprio Dickens iniciou alguns guias para compreender sua caligrafia

O próprio Dickens iniciou alguns guias para compreender sua caligrafia criptografada

-O incrível manual de caligrafia do século XVI que está disponível para download gratuito

Na carta, o autor de “Oliver Twist”, “Grandes Esperanças” e “A Christmas Carol” pede que o jornal publique um anúncio seu que havia sido rejeitado, promovendo uma nova revista literária. “Depois de tirar somente C nas aulas de literatura, eu nunca imaginei que faria algo que seria do interesse de estudiosos em Dickens”, comentou o vencedor do concurso, de 55 anos. Baggs, que antes participou de alguns cursos gratuitos sobre braquigrafia, fez questão de deixar claro que não teria conseguido sem “outros tradutores, e o time de especialistas que não somente reuniram o trabalho, mas interpretaram as pistas”, afirmou. Curiosamente, o vencedor do concurso, que conseguiu decifrar a caligrafia do diabo mais de 160 anos depois, nunca leu um livro de Dickens sequer.

O vencedor do concurso decifrando a "caligrafia do diabo"

O vencedor do concurso decifrando a “caligrafia do diabo”

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© foto 1: Charles Dickens Museum/Shutterstock

© foto 2: Alamy Stock Photo

© foto 3: University of Manchester

© foto 4: The Dickens Code/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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