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Congolês espancado por cobrar dívida suplicou para não morrer; quiosque no RJ seguiu aberto com corpo negro estendido no chão

Redação Hypeness - 01/02/2022 às 13:01 | Atualizada em 01/02/2022 às 14:41

Moïse Kabagambe era um refugiado de guerra da República Democrático do Congo. Ele havia chegado há oito anos no Brasil, em 2014, e trabalhava por diárias no quiosque Tropicália, no Posto 8 da praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Nesta segunda-feira (31), ele foi espancado até a morte por cobrar o pagamento pelo seu trabalho no estabelecimento.

Moïse foi vítima de homicídio brutal e racista na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

O congolês de 25 anos foi duramente agredido por 15 minutos na Barra da Tijuca pelo gerente do quiosque – cujo nome não foi identificado até agora (por quê?) – e por outros cinco homens. De acordo com testemunhas, “dois homens perseguiram a vítima que fugia correndo pela areia, quando na subida do quiosque Tropicália, o mesmo foi alcançado, onde apanhou com um porrete, e a vítima gritava, pedindo para não o matarem”. Não o ouviram e o mataram.

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Moïse cobrava dois dias de pagamento atrasados do quiosque Tropicália. O corpo da vítima foi levado para um lugar um pouco afastado do quiosque, que continuou funcionando plenamente depois do brutal assassinato.

Oito pessoas foram ouvidas como testemunhas pelas autoridades cariocas, mas ninguém foi preso até o momento. “As investigações estão em andamento na Delegacia de Homicídios da Capital. A perícia foi realizada no local e imagens de câmeras de segurança foram analisadas. Diligências estão em curso para identificar os autores”, diz a Polícia Civil.

Moise fugia da guerra

Moïse veio junto de sua família para o Brasil para fugir da Guerra Civil na República Democrática do Congo (RDC). Apesar de a guerra ter sido declarada extinta no ano de 2003, diversos conflitos se espalham pelo país com maior dimensão territorial da África.

Imagens do conflito em Ituri, região de nascimento de Moïse

O território do Congo é fracionado entre diversas etnias que também entram em conflito com o governo central de Kinshasa. Além disso, o país serve como espaço para treinamento de forças paramilitares que estão em luta em Uganda, Burundi e Sudão do Sul.

De acordo com Ivana Lay, mãe do congolês Moise Kabamgabe, eles moravam em uma região em disputa por duas populações: os Hema e os Lendu, na região de Ituri, no nordeste da RDC. A guerra envolve a participação de diversos países e até do auto-intitulado Estado Islâmico (ISIS).

“Nessa guerra, eles mataram a minha mãe, meus parentes, toda a minha família. Continuam até hoje, e todo dia tem mortes. Ela ainda dura no Congo. O pai dele e muitos parentes desapareceram por conta dessa disputa”, contou Ivana ao jornal O GLOBO.

Refugiado do conflito, Moïse conheceu o genocídio brasileiro contra os jovens negros da pior forma possível. “Eles conheciam o meu filho e tiraram a vida dele. Se houve algum problema, eles não poderiam matá-lo”, lamentou Ivana.

O mito do Brasil receptivo

A morte de Moïse Kabagambe é mais uma evidência que deveria dar fim ao mito do Brasil como um país receptivo, cordial e amistoso com seus imigrantes. Especialmente se eles vieram da África. Foram mais de 300 anos de escravidão contra pessoas sequestradas da África nesse país e, até hoje, essas dores ainda não sararam.

O fato de que brasileiros se animam ao ver um europeu ou estadunidense não significa que nós somos um país receptivo. O Brasil não é receptivo com seus imigrantes bolivianos, venezuelanos, haitianos, congoleses, nigerianos, enfim, entre tantos outros povos do terceiro mundo que vieram para cá.

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Ao observar esse fato sob uma perspectiva social, notamos que a receptividade nada mais é do que um mito. “O fato histórico foi elaborado em um discurso de justificação e levou à construção do mito de receptividade, que funciona para negar a presença de xenofobia na sociedade”, explicam a professora doutora em Psicologia Social  Szilvia Simai e a dra. Rosana Baeninger, docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP no artigo O mito da receptividade brasileira: a negação da xenofobia na sociedade contemporânea.

“A imigração histórica e a coexistência de vários grupos étnicos, nacionais e religiosos, bem como a integração de imigrantes, não foi um processo tão amigável  e não tão suave como tem sido presumido pelo mito de receptividade. Segundo, mesmo se o Brasil tivesse tido um passado de aceitação receptiva de imigrantes, como é fantasiado, isso de modo nenhum garantiria que a aceitação contemporânea de imigrantes recém-chegados à sociedade brasileira fosse sem conflitos”, continuam.

Um país receptivo com seus imigrantes não espancaria um deles até a morte por cobrar o mínimo: o pagamento por seu trabalho.

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Fotos: Foto 1: Reprodução Foto 2: MONUSCO


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