Arte

Conheça Pope.L: o artista que tornou o ato de rastejar por NY em performance – e política

Vitor Paiva - 18/02/2022 às 15:50

Enquanto o senso comum nos convida a olhar pra cima, para miramos o céu e os mistérios do que vem do alto, o performer estadunidense William Pope.L desde os anos 70 escolhe desviar nosso foco e olhar para o sentido contrário – para o chão, cumprindo o sentido da arte em revelar o que não é visto em um primeiro olhar. Reconhecido também por seu trabalho como artista visual, foi através das performances conhecidas como “crawls” ou rastejamentos, em tradução livre, que desde os anos 70 o artista vem tornando o ato de rastejar em arte, discurso, política, e estética.

Pope.L em parte da performance Tompkins Square Crawl, rastejamento praticado em Nova York em 1991

Pope.L em parte da performance Tompkins Square Crawl, praticada em Nova York em 1991

Outra "cena" de Tompkins Square Crawl, de 1991

Outra “cena” de Tompkins Square Crawl, de 1991

-René Robert: o fotógrafo que desmaiou e morreu de frio e indiferença nas ruas de Paris

Os “rastejamentos” de Pope.L começaram em 1978, quando o artista, em busca de um trabalho que não precisasse de linguagem além de uma ação, vestiu um terno executivo com um quadrado amarelo atado às costas, e percorreu usando as mãos e os joelhos parte da rua 42, em Nova York: intitulado Times Square Crawl a.k.a. Meditation Square Piece, a obra previa a “desistência da verticalidade” como princípio. Além de desviar nosso olhar do óbvio e nos levar a olhar para o que passaria desapercebido, a performance também visava oferecer visibilidade à realidade das pessoas em situação de rua, dilema que afetava alguns membros da família do artista. A maioria das pessoas poderia desprezar o artista ao chão, mas se  um passante olhasse para baixo, o sentido da obra estaria completo – e missão cumprida.

Times Square Crawl a.k.a. Meditation Square Piece, primeira performance de rastejamento, de 1978

Times Square Crawl, primeira performance de rastejamento, de 1978

A primeira peça também foi batizada como Meditation Square Piece

A primeira peça também foi batizada como Meditation Square Piece

Como o nome sugere, o artista rastejava pela região da Times Square

Como o nome sugere, o artista rastejava pela região da Times Square

Policial "interrompendo" a performance, em 1978

Policial “interrompendo” a performance, em 1978

-Série de fotos impressionante mostra a Nova York dos anos 70 e 80

Desde então, o artista – que também trabalha como professor e pesquisador das artes há décadas no país – já se arrastou por quase toda Nova York e ruas em cidades de diversos países, vestindo-se também com a roupa do Super-homem, e carregando objetos como um vaso de flores e um skate preso às costas – entrando em contato, segundo ele, com a realidade que existe somente à altura dos nossos pés. Outra performance célebre de Pope.L foi realizada em 1997 e intitulada ATM Piece, quando o artista se prendeu à porta de um banco em Manhattan com uma linguiça italiana de mais de 2 metros, e vestindo somente botas e uma saia feita com notas de dólares – suas peças também incluem diálogos com a poesia falada, meditação, intervenção urbana, e mais.

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O trabalho de Pope.L foi tema de uma grande retrospectiva realizada no MoMA, em Nova York, percorrendo seu trabalho desde 1978 até 2001 – apresentando uma obra apontada pelo museu como capaz de “levantar questões provocadoras sobre a cultura de consumo e os conflitos rociais, raciais e econômicos (…) escapando de definições fáceis”. Apresentando-se como um “pescador do absurdo social”, o trabalho do artista de 67 anos mistura teatro, performance, ações de rua, pintura, vídeo e escultura para apontar a ferida da desigualdade – entre a riqueza e o que ele define como “não-ter”, e examinando a divisão, a exploração, o racismo, a subserviência, a exaustão, as cruéis hierarquias sociais e profissionais e imensa a separação entre a pobreza e a riqueza como fonte do absurdo que ele torna em arte e denúncia com gestos tão simples quanto profundos, à altura do chão.

Momento da performance Tompkins Square Crawl, de 1991

Momento da performance Tompkins Square Crawl, de 1991

Pope.L vestido de Super-homem em mais um rastejamento por Nova York

Pope.L vestido de Super-homem em mais um rastejamento por Nova York

Em Thunderbird Immolation o artista se senta em frente a uma galeria comercial de luxo, jogando vinho barato sobre a cabeça com fósforos posicionados ao seu redor

Em Thunderbird Immolation o artista se senta em frente a uma galeria comercial de luxo, jogando vinho barato sobre a cabeça com fósforos posicionados ao seu redor

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© fotos: Pope.L/MoMA/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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