Ciência

Covid: como o que você faz no banheiro pode ajudar a mapear pandemia

Vitor Paiva - 10/02/2022 às 10:04 | Atualizada em 11/02/2022 às 16:14

Muito mais do que somente um depósito de resíduos, dejetos e excrementos humanos, o esgoto pode ser uma importante ferramenta pela saúde pública, bem como um instrumento fundamental para o controle da pandemia e no combate de novas crises sanitárias. É essa a conclusão de um novo estudo, publicado na revista científica Nature: o futuro da Covid-19 pode estar literalmente descendo pelo cano em cada vez que damos a descarga, com uma grande quantidade de informação biológica produzida por cada um de nós, capaz de trazer respostas importantes sobre o estágio comunitário de uma pandemia ou o surgimento de uma nova cepa eventual.

cano de esgoto

Os dejetos despejados em esgotos podem ajudar a conter a pandemia, diz o estudo

-Cientistas descobrem como produzir petróleo a partir do esgoto

O ponto de partida do estudo intitulado “Tracking Covid-19 with wastewater” (Rastreando a Covid-19 através da água residual, em tradução livre) é inequívoco: enquanto nem todo mundo terá acesso aos melhores testes para a detecção do vírus, todos irão ao banheiro. É partindo dessa premissa que cada vez mais cidades dos EUA e outros países do mundo estão analisando os detritos humanos despejados no esgoto para monitorar a pandemia – ainda que o método não seja eficaz para a diagnosticar precisamente o estado do vírus em um individuo, a análise de tal material pode ser um indicador especialmente eficaz de qual deve ser o próximo passo para a contenção coletiva da pandemia.

sistema de tratamento

Diversas cidades dos EUA já analisam os materiais em busca de informações comunitárias

-Bill Gates apresenta sistema que transforma esgoto em água potável e energia

O método é simples: a análise de uma parte de material coletado, através de um teste PCR similar ao que fazemos individualmente, pode indicar a quantidade de vírus naquela região e comunidade, bem como a qual cepa pertence. A informação é relevante não somente para determinar o estágio de uma pandemia, mas também para indicar, por exemplo, onde as autoridades devem focar campanhas e centros de vacinação, distribuição de material informativo, equipamentos para teste, e outras iniciativas capazes de conter a doença. Nos EUA, o sistema de epidemiologia em águas residuais já é utilizado há alguns anos, com especial eficácia para o controle do uso de drogas em determinada região. Desde o início da pandemia, no entanto, que empresas que já ofereciam o serviço de controle indicaram a eficácia para monitorar o novo coronavírus em uma região – como um novo aspecto importante do já fundamental sistema de tratamento de esgoto.

teste de covid

Os materiais coletados passam por processos de testagem comum para a doença

-Baterias biológicas geram energia com água do esgoto

“A vigilância da Covid-19 em águas residuais pode trazer muitos benefícios, como um meio financeiramente efetivo de analisar dinâmicas de transmissão em comunidades inteiras”, diz o texto da pesquisa. “Evitando vieses de outros indicadores epidemiológicos, o método coleta informações de pessoas sem acesso à assistência médica, e se revelou eficaz em revelar dinâmicas infecciosas antes de testes e diagnósticos, capaz de levantar informações de saúde pública oficiais praticamente em tempo real para o combate da doença”, diz o artigo, que pode ser lido em inglês aqui. Se, para muitos, o advento dos sistemas de esgoto foi uma dos mais importantes inovações sanitárias da história, o rastreamento de tais sistemas pode se revelar fundamental também para a contenção da pandemia atual – e de possíveis pandemias futuras.

As grandes centrais de tratamento de esgoto

As grandes centrais de tratamento de esgoto podem ganhar nova importância sanitária

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© foto 1: Getty Images

© fotos 2, 3: Wikimedia Commons

© foto 4: Pixabay


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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